Capítulo 9: Enxergar seu amor

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Eu meio que chorei nesse aqui sabe. Me julguem, está liberado.

—❁—❁—❁—

— Carol, você não faz ideia do que me aconteceu hoje — Inrradiou toda a loja em uma empolgação que não a pertencia.

Natália estava diferente, obviamente, nos últimos tempos todo seu mal humor habitual havia dado lugar a uma espécie, quase assustadora, de uma admiradora assídua e perturbadora da gentileza e felicidade matinal.

Havia acordado muito cedo aquela manhã e realmente tomado um tempo para admirar tudo ao seu redor, elogiar todos que passavam por ela, fazer um café bem amargo, fora de seu habitual cheio de frescuras, e foi diretamente até suas flores para regá-las com toda a delicadeza do mundo, prestativamente tomando cuidado para ter certeza que todas estavam bonitas, saudáveis e recebendo a quantidade de água necessária. Aquilo estava deixando todos que a conhecia um pouco agoniados de curiosidade.

— Bom dia todos da minha linda e adorada família — Saltitou pela cozinha, passando pela sala de jantar e mandando beijos sorridentes à todos.

— O que deu nela? Bateu a cabeça de novo? — Joaquim questionou encarando todo confuso o vazio que Natália deixou para trás.

— Mamãe, a tia Natália está passando bem? Acho que substituíram ela ou algo terrível assim — Julia comentou meio desesperada.

— Não se preocupem crianças, o mal dela é outro, um bem melhor — Taís sorriu como se soubesse de muito, de tudo, de algo que nem deveria.

— Seja lá qual for espero que isso não me custe dinheiro, já basta de flores nessa casa, nessa velocidade não teremos mais onde enfiar — Pedro lamentou e encarou o centro de mesa, que era uma das dezenas de flores encomendadas por Natália aquela semana.

O que estava fazendo Natália Cardoso se transformar em uma pessoa educadíssima as nove da manhã em uma terça-feira trovejante?

Para aquela pergunta muito fácil havia apenas uma resposta.

Mas aquela não era Carol, definitivamente não, mesmo tendo certeza que entrou na loja certa, sentia o cheiro certo, olhava para todas as plantas e flores amontoadas certas. Havia uma pessoa ali, obviamente, o local estava aberto, uma mulher aparentemente mais nova, alguns anos talvez, cabelos cacheados curtos, pele negra, óculos grossos e um olhar bastante duvidoso, como se abocanhasse tudo o que havia de diferente a sua volta.

— Você não é a Carol.

— Que excelente observação, como descobriu isso tão rápido Einstein? — A mulher apoiava as mãos no balcão claro e a encarava cheia de tédio — Você precisa de alguma coisa ou vai ficar aí encarando?

— Quanto mal humor, cadê a Carol? — Desconfiou se aproximando mais um pouco só para ter certeza mesmo que não via suas madeixas escuras e o som de sua risada espectral.

— Aqui que não tá — Deu de ombros como se não a devesse satisfação alguma. Uma grosseria em forma de ser humano, talvez o mais mal educado deles.

— Você é uma péssima atendente sabia? Desse jeito ela vai perder mais clientes do que nunca — Colocou as mãos no balcão para ter certeza que conseguia tocá-lo, estava realmente ansiosa para vê-la de uma forma estranhamente duvidosa — Onde ela está?

— Você deve ser a Natália, esperava que não fosse tudo o que ela contou mas pelo visto é tão insistente quanto, e todo o resto também — Observou do outro lado, já tão distante que mal conseguia enxergar seus olhos escuros por trás da armação — Ela não te contou? Me pediu para olhar a loja só hoje, está doente, resfriada na verdade, mas qualquer coisa para aquela mulher é motivo para perder as forças e não sair de casa.

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