Capitulo 48

286 27 119
                                        

— Não entende? Isso... você tem ideia do que eles fazem? A gente acabou de passar por uma missão onde estavam fazendo experimentos com crianças, e aquilo... aquilo não chega nem perto do que eu passei.

A respiração dela já estava acelerada, o peito subindo e descendo em ondas irregulares. As mãos apoiadas na mesa tremiam, os dedos cravando na madeira como se apenas aquilo a mantivesse de pé. O olhar não encontrava o de ninguém, estava fixo num ponto distante, no vazio, como se lá ainda houvesse o passado que a prendia.

— Eles tiraram tudo de mim. — A voz saiu baixa, áspera, quase um sussurro sufocado, mas cada palavra caiu pesada no ar. — O Quarto Vermelho não era um lugar... era uma prisão disfarçada de disciplina. Você não vive lá... você sobrevive.

Ela engoliu seco, cerrando os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Quando eu era criança, diziam que eu era especial. Mas especial, pra eles, significava ser moldada. Quebrada e remontada. Cada erro... cada passo em falso... era punição. Às vezes fome. Às vezes dor. Às vezes silêncio. — O peito dela arfou, a respiração falhando. — O silêncio era pior... porque você começava a acreditar que não existia.

As palavras saíam com dificuldade, como se cada uma precisasse atravessar lâminas para escapar.
— Tiraram meu nome. Tiraram meu futuro. Me ensinaram a matar antes de me ensinarem a sonhar. Colocaram meninas da minha idade em uma sala e disseram que só algumas voltariam no dia seguinte. Você entende o que é olhar nos olhos de alguém e saber que uma de vocês não vai mais existir?

Os lábios tremeram antes de continuar.
— Quando a formação terminou, disseram que era hora de nos tornar perfeitas. Cirurgia... sem escolha. Você acorda e uma parte de você foi arrancada para sempre. Aprende a sorrir quando mandam. A dançar como querem. A matar como programam. Mas por dentro... não sente nada. Porque sentir é fraqueza.

Uma lágrima escorreu solitária por sua bochecha, ignorada.
— Eu explodi aquele prédio achando que tinha acabado. Achando que tinha apagado aquele fantasma. Mas Dreykov ainda respira... e isso significa que todo aquele inferno nunca terminou.

O ar que entrou nos pulmões parecia ferro, pesado, arranhando por dentro.
— A pior parte? — a voz quase não saiu. — Eu não sei quem eu teria sido sem aquilo. Não sei se existe uma Natasha fora dali. Talvez tudo o que eu seja... seja o monstro que eles criaram.

O silêncio que se seguiu foi denso, cortante. O coração batia tão alto que parecia preencher a sala. Então, uma voz baixa, firme, o quebrou:

— Eu sei as coordenadas.

Ela girou bruscamente, séria, e largou a mochila sobre a mesa com força.
— Por favor, eu tô pedindo com calma.

— Ou o quê? Vai terminar comigo? Vai me bater? Vai me sedar?

O olhar se ergueu de imediato, ferido.
— Eu nunca encostaria um dedo em você e você sabe disso.

— Então não tem nada que me impeça.

O corpo se moveu em direção ao quarto, tirando a roupa com pressa, vestindo-se com movimentos secos.
— Para.

Nada. Calça jeans, camiseta, cada peça colocada como se fosse uma armadura.
— Eu não quero arriscar te perder de novo.

Silêncio. Apenas o som dos coturnos sendo amarrados.
— Por favor... você não sabe com o que está lidando.

Ela se levantou, atravessou a sala até a cômoda e pegou uma arma, colocando-a na cintura com firmeza.
— Eu mandei parar!

O grito explodiu sem controle, reverberando nas paredes como um tiro. O susto fez o corpo da outra estremecer, os olhos se arregalando. Um segundo depois, arrependimento.
— Desculpa...

Uma outra realidadeOnde histórias criam vida. Descubra agora