Dois

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   O funeral aconteceu três dias depois.

   Quarenta e oito mortes no total, mas aparentava ser bem mais do que havia saído na mídia. Quarenta e oito famílias desoladas, e muito mais de quarenta e oito amigos em luto.

   Ela usava um vestido preto com uma rosa branca presa em seu pulso. Seu cabelo estava desleixado, havia olheiras profundas embaixo de seus olhos castanhos. O tecido do vestido roçava os milhares de cortes em sua coxa, mas nada se comparava com a agonia que ela sentia internamente.

   Quarenta e oito cruzes foram postas em homenagem a todos que tiveram suas vidas tiradas com tamanha crueldade. Em um enorme campo verde, com mais flores do que ela podia imaginar, de joelhos no trigésimo quinto lugar, Agatha se encontrava carregando a pelúcia favorita de sua filhinha, encarando aquela cruz de madeira.

   Havia mais pessoas no lugar. Prestando suas homenagens às pessoas perdidas. Cuidadosamente, ela tocou a cruz, e seus olhos encheram de lágrimas automaticamente, e ela não se importou em deixá-las escorrerem.

   — Meu raio de sol — ela sussurrou com a voz embargada — Me perdoe por não ter buscado você mais cedo.

   E então, ela desabou. Deitada encolhida em cima da grama e do local onde sua filha fora enterrada, ela chorou até soluçar. O sol já havia ido embora há muitas horas, mas nada se comparava a luz que aquela garotinha emanava.

   Fungando, ela se colocou de joelho novamente, e beijou a cabeça do cachorrinho de pelúcia – denominado de Cokkie pela sua filha –, antes de colocá-lo carinhosamente em frente ao túmulo. Com uma pedra que ela havia trago, Agatha entalhou data e nome.

   "Billie D'G. Walter
2014 - 2021"

  Ela encarou o entalhe por alguns minutos, antes de se virar para o homem que chegou em passos silenciosos ao seu lado. O homem se agachou e tocou a cruz, abaixando a cabeça em respeito.

   Agatha secou as lágrimas com as costas das mãos e revirou os olhos. O homem colocou um buquê de girassóis ao lado do ursinho de pelúcia, o que a fez sorrir tristemente, antes de voltar com sua expressão inexpressiva.

   — Você veio, afinal — disse ela, sem humor.

   Ela ainda encarava as flores, mas sabia que ele estava olhando para ela.

   — Ela também era minha filha, Darla — ele argumentou. Agatha fechou os olhos e respirou fundo, virando o rosto lentamente para ele.

   Sim sim, ela usava nome falsos, muitos.

   — Não, não era.

   Ela virou o rosto para longe. Era impossível encará-lo. Os olhos verdes marcantes e o cabelo liso eram identicos ao de Billie. A garota costumava possuir seu nariz e sua boca, mas todo o resto, ela havia puxado seu pai.

   — Você sabe como nosso trabalho funciona. Eu precisei ficar longe — ele sussurrou — Assim como você.

   Raiva. Aquele tipo de raiva que inebria sua mente e faz você desejar colocar fogo no mundo, porque não há ninguém a culpar, a não ser você mesmo. Mordendo o interior de suas bochechas com força para não gritar, ela deu as costas, abandonando o homem e o túmulo.

   Mas ela sentiu ele correr para alcança-la. A mão do homem se fechou em seu pulso, e tão rapidamente como aconteceu, Agatha deu dois passos para o lado, e em segundos, o homem estava indefeso em seus braços, causado pelo mata-leão.

Imprudente - Livro 1Histórias para pegar e não largar. Descubra agora