Gurunga 3 de 14

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Bairro São Sebastião, Beija Flor, 03:42 PM

— Esse ano cê passo direto o ficô de recuperação? — Perguntou Fabíola? —

Chitão suspirou e disse desanimada.

— Fique de recuperação ni 4 matéria. — Respondeu ela —

Fabíola pareceu ficar levemente triste pela situação da amiga, ela não sabia exatamente o que dizer para confortar Chitão, então improvisou falando o que lhe veio à mente.

— Eu quase fiquei de recuperação na disgrama da matemática, mais passei por pôco... se você estudá muito, talvez dá pra você passá de ano. — Comentou Fabíola —

Chitão fez um pequeno gesto de negação com a cabeção de maneira inconsciente e falou.

— Sei não.... a coisa tá difícil, só se for com muita sorte pra eu passá. — Disse Chitão desesperançosa —

As garotas permaneceram por um tempo sentadas na calçada em frente à igreja católica do bairro até que Mário, o irmão mais novo de Fabíola passou na rua onde elas estavam.

— Tá indo pra onde? — Perguntou Fabíola —

Tiago olhou meio de lado para a irmã e respondeu.

— Não é da sua conta! — Respondeu ele de modo ríspido —

Mário seguiu seu caminho sem olhar para trás.

— Muleque nojento, ele tá assim porque pain deu uma surra nele ontem. — Disse Fabíola —

Chitão franziu a testa.

— Por que seu pai bateu nele? — Quis saber Chitão —

— Ele tava matando aula pra jogar taco mais a mulecada lá de cima. —

Chitão fez uma pequena expressão de desprezo.

— Nunca achei muita graça nesse jogo, eu sô mais jogá bola. — Disse Chitão —

Fabíola que era um tipo de garota mais comum e não apreciava nenhum desses esportes ficou em silêncio, se absteve de comentar qualquer coisa negativa para não chatear a amiga que apreciava muito o futebol. A amizade das duas era algo até mesmo estranho do ponto de vista de muita gente, pois elas eram muito diferentes, Chitão tinha um jeito um tanto masculinizado, já Fabíola era uma garota comum dentro do que se esperaria de alguém do sexo feminino naquele lugar.

Tiago seguia pela rua de cara feia, ele não tinha um destino certo, estava simplesmente caminhando para espairecer. A surra que levara de seu pai o havia deixado enfezado e com vergonha, a vergonha era por causa que seu pai o surpreendeu matando aula na rua.

"Intão é assim assim que você tá estudan rapaiz? Pra casa agora, quando você chega lá nois vai te uma conversinha!"

A frase do pai veio à mente de Tiago, alguém havia revelado ao pai de Tiago que ele estava matando aula, mas Tiago não tinha ideia de quem tinha feito tal coisa. Na ocasião, Tiago estava jogando Bex/Taco na parte alta do bairro, na rua da casa de Fabin, seu pai chegou lá de moto e disse a frase acima em alto e bom tom e depois foi embora. Após ouvir aquelas palavras, Tiago ficou atormentado e perdeu a concentração, perdeu a partida do jogo e depois não teve mais vontade de continuar jogando. Ele sabia que uma surra pesada o aguardava, então ele vagarosamente tomou o rumo de casa, quanto mais ele se aproximava de casa, mais sua ansiedade e medo aumentavam. O resultado não foi diferente do que já era esperado, Adevaldo, pai de Tiago, aguardava o filho com um cinto de couro em mãos, Adevaldo ordenou que Tiago se sentasse no sofá e iniciou um sermão, por um instante Tiago até achou que ficaria só naquilo, mas não... ainda no meio do sermão, Adevaldo deu o primeiro golpe de cinto que atingiu a coxa esquerda do filho, o garoto sentiu a dor ardente e instintivamente levou a mão direita ao lugar atingido, outros golpes de cinto vieram e Tiago apenas teve tempo de proteger o rosto com os braços e ficar encolhido junto ao sofá.

"Quem será que foi a disgraça que mim caguetô pra pain?... Será que foi a mãe de Rafael... capaiz que não, a casa dela não é tão perto de onde nois joga... será que foi um dos muleq?"

Tiago chegou à uma lagoa que ficava num grande terreno entre a parte baixa e alta do bairro e começou a arremessar cacos de blocos e telhas na superfície da água para ver quantas vezes esses cacos tocavam a superfície da água antes de afundarem. Era domingo e seu pai estava de folga, o clima tenso provocado pela surra ainda era recente, Tiago preferiu evitar a presença do pai. De repente um caco de telha passou zunindo e tocou 6 vezes a superfície da água antes de afundar. Tiago se assustou e olhou para saber quem tinha jogado aquilo.

— Aqui é profissional rapaiz! — Disse Antônio —

A princípio Tiago achou que Antônio iria zombar dele pela surra, mas isso não aconteceu. Antônio jogou mais alguns cacos na água e depois convidou Tiago para ir até a casa de Dona Fátima comprar geladinhos.

— Eu pago! Dois pra mim e dois pra você. — Propôs Antônio batendo no bolso do short e fazendo as moedas tilintarem para provar que realmente tinha dinheiro —

Sem ter razão para recusar, Tiago aceitou o convite e os garotos seguiram para a casa de Dona Fátima.

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