Aquele diabo dos olhos verdes

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              Suas mãos cobriam meus olhos, seu corpo me guiava por um corredor para uma surpresa. Pela primeira vez eu sentia o cheiro de sabonete de um recente banho tomado, sem estar misturado com outros odores de cigarro derby, sempre vermelho. A porcaria do vermelho que tanto me cercava e me fazia me perder entre desejos antigos.

               — Pode abrir os olhos agora.

               Encarei o quarto vazio à minha frente, pintado recentemente.

               — Vermelho? — Franzi a testa.

               — Minha cor favorita. — Explicou sorrindo admirado com o brilho da tinta fresca.

                Olhei para os cantos com o jornal ainda espalhado no chão. Por um segundo eu me senti igualmente como o papel: manchada com os pingos cobrindo as manchetes.

                — Estou pensando em vir morar aqui. — Ele disse ao abrir a janela. — Pretendo arrumar tudo, aos poucos.

                — Achei que já morasse aqui. — Dei de ombros.

                 — Não... Essa casa era do meu pai, mas ele disse que eu podia ficar. — Se virou para mim. — Ele se casou de novo e tem sua família agora.

                 — E sua mãe?

                  Ele balançou a cabeça em negativa.

                 — Ela morreu tem uns anos. — Ele se abaixou e pegou algumas folhas. — Por isso o meu pai não quer voltar para cá e por certo tempo, eu também não queria.

                  — Irmãos?

                  Ele fez um movimento com a boca, outra negativa.

                  — Não que eu saiba.

                  Olhei para o corredor com as paredes manchadas em marrom, garrafas vazias por todo lado, a sala em total desordem com camadas de poeira e cinzas de cigarros, seringas nas mesas e várias embalagens sujas de comida. "É... Isso explica muita coisa."

                    — Se quiser, pode ficar também. — Ele disse se aproximando.

                    Seu corpo mais alto me fazia sombra e meu pescoço precisava inclinar um pouco mais para que eu conseguisse olhar diretamente nos olhos. Eu nunca o tinha visto sorrir, mas quando o fez, era excepcionalmente cafajeste. Aquele diabo dos olhos verdes sabia que me tinha nas mãos, mas ousava me iludir com a sensação de que era eu quem estava no controle.

                     Caio me beijou suavemente pela primeira vez: seus lábios eram sóbrios, suas mãos me agarraram e me puxaram, fazendo os corpos se encaixarem. Como um desconhecido conseguia me tocar onde nenhuma outra mão alcançaria? Ele acariciou meus cabelos, mas seu semblante continuava o de um homem caçador: constantemente em alerta.

                    Caio não sabia ser menos e eu adorava sentir seu prazer me consumir, como insendiários. No meu bolso o celular tocou, Caio acendeu um cigarro e se afastou até a janela, baforando a fumaça para fora. No visor o nome de Vitor piscava.

                     — Onde você está? — Ele falou.

                     —  Ah, se lembrou que existo. — Minha voz saiu melancólica. — Estou na casa do meu... — Olhei para ele e ele para mim. — namorado. — Caiu esticou o canto da boca, ao ouvir, como se fosse um sorriso marrento e voltou a olhar para fora.

                      — Namorado? Há dois dias cê nem saia de casa, ô sua maluca! — Vitor suspirou. — Enfim, tô sem grana, tem algum aí pra me emprestar?

                       — Seu amiguinho me levou tudo.

                       — Porra... Mais que caralho!

                      Falei isso várias vezes sobre Chico, tanto na cozinha quanto na cama.

                       — Vi que o apê pegou fogo ou algo assim. — Consegui dizer.

                       — É, comprometeu o prédio todo. Mó B.O vai dá. Eu preciso de um lugar pra ficar, aliás.

                       — Só consigo te arrumar uma noite. — Olhei para o Caio e não consegui decifrá-lo. — Vou mandar a localização.

 — Vou mandar a localização

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