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Dias Atuais

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Pov: Billie

A casa estava quieta, mas não era o tipo de silêncio que acalmava. Era pesado, sufocante, como se as paredes carregassem o peso das coisas que Alyssa e eu não conseguíamos dizer uma à outra.

Eu estava sentada na cama com um livro nas mãos, mas as palavras na página eram borrões. Não importava o quanto eu tentasse me concentrar, minha mente voltava para a discussão de mais cedo. Para o olhar dela. Para a sensação de que, mesmo tendo largado tudo por ela, talvez ainda não fosse suficiente.

A porta do quarto se abriu devagar. Pelo canto do olho, vi Alyssa parada ali, hesitante, como se não soubesse se deveria entrar ou não.

— Posso entrar? — ela perguntou, a voz mais baixa do que o normal.

Eu dei de ombros, sem sequer olhar para ela. Era um gesto pequeno, mas carregava todo o peso da exaustão que eu sentia.

Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Eu podia sentir o nervosismo dela mesmo sem olhar diretamente. Alyssa nunca foi muito boa em pedir desculpas, e algo me dizia que era isso que ela estava tentando fazer agora.

— Billie... — ela começou, mas a voz falhou.

Eu finalmente levantei os olhos para encará-la. Ela estava ali, no meio do quarto, com os ombros tensos e as mãos apertando o tecido do vestido. Mas o que me chamou atenção foi o olhar dela um misto de culpa e algo que parecia ser vulnerabilidade.

— O que foi agora, Alyssa? — perguntei, a voz mais baixa do que eu pretendia, mas ainda carregada com o cansaço de tudo o que estávamos vivendo.

Ela deu um passo à frente, mas parou como se estivesse com medo de chegar muito perto.

— Eu... eu quero pedir desculpas — disse, finalmente, e as palavras soaram quase como um sussurro.

Eu arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços e me recostando mais na cabeceira.

— Pedir desculpas por quê? Por queimar a cozinha? Ou por fazer parecer que tudo que eu fiz pra te trazer até aqui foi um erro?

Vi os ombros dela caírem, e por um momento, achei que ela fosse virar as costas e sair. Mas ela ficou ali, encarando o chão.

— Por tudo — respondeu, finalmente levantando os olhos para mim. Eles estavam brilhando, como se ela estivesse segurando lágrimas. — Por ter descontado em você o que eu tô sentindo. Por não saber como lidar com... comigo mesma.

Aquilo me pegou de surpresa. Alyssa não era do tipo que admitia coisas assim, e ouvir aquelas palavras sair da boca dela fez algo dentro de mim se quebrar.

— Alyssa... — comecei, mas ela me interrompeu.

— Você largou tudo por mim, Billie. Tudo. E eu deveria estar feliz. Eu deveria estar agradecida. E eu tô, mas... — A voz dela tremeu, e ela respirou fundo antes de continuar. — Mas tem uma parte de mim que ainda tá presa naquele mundo, presa em tudo que eu cresci conhecendo. E eu odeio isso, porque eu queria que fosse diferente. Eu queria ser o suficiente pra você.

Minha garganta apertou, e por alguns segundos, eu não soube o que dizer. Eu sabia que ela estava lutando com aquilo, mas ouvir de sua boca era outra coisa.

— Alyssa, você nunca teve que ser o suficiente pra mim. — Minha voz saiu mais suave agora, enquanto eu me levantava da cama e dava alguns passos em direção a ela. — Eu larguei tudo porque eu quis. Porque eu amo você.

Ela balançou a cabeça, as lágrimas finalmente escapando.

— E eu tô arruinando tudo — sussurrou.

— Não, você não tá. — Estendi a mão, tocando o rosto dela com cuidado. Ela hesitou por um segundo, mas não se afastou. — Eu sabia que não ia ser fácil. Nada no nosso mundo é. Mas, Alyssa, eu só preciso que você confie em mim. Que acredite que a gente pode fazer isso funcionar.

Ela fechou os olhos e inclinou o rosto contra minha mão, respirando fundo como se estivesse tentando absorver minhas palavras.

— Eu tô tentando, Billie — murmurou. — Eu juro que tô tentando.

— Então para de carregar esse peso sozinha. — Me aproximei mais, segurando seu rosto com as duas mãos agora. — A gente tá nisso juntas, lembra? Eu não tô aqui por obrigação. Eu tô aqui porque eu quero.

Ela abriu os olhos, e havia algo diferente ali agora — menos culpa, mais determinação.

— Me desculpa — disse de novo, com mais força dessa vez.

— Tá tudo bem — respondi, inclinando minha testa contra a dela. — Só me promete que, da próxima vez, você vai me dizer o que tá sentindo antes de explodir a cozinha, ok?

Alyssa riu, uma risada curta e trêmula, mas ainda assim uma risada.

— Prometo.

Nós ficamos ali, no meio do quarto, o som das ondas preenchendo o silêncio entre nós. E, pela primeira vez em dias, senti que talvez estivéssemos começando a encontrar nosso caminho de volta uma para a outra.

𝑆𝑒𝑝𝑎𝑟𝑎𝑡𝑒𝑑 𝑏𝑦 𝑏𝑙𝑜𝑜𝑑Histórias para pegar e não largar. Descubra agora