A manhã mal havia começado e já carregava um peso estranho no ar. Victor caminhava ao lado de Maky pelos portões da escola, tentando esconder a ansiedade que se acumulava em seu peito.
Assim que pisaram no corredor principal, o silêncio desconfortável deu lugar aos cochichos, risadas se espalhavam pelos rostos conhecidos. Era como se todos já soubessem de algo. Todos... menos ele.
- O que tá rolando aqui? - perguntou Maky, franzindo a testa, seus olhos percorrendo o ambiente tenso.
A resposta veio rápida.
Guilherme apareceu, como se tivesse ensaiado o momento. Estava cercado por seus amigos - todos com expressões satisfeitas, quase divertidas. Gui cruzou os braços, o olhar fixo no brasileiro, com aquele meio sorriso venenoso que ele fazia quando queria ferir alguém.
- Olhem só quem chegou... el queridito de todos. - disse com ironia, como se saboreasse cada sílaba.
De repente, Vic viu. Alunos andando pelo corredor com panfletos nas mãos. Alguns estavam colando nos armários, outros passavam de mão em mão, alunos tirando foto com o celular Os olhos dele congelaram quando reconheceu o que havia nos papéis.
Fotos.
Cartas.
Textos pessoais, íntimos. Registros de momentos. Imagens dele e de um garoto - seu antigo namorado - em situações carinhosas, em beijos, e até algumas fotos tiradas em privacidade. Tudo espalhado por toda a escola. Sua vida, sua intimidade...
- ISSO NÃO PODE ESTAR ACONTECENDO... - sussurrou Victor, o rosto corando, o peito comprimido por um nó de vergonha.
Os risos vieram em seguida. Eduardo foi o primeiro a rir alto, apontando de longe como se estivesse assistindo a uma piada.
Ádrian e Henry se juntaram a ele, enquanto Juan e Alex observavam com olhares condescendentes. Era como se todos estivessem ali por diversão.
Do outro lado do corredor, Letícia assistia à cena com os olhos arregalados. Ela não conseguia se mexer. Sentia vontade de ajudar, mas não tinha forças. Ver aquilo acontecer, tão de perto, tão cruelmente... a deixava paralisada.
A confusão foi tanta que logo foram todos chamados à diretoria.
Victor entrou na sala com a cabeça baixa, os olhos fixos no chão. Tudo dentro dele gritava. Vergonha, raiva, dor. O diretor Clarkson olhou para ele e depois para o grupo de Guilherme, que já estava acomodado nas cadeiras como se nada tivesse acontecido.
- Recebemos as denúncias e acusações do Sr. Oliveira sobre a divulgação de materiais pessoais. - Ele alega que foram vocês que publicaram.
Juan foi o primeiro a falar, com um sorriso tranquilo no rosto.
- Não temos ideia do que o senhor está falando. Talvez o Victor tenha atritos com outros alunos. Não fomos nós.
- É... no tenemos nada que ver con eso, señor. - completou Guilherme, com o olhar cínico e despreocupado.
Vic ficou furioso, a raiva a dor tomou conta, ele já estava prevendo que eles iam negar.
- MENTIRA DIREITOR, FORAM ELES - disse com a voz embargada - Eu tenho certeza, desde que eu cheguei aqui eles não me deixam em paz.
D. Clarkson, ficou surpreso e questionou
- Não toleramos bullying, aqui é um lugar respeitado e civilizado, alunos recebem bons modos e educação de primeira linha.- disse o diretor. - Não recebemos nenhuma reclamação dos alunos ou sua a respeito disso.
O brasileiro ficou inquieto e com ódio.
- Claro, aqui vocês fingem que não vem nada. - murmurou
O diretor suspirou. Já conhecia aquele jogo. Os filhos da elite sempre sabiam como escapar. Fingiam inocência, agiam com frieza. E no final, nada acontecia.
- Escute meu jovem, você tem alguma prova que foram eles?
Ele não tinha. Só tinha certeza.
- N-não... eu não tenho provas...
Como era de se esperar, o máximo que o grupo recebeu foi uma advertência verbal. Nada formal, nada sério. Apenas um "fiquem atentos" dito em tom burocrático.
Victor saiu da sala sentindo que o chão tinha desaparecido debaixo de seus pés. Ele queria sumir. Deixar tudo. Fugir.
Lá fora, encostado na grade, ele esperava. O olhar perdido no vazio. Cada risada que escutava soava como xingamentos. O celular permanecia no bolso. Ele não queria ver o que mais tinha sido espalhado.
A secretária chamou sua mãe. Mônica saiu da mansão assim que recebeu o recado. Ainda com o avental manchado, pegou a bolsa às pressas e pediu ao motorista que a levasse até a escola.
Quando ela chegou, viu Victor do lado de fora, com os olhos vermelhos e as mãos tremendo. Ela correu até ele.
- Meu filho... o que aconteceu?
- EU NÃO AGUENTO MAIS. EU ODEIO ESSE LUGAR! EU ODEIO ESSAS PESSOAS! - gritou ele, a voz embargada, o rosto molhado de lágrimas. - Eu quero ir embora. Eu não quero voltar mais pra aquela mansão. Eu não quero ver mais ninguém!
Mônica tentou manter a calma, mas sentia o coração dela se partir. O filho estava deprimido, abalado, e ela não tinha como consertar aquilo.
- Filho... escuta... eu entendo, de verdade. Mas a gente não tem pra onde ir. Ainda não. Precisamos segurar firme mais um pouco. Não é justo, eu sei... mas é o que temos agora.
Ela o puxou para um abraço, tentando passar alguma segurança. Mas até ela, naquele momento, já duvidava se aquilo era possível.
Victor fechou os olhos e se deixou afundar nos braços dela, tentando encontrar um pouco de paz onde ainda existia carinho.
CONTINUA...
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Popular demais pra me notar?
RomanceVictor de Oliveira, um jovem de 17 anos (introvertido) marcado pela sua fase emo, que se muda do Brasil para a Espanha com sua mãe após a morte repentina de seu pai. A família Oliveira, de baixa renda, enfrentou dificuldades financeiras até que Môni...
