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1 ano antes

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Pov: Alyssa

Eu odiava o cheiro de sangue. Era metálico, enjoativo e parecia impregnar em tudo, como uma sombra que nunca se desfazia. Mesmo depois de lavarem o chão, mesmo depois de trocarem as roupas ensanguentadas e limparem as armas, o cheiro ficava lá, pairando, como um lembrete silencioso do que aquele mundo realmente era.

Eu estava no escritório da Billie, sentado em uma poltrona de couro que parecia desconfortavelmente rígida, mas era o único lugar em que me sentia minimamente segura naquele ambiente. A noite anterior tinha sido um inferno. Ela chegou de madrugada, ferida, com o lado esquerdo do rosto cortado e um hematoma escurecendo na mandíbula. Era a terceira vez naquele mês que isso acontecia, e eu sabia que seria uma questão de tempo até que o próximo incidente fosse pior.

— Você vai se machucar de verdade um dia, Billie — eu disse, quebrando o silêncio. Minha voz soava firme, mas por dentro eu estava tremendo.

Ela estava de costas para mim, olhando pela janela que dava para o pátio da mansão, onde seus homens se reuniam. A luz do sol do final da tarde pintava seu cabelo de dourado, mas o contraste com o curativo no rosto tornava a cena quase cruel.

— Faz parte do trabalho — ela respondeu, como se isso encerrasse a conversa.

— Não, não faz. — Minha voz se elevou, e ela finalmente se virou para me encarar. — Você escolhe fazer parte disso, Billie. Você escolhe estar no meio dessa carnificina.

Ela suspirou, esfregando a nuca, visivelmente cansada.

— Alyssa, eu já te disse que é assim que as coisas são. É o que eu faço, o que sempre fiz.

— E eu odeio isso. — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las, mas não tentei voltar atrás. Eu queria que ela soubesse. — Odeio ver você assim, ferida, como se sua vida fosse descartável. Odeio o sangue, o caos, as armas. Odeio tudo.

— Então por que você ainda está aqui? — A pergunta dela veio como uma lâmina, cortando o ar entre nós.

Eu fiquei em silêncio por um momento, as palavras engasgando na minha garganta. Por que eu ainda estava ali? Era uma pergunta que eu me fazia todas as noites antes de dormir.

— Porque eu te amo — respondi finalmente, a voz baixa, mas cheia de uma sinceridade que parecia pesar uma tonelada.

Billie piscou, surpresa, como se não esperasse aquela resposta.

— Eu também te amo, Alyssa. Mas isso... — Ela gesticulou ao redor, apontando para o escritório, para a casa, para o mundo em que vivíamos. — Isso faz parte de quem eu sou. Eu não posso simplesmente largar tudo.

— Não pode ou não quer? — perguntei, minha raiva transbordando agora. — Porque parece que, no fim das contas, esse trabalho importa mais pra você do que a gente.

— Isso não é justo! — Ela deu um passo à frente, os olhos verdes brilhando com intensidade. — Você sabe o que isso significa pra mim, pra minha família. Você sabe o quanto eu trabalhei pra chegar aqui.

— E pra quê? — Eu me levantei, encarando-a de frente. — Pra ser ferida de novo? Pra enterrar mais gente? Pra passar noites em claro pensando em quem vai tentar te matar no dia seguinte?

Ela não respondeu. Por um momento, o silêncio entre nós foi preenchido apenas pela respiração pesada de ambas.

— Você acha que eu gosto disso? — ela perguntou, finalmente. Sua voz estava mais baixa agora, quase um sussurro. — Você acha que eu gosto de me machucar? De ver sangue todo dia?

— Então por que não para? — Minha voz também caiu, mas ainda assim soou como um grito. — Por que não larga tudo, Billie?

Ela olhou para mim, e por um momento, vi algo em seus olhos que nunca tinha visto antes. Medo. Não medo de mim ou de qualquer coisa física, mas medo do que aquela conversa significava.

— Porque se eu parar, eu perco quem eu sou — ela respondeu, com a voz quebrada.

Eu senti meu peito apertar, e todas as palavras que eu queria dizer morreram na minha garganta. O que você faz quando a pessoa que você ama é destruída pelo próprio mundo que a define?

— E se perder quem você é significa me perder também? — perguntei, baixinho, quase sem querer que ela ouvisse.

Billie me olhou, e eu sabia que ela não tinha uma resposta para isso. Ela apenas desviou o olhar, voltando-se para a janela, como se a conversa tivesse acabado.

Mas para mim, aquilo não era o fim. Era só o começo de uma rachadura que ameaçava partir tudo ao meio. E, pela primeira vez, eu me perguntei quanto tempo mais eu conseguiria suportar aquele mundo sem me perder completamente também.

𝑆𝑒𝑝𝑎𝑟𝑎𝑡𝑒𝑑 𝑏𝑦 𝑏𝑙𝑜𝑜𝑑Histórias para pegar e não largar. Descubra agora