Capitulo 49

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A sala era pequena, iluminada apenas por uma lâmpada fraca no canto. O cheiro de poeira antiga e álcool barato impregnava o ar, misturando-se ao frio que vinha das paredes cinzentas. Amelia olhou para uma, depois para outra, o olhar oscilando entre as duas como quem buscava apoio num campo minado.

— Tem vodka? — perguntou, a voz baixa, quase cansada.

A loira arqueou uma sobrancelha e, sem dizer nada, caminhou até a cozinha. O som dos passos ecoava pelo chão gasto. A geladeira fez um estalo seco ao ser aberta. Yelena voltou com uma garrafa translúcida nas mãos e três copos pequenos, colocando-os sobre a mesa com um leve estalar de vidro.

— Você não vai beber. — a ruiva disse firme, os olhos duros sobre Amelia. — Os remédios, esqueceu?

— Sério? Ah, qual é... é só uma dose. — Amelia revirou os olhos, uma sombra de desafio na voz.

A outra apenas deu de ombros, e o gesto cortou mais do que palavras. Amelia desviou o olhar, respirando fundo, os dedos tamborilando nervosos sobre a madeira.

— Arranjou uma babá. — Yelena comentou com um sorriso torto, o sotaque carregando um deboche leve.

— Na verdade... eu namoro sua irmã. — Amelia soltou, quase como quem joga uma bomba no meio da sala.

— Eca. — Yelena fez uma careta.

— Ah, para de ser criança. — Amelia rebateu, já levando o copo aos lábios.

A ruiva virou a dose num único gole, a queimação descendo pela garganta e aquecendo o estômago. Yelena fez o mesmo. Por um momento, só o som do vidro contra a mesa se fez ouvir.

— Então? — a ruiva quebrou o silêncio, a voz grave, os olhos ainda no copo vazio.

Amelia respirou fundo, olhando para baixo, como se buscasse coragem no chão. O ar parecia mais pesado.

— Yelena foi enviada pela Sala Vermelha pra me matar quando eu tinha catorze anos. — disse enfim, as palavras carregadas de um peso antigo. — A Sala Vermelha não conseguiu me roubar de Cordelia... então me queriam morta. Eu não fazia nem ideia de quem comandava na época. E Yelena não podia me contar. Eu só fui descobrir porque você me contou.

Um silêncio atravessou a sala como uma lâmina. Yelena respirou fundo, mexendo no copo, evitando o olhar das duas.

— Mas a gente acabou virando amigas. — disse por fim, os ombros tensos. — Mesmo com a substância que me controlava até uns dias atrás... eu conseguia ainda lutar contra algumas coisas.

Amelia assentiu lentamente, os olhos fixos nela, a mão tremendo levemente ao girar o copo.

— Mas... houve uma explosão. — continuou, a voz embargada. — Não sabemos até hoje quem ou o que causou.

— Eu achei que ela tava morta. — Yelena completou, o olhar perdido. — Então eu voltei para o Quarto Vermelho. Era a minha missão.

— E eu voltei pra casa. — Amelia disse baixo. — Fiquei machucada, mas não foi nada sério.

A ruiva olhou de uma para outra, o coração apertado.

— Por que não me contou? — perguntou, a voz quase um sussurro.

— Eu não sabia que era ela. — Amelia respondeu, sem conseguir sustentar o olhar.

A ruiva voltou-se para Yelena, os olhos escuros examinando cada detalhe do rosto dela.

— Você cresceu. — murmurou.

— Não brinca. — Yelena retrucou, mas o sorriso não veio.

— Por que me chamou...? — a ruiva questionou, mais firme.

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