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1 ano antes

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Pov: Billie

— A capo com medo? — Alyssa perguntou, aquele sorriso provocador brincando nos lábios enquanto me olhava com aquele brilho zombeteiro nos olhos.

Eu sabia que ela estava me provocando, mas o efeito dela em mim era sempre o mesmo. Meu coração dava um salto e, por um instante, era como se eu não fosse a chefe de uma das máfias mais poderosas do país. Era como se eu fosse apenas... Billie.

Mas não era assim que o mundo funcionava.

— Não é medo, Belladonna, é bom senso. — Respondi com o tom mais firme que consegui, cruzando os braços para disfarçar o nervosismo que ela causava.

— Bom senso? — Ela inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando minhas palavras. A luz da lua iluminava seu rosto, destacando os traços delicados que me deixavam sem ar toda vez que olhava para ela por mais de alguns segundos. — Desde quando querer se perder em paz é falta de bom senso?

Paz.

Essa palavra me atingiu como uma bala. Quantos anos haviam se passado desde que eu pensei pela última vez em paz? A paz não era um luxo para pessoas como eu. Era um conceito distante, quase abstrato. Um ideal que a maioria das pessoas do nosso mundo nunca sequer ousava sonhar.

— Isso me deixaria apavorada — respondi, desviando o olhar para as estrelas no céu, tentando parecer inabalável.

— A capo com medo? — Ela repetiu, mas dessa vez seu tom era diferente. Menos zombeteiro, mais curioso.

Eu ri, uma risada breve, sem humor, enquanto balançava a cabeça.

— Não é medo, Alyssa. É sobrevivência.

Ela se apoiou no parapeito da sacada, virando o rosto para me encarar de lado. Havia algo nos olhos dela, uma intensidade que me fazia sentir como se estivesse sendo despida, camada por camada.

— Sobrevivência... — Ela murmurou, como se estivesse testando a palavra. — Então você sobrevive, mas nunca vive.

Eu não respondi. Não porque não tinha o que dizer, mas porque não sabia como colocar em palavras o que ela fazia comigo. Como explicar que cada momento que eu passava com ela era uma luta constante entre querer mais e saber que não podia ter nada?

— Você nunca quis fugir? Nem por um segundo? — Ela perguntou, a voz baixa, mas cheia de emoção.

Fugir.

A palavra pairou no ar, pesada. Fugir era algo que eu nunca podia admitir, nem para mim mesma. Havia momentos, é claro, em que eu pensava em largar tudo. Nos dias em que a pilha de corpos parecia alta demais ou quando eu me via cercada por traidores mascarados de aliados. Mas fugir? Isso era fraqueza.

— Fugir é para os fracos.

A resposta saiu automática, quase como um reflexo. Mas Alyssa não parecia convencida.

— Você realmente acredita nisso? — Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu não tenho o luxo de acreditar em outra coisa. — Cruzei os braços, olhando para ela, desafiadora.

— Não é fraqueza querer paz, Billie. — Alyssa se aproximou, a voz mais suave agora. — Às vezes, o que a gente precisa não é de força, mas de liberdade.

Liberdade.

Essa palavra me atingiu ainda mais forte do que "paz". Porque liberdade era algo que eu sabia que nunca teria. Não enquanto o peso do meu sobrenome estivesse preso ao meu pescoço como uma corrente.

— Você fala como se fosse fácil. — Minha voz saiu mais amarga do que eu pretendia, mas Alyssa não pareceu se incomodar.

— E por que não seria? — Ela se virou completamente para mim, os olhos fixos nos meus. — Você é Billie Eilish, a capo mais jovem que o mundo já viu. Você pode ter tudo o que quiser. Então por que não liberdade?

Porque liberdade significava abrir mão de tudo. Significava abandonar meu povo, meu legado, minha família. Significava admitir que talvez eu não fosse forte o suficiente para aguentar o peso que o mundo colocava nos meus ombros.

— Isso não é tão simples quanto você pensa, Alyssa. — Passei a mão pelo cabelo, tentando aliviar a tensão que crescia no meu peito.

— Claro que é. — Ela deu de ombros, como se estivesse falando de algo trivial. — Você só tem que decidir o que é mais importante.

— O que eu sei sobre liberdade? — Retruquei, tentando desviar a conversa. — E você? Você vive sob as regras do seu pai. Faz o que ele manda. Segue o que ele diz. Onde está a sua liberdade?

Ela ficou em silêncio, e por um momento, achei que tinha ganhado a discussão. Mas então ela sorriu. Não o sorriso provocador de antes, mas algo mais triste, mais resignado.

— Talvez eu não tenha liberdade. — Ela finalmente disse, a voz quase um sussurro. — Mas isso não significa que eu não saiba o que é querer lutar por ela.

Eu me senti como se tivesse levado um soco no estômago. Alyssa tinha essa habilidade de me desarmar, de me fazer questionar tudo o que eu acreditava.

— Alyssa...

Ela levantou a mão, me interrompendo.

— Não precisa, Billie. Eu sei como funciona. Você e eu somos iguais, só que em lados diferentes. Presas.

Essa palavra me atingiu como um tiro. Presas. Porque era exatamente assim que eu me sentia.

— Talvez seja por isso que a gente se entende tão bem. — Murmurei, sem perceber que estava falando em voz alta.

— Ou talvez seja por isso que a gente nunca vai dar certo. — Ela respondeu, me olhando nos olhos.

Essas palavras pairaram no ar, como uma sentença. Eu queria protestar, mas não consegui. Porque, no fundo, sabia que ela tinha razão.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o som do vento e das ondas ao longe. Eu queria congelar aquele momento, porque sabia que o mundo lá fora estava esperando para nos engolir.

E, de alguma forma, eu sabia que isso não ia acabar bem.

𝑆𝑒𝑝𝑎𝑟𝑎𝑡𝑒𝑑 𝑏𝑦 𝑏𝑙𝑜𝑜𝑑Histórias para pegar e não largar. Descubra agora