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— A tia Natália demorou para buscar a gente hoje — Joaquim falou de repente no meio do jantar. Natália nem deu bola mas Taís a encarou desconfiada.
— Problemas no estúdio?
— Não, só me distrai um pouquinho com a paisagem — Disse quase implorando pelo fim da conversa, o que atiçou ainda mais a curiosidade da cunhada.
— Sério? Tem nada pra ver naquela rua, só uns comerciozinhos meia boca — Comentou estreitando os olhos como se de repente algo a impedisse de enxergar as coisas com clareza — Tem nem mato.
— Ah, não sei, quando se mexe com fotografia acabamos sempre vendo as coisas com um tiquinho de olhos de artista — As almôndegas do seu macarrão caseiro soavam como a obra mais interessante do Michelangelo de repente.
— Eu quero ser fotógrafa quando crescer, igualzinho a tia Natália — Julia manifestou com a boca cheia de macarrão.
— É mesmo, querida? Isso é muito legal, ser fotógrafa é uma profissão muito linda, faz enxergar as coisas de maneiras diferentes — Taís sorriu para a criança ao seu lado que concordou sem entender — Não é Natália?
— Um pouco disso, talvez, fotografar é um respiro para alma, é expor a forma que vemos o mundo às pessoas de forma íntima e despida — Suspirou como se falasse de uma grande paixão adolescente que nunca esqueceu. E não era muito diferente daquilo.
— Ai, agora tenho mais essa — Pedro negou já pensando em como sua irmã, mesmo sem pretensão alguma, influenciava seus filhos e os tornavam tão parecidos pela simples convivência. Não que fosse horrível, mas só ele sabia como Natália foi difícil em sua adolescência, era uma experiência que não queria repetir.
— Tia Natália, esse lance aí de tirar foto, dá dinheiro? — Joaquim perguntou curioso de repente.
— Não muito no começo mas pegando as propostas certas quem sabe um pouco.
— Ah, por isso que você nunca saiu de casa? — Pedro engasgou e Taís o olhou meio atravessada de uma forma tão mãe que até mesmo Natália sentiu o arrepio de medo na espinha.
— Que moleque enxerido — Disse negando na direção do sobrinho que não se importou muito, Natália muito menos — Puxou ao pai.
Lá estava ela novamente, desacompanhada, parada no mesmo banco, observando o mesmo punhado de pessoas, trajando um vestidinho longo muito leve meio azul meio verde, botas pretas e um péssimo humor de segunda-feira.
Mais uma vez Taís a pediu aquele imenso favor que não teve como negar, foi praticamente intimada, então sem disposição caminhou todos o vinte minutos intermináveis, sentou-se desanimada e resmungou entre uma mordida e outra de um croissant de queijo que havia comprado no caminho em uma padaria um tanto quanto antiquada uma quadra antes da escola. Em seu pescoço uma câmera velha da época da escola e um monte de fotos do meio do trajeto apenas para dissipar um pouco de seu tempo e ansiedade.
Dessa vez tentou mesmo não encarar compulsivamente a floricultura do outro lado da rua, suas enormes janelas de vidro, as flores expostas do lado de fora, a porta meio velha, a plaquinha de aberto, o balcão que não entrava em seu campo de visão completamente, os tapetes tortos, e principalmente, não notou de forma alguma a atendente de calça de tecido preta e florzinha no bolso da blusa branca, não notou a franja cortada um pouco torta, nem a falta dos óculos chamativos, nem se importou que seus sapatos eram diferentes da última vez ou como sorria para todos os clientes que atravessavam a loja cheios de pressa.
Estava completamente interessada no croissant meio dormido e nada interessada na desconhecida do outro lado da rua.
Porque seria estranho.
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Todas as Flores
Fanfiction🌼 Edição Narol ; Natália havia prometido uma única vez a sua cunhada que buscaria seus sobrinhos na escola. Não era uma tarefa difícil e soava extremamente normal apenas acompanhar a dupla de crianças até em casa por um curto caminho em um tempo c...
