Cicatrizes

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Este capítulo pode possuir alguns temas sensíveis
Se alguma vez você já pensou em desistir: procure ajuda. Você não está sozinho.

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Tudo o que Akutagawa conseguia ouvir eram milhares de gritos irreais latejando em sua cabeça, matando-o de dentro para fora, apedrejando cada batimento arritmado de seu coração. Não sabia ao certo como havia corrido de volta, apenas sabia que seus pés cambaleantes o levaram pelo caminho entre os containers e becos e paredes cinzentas e sufocantes que o dilaceravam pelo simples fato de estarem ali. Se lembrava do vulto difuso de uma cena no pátio principal do Porto; sangue espalhado pelo chão plano de concreto, fumaça densa propagando-se ao redor, resquícios de fogo apagando-se nas superfícies e cantos gelados, corpos estirados com membros faltando. Teve a impressão de ver Yosano com uma foice nas mãos. Sirenes da Polícia soavam distantes. Tudo isso como um flash pavoroso de pesadelos.

Seus passos trôpegos o levaram de volta até seu carro. Não se importou com todos os outros que ficaram para trás. Dando a partida no motor, mal conseguia agarrar-se ao volante. Sentia ânsias. Seu próprio oxigênio trancando sua garganta, a pressão sanguínea aumentando gravemente; temia simplesmente parar de respirar ali mesmo.

Na estrada, quase bateu contra um carro duas vezes, sendo xingado pelo outro motorista. Seus ouvidos latejavam com os ruídos do movimento da cidade. Pisou no acelerador com a mais indubitável raiva, o ódio pulsando em suas veias.

Akutagawa quase se perdeu no caminho de volta; ultrapassou duas viaturas da Polícia em alta velocidade, o que com certeza resultaria posteriormente em algumas multas de trânsito, não obstante, não ligava nem um pouco para aqueles policiais imbecis. O revólver que havia disparado contra Dazai encontrava-se jogado no banco do passageiro, emanando um desconforto inexpugnável no momento.

Inconscientemente guiou de maneira muito rápida seu carro até a frente de sua casa. Estacionando de certa má vontade diante da calçada nevada, precisou reunir forças em seus joelhos para conseguir sustentar o peso de seu corpo nas pernas enfraquecidas ao deixar o automóvel. Ryūnosuke apoiou-se na maçaneta da porta, abrindo-a com violência. Uma náusea invadiu seu estômago quase automaticamente ao tontear até a cozinha pelo corredor da entrada. Gin se ergueu assustada de sua cadeira ao ver o estado de Ryuu.

-Irmão?! Céus, o que houve...? Você está bem? Encontraram Atsushi? -Ela se aproximou, preocupada, segurando entre as mãos uma xícara de chá que exalava preguiçosos traços de vapor e um aroma doce e simultaneamente desagradável.

A essência do líquido era repugnante, incomodativa, fazia os pulmões de Ryūnosuke se contraírem com ainda mais desgosto. O irmão não suportou, apoiando-se na superfície fria da mesa, tomou a xícara das mãos de Gin e a lançou com furor contra a parede lateral da cozinha, fazendo o objeto se espatifar com um tilintar indiscreto, o chá quente escorrendo pela estrutura branca da casa. Gin observou a bebida desvanecer-se em meio aos cacos da cerâmica no chão, o coração perturbado.

-Irmão... o que...

-MENTIROSOS. SÃO TODOS MENTIROSOS. Espero mais é que todos vão se foder. -Ele berrou, andando aos tropeços até as escadas, pisando com agressividade nos degraus de madeira escura.

-Aí, não fala desse jeito comigo -retrucou Gin. Mas suas emoções estavam abaladas demais para reprendê-lo. Deixou-se dominar pelo pranto silencioso que escorria por seu rosto. Um temor atingiu-a com um mau pressentimento -está acontecendo de novo.

No andar superior, Ryūnosuke adentrou seu quarto e bateu a porta, trancando-a por dentro. Permitiu que seu corpo escorregasse ali mesmo, sua cabeça tombando e golpeando-se contra a parede, fazendo a região arder por um longo tempo. Encolheu-se no chão, abraçando os joelhos; uma dor lancinante apertava seu peito e machucava como brasa quente. Sentiu um enjoo terrível ao levar seu olhar até o espelho da parede oposta, vendo sua imagem degradando-se numa tortura emocional e física sem fim.

The Armed Street ~ {Shin Soukoku Fanfic}Histórias para pegar e não largar. Descubra agora