Hades & Ava
The Haunting Boys
Ninguém os conhecia.
Ninguém ousava sequer pronunciar seus nomes em voz alta.
E, ainda assim, todos sentiam o peso da sua presença.
Eles eram sombras que se arrastavam pela noite de Toronto, um segredo sussurrado entre...
"Você tem alguma carta na manga? Você não tem ideia de que é minha obsessão? Sonhei com você quase todas as noites esta semana."
Do I Wanna Know? - Arctic Monkeys.
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Desde pequeno, todos me olhavam de maneira estranha, como se carregassem um medo que jamais conseguiam disfarçar. Eu percebia, ainda que fingissem o contrário. Sabia exatamente o que pensavam. Sabia de tudo.
Enxergavam em mim um psicopata, uma aberração, e nos meus pais apenas pena, como se lamentassem por eles terem gerado algo como eu. Eu entendia o motivo daqueles olhares.
Desde que entrei na escola, brigas eram inevitáveis - nunca sem um bom motivo. Frequentemente terminava na diretoria, depois de deixar alguns garotos com olhos roxos. As mães deles me fitavam apavoradas; sei que desejavam me insultar, mas calavam assim que sustentavam meu olhar.
Nunca compreendi, naquela época, o que em mim provocava tanto medo. Talvez fosse minha falta de expressão, talvez algo mais profundo, mas nenhum deles era capaz de disfarçar. E, se tentavam mentir, eu sempre descobria.
Não é vanglória, apenas fato: é fácil identificar um mentiroso. Ninguém controla por completo os sinais quando engana, e, para mim, a verdade sempre se revela. A maioria tenta controlar os gestos, mas a frustração os denuncia.
O controle, para mim, não é um simples desejo. É uma necessidade tão vital quanto respirar. Eu o exerço sobre mim mesmo e, se souber dosar, posso controlá-lo também sobre aqueles que ousam me desrespeitar.
Cheguei à conclusão de que, no fundo da minha mente, espreita algo obscuro - um predador silencioso, um assassino em potencial com fetiches deturpados que exigem saciedade. Por isso, não sofro de impulsividade como tantos idiotas. Não permito que uma mera compulsão, obsessão ou fixação me roube o domínio.
Enterrei essa natureza sombria ainda na infância, quando percebi minhas tendências psicopatas. Eu sabia que, se me revelasse, veria minha mãe em lágrimas, decepcionada por ter dado à luz a um possível assassino em série. Meu pai... com ele tudo sempre foi mais complexo. Perspicaz demais para ser enganado, talvez fosse o primeiro a me abandonar. Ou pior: a ignorar. E isso, no fim, parecia a opção mais provável.
Na prisão, durante longas noites de silêncio e hostilidade, compreendi que meu conhecimento poderia ser uma arma. Entre as agressões e a ira dos outros detentos, percebi como me rotulavam de assassino, mesmo sem provas concretas. O choque daqueles que me conheciam foi inevitável. A ausência de minha mãe, incapaz de dramatizar a situação, e a indiferença calculada de meu pai apenas ampliaram a tensão.
Foi também ali que soube da pior notícia: meu pai estava morrendo.
Agora, encontro-me em sua residência - um lugar que já foi lar, mas que hoje fede a decadência. O ar é impregnado de álcool e substâncias ilícitas; garrafas quebradas jazem pelo chão como pequenas ruínas de um império outrora limpo e imponente.