Capítulo 8

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Atlas

🏈

Enterrar alguém era um saco

Lembrar da morte era pior ainda

Mas passar o dia do aniversário da pessoa sem ela do lado era uma merda gigantesca. Enxugo o rosto coberto de suor em uma toalha e jogo na cesta tentando me lembrar de colocar para lavar, tomo banho e quando já estou descendo as escadas para encontrar minha mais nova garrafa de vodca eu escuto meu celular tocando.

Suspiro me virando e olho o identificador vendo o número de Sean, olho para a tela até vê-la escurecer de novo e coloco o celular no silencioso quando vejo todas as mensagens de cobrança. Coloco uma camisa e paro no limiar da escada quando escuto a chuva batendo forte nas janelas consertadas.

Ok, beber primeiro, sair depois

Pego um copo de vidro mas desisto optando por apenas inverter a garrafa e tomar dois longos goles estremecendo quando a bebida esquenta minha garganta. Tusso e expiro olhando através da janela

Crianças correm no meio da rua fingindo fugirem da chuva e eu me sento no chão vendo-as brincarem soltando os gritos de animação e euforia. Passo a mão no cabelo úmido e olho para longe daquela cena

Talvez voltar para St. Louis não fosse uma boa ideia

Afinal, o que eu estava fazendo aqui? Descansando é que não era, não quando eu tinha garrafas de bebidas e pesadelos constantes no meio da noite. Não quando o vento ao amanhecer parecia muito com o som de gritos sibilantes

Não quando eu não podia ter aquilo que eu mais ansiava

Xingo baixinho e me levanto levando a garrafa pela metade comigo

🏈

As letras estão cada vez mais bagunçadas, a bola está coberta de lama e meus cabelos e roupas estão ensopados. Mas não é como se eu ligasse para isso agora. Apoio a cabeça no tronco da árvore e vejo as folhas se afastarem com o vento, algumas permanecendo e outras apenas indo embora para longe

Franzo a testa quando sinto algo queimar em meu pescoço e me viro inclinando a cabeça e captando um vislumbre de algo amarelo vivo. Passo a língua no lábio inferior e fungo observando o pontinho

- Eu sonhei com você um mês atrás - eu grito e a vejo parar, passo a mão nos olhos e me sentindo corajoso continuo - Você estava do lado da sala de aula da gente, sentada no corredor sujo, com suas roupas espalhafatosas, nem estava ligando para nada - solto uma risada que mais parece um gemido e fecho os olhos capturando a memória - Quando eu perguntei porque estava ali você disse que Leo tinha passado mal de manhã e que se acontecesse de novo você estaria lá para ele

O pontinho se aproxima de mim e eu abaixo o tom sentindo aos poucos o mundo voltar ao seu eixo

- Então me lembrei da primeira regra que criamos. Você se lembra?

- Se for para correr... - ela começa e eu sorrio, minha cabeça caindo para o lado

- Corra para mim - sussurro e a sinto cair ao meu lado. Sem mesmo me tocar e ainda assim....Ainda assim a sinto por todo lugar - O que está fazendo aqui?

- Hoje é aniversário dela

- Yep - falo e levanto a cabeça - Grande comemoração, certo?

Olho para Júlia quando não a escuto e vejo seus olhos inchados e sua expressão preocupada. Me inclino e toco sua bochecha capturando uma lágrima, ou seria uma gota de chuva?

- Tudo bem não estar bem Atlas - ela sussurra também inclinando a cabeça

- Você está bem? - pergunto e ela pisca

ENDZONE: Sem RegrasOnde histórias criam vida. Descubra agora