Meus olhos assistem o garoto tendo sua cabeça arrancada como se não fosse nada, com meu pequeno corpo estático, algo que não sentia a séculos emerge, como uma forte explosão, meu peito queima, talvez fosse o mais genuíno ódio mas deixe me dizer uma coisa que aprendi, se a palavra ódio estivesse cravada em cada centena de decímetro do meu corpo, não seria proporcional a um bilionésimo do ódio que sinto por essas criaturas.
Meu corpo se molda a partir desse sentimento latente, ganhando massa, tamanho e cabeças extras e em forma de expressar o que sentia, um rugido ecoa por toda essa área, balançando tudo, destruindo o solo e a vegetação próxima.
Vampira Menor: Q-que merda é essa?
Como uma muralha inabalável, meus pés entram em ação e movem meu corpo que deixou de ser leve mas ainda assim manteve sua velocidade, uma verdade latejava em meu cérebro, eu mataria!
Com ferocidade, a traqueia de uma daquelas aberrações é arrancada enquanto ficava de costas para as duas que sobravam, não pude evitar de engolir a carne que se mantinha entre meus lábios.
Repito o mesmo passo, mas dessa vez com o único intuito de matar, meu corpo some no ar e o medo me dava brecha para surgir atrás desses monstros e com uma mordida dupla, levo a vida de cada uma, cuspindo seus corpos imóveis em seguida.
Cada fibra muscular ainda gritava, ÓDIO, ÓDIO, ÓDIO, ÓDIO!
Minha mente toma consciência novamente algumas horas após essa chacina, ver sua cabeça descolada do corpo me causava calafrios, então fecho seus olhos em sinal de respeito, pela primeira vez na vida me vejo em um dilema, não poderia reviver o garoto, não de uma forma comum.
Um ensino básico sobre magia, temos três categorias quando falamos em magia, elemental, magia divina e magia das trevas, magia das trevas é um conhecimento que poucos possuem, além de ser estritamente proibida por todas as nações, por fazer o que nem a magia divina consegue fazer, felizmente poucas coisas conseguem usar magia das trevas e eu sou uma dessas coisas.
Bom, teremos que voltar um pouco antes até mesmo da magia, dizendo de forma chula, corpos são formados por carne, ossos e sangue, alterar o curso natural é a chave desse feitiço.
Para ressuscitar Viktor, teria que usar essa matéria prima e olha, temos tudo isso de sobra, para a minha sorte seu corpo ainda está inteiro, com passos lentos, me aproximo de todo aquele sangue, moldando uma parte da grama com um círculo mágico que se solidifica na grama, arrastando o corpo do garoto para o meio disso tudo, devolvendo sua cabeça ao tronco, alinhando todos os corpos que estavam presentes.
Tocando o círculo digo palavras profanas para o resto do mundo.
Félix: O CÉU E A TERRA ESTÃO SOB O MEU COMANDO, A VIDA E A MORTE ESTÃO SOB O MEU COMANDO, EU ORDENO QUE ERGA-SE.
O círculo acende em vermelho vivo, criando uma luz que cobre o local inteiro enquanto consome a carne e sangue dos corpos oferecidos, reconstruindo a cabeça de Viktor.
Félix: Talvez você perca um pouco da sua humanidade, mas quem se importa, o que é ser humano de verdade, ser frágil e sangrar?
A escuridão da noite engole tudo, estava realmente torcendo para que isso desse certo.
O corpo se levanta subitamente, seus olhos brancos tomam cor novamente, sua boca lentamente se abre e um grito feroz ecoa de sua garganta, forte o suficiente para que toda a área ouvisse sua voz, sangue é lançado ao chão em um vômito intenso, ele parece consciente novamente após isso.
Viktor: Minha cabeça doi..
Coloco a mão no lado direito de minha cabeça, me levantando devagar, podia sentir meu corpo trêmulo, como se eu estivesse nascendo de novo, sinto frio e uma coceira violenta em meu pescoço, acabo não resistindo e passo minhas unhas no local.
Passo a observar o lugar com mais atenção, vendo aquelas vampiras mortas e empaladas enquanto Félix me encara.
Félix: Bem vindo de volta, bela adormecida.
Ele ri brevemente, lambendo sua pata direita.
Viktor: Só lembro de ver tudo rodando.
Félix: É porque rodou mesmo, mas isso foi sua cabeça.
Viktor: Como assim?
Com naturalidade ele respira e olhando em meus olhos, ele diz:
Félix: Você morreu.
Não pude evitar de rir, parecia uma piada muito óbvia, até para alguém como Félix.
Viktor: E eu sou rei, corta essa.
Ele me encara sem rir ou pronunciar algo, era sério o que ele dizia, minha ficha caiu nesse momento, meu estômago se embrulha, a ânsia prevalece, me agacho em um piscar de olhos, vomitando tudo que havia comido mais cedo.
Normalmente a ira iria invadir minha mente mas dessa vez apenas um vazio se mantém, como se algo estivesse sendo apagado aos poucos.
Félix: Relaxa, você está de volta e bem.
Viktor: Bem? EU ACABEI DE MORRER PORRA.
Me levanto do chão.
Viktor: A ÚLTIMA COISA QUE EU ESTARIA É BEM E COMO VOCÊ ME TROUXE DE VOLTA.
Félix: Tenho meus truques, vai ficar de xilique ou vai ajudar aqueles prisioneiros.
Olho para trás, relembrando porque estava ali.
Viktor: Cacete, merda, caralho, porra.
Vou xingando até as celas, minha mente estava funcionando a mil por hora enquanto vasculhamos o lugar inteiro encontrando poucas crianças vivas, debilitadas mas vivas, não tive tanto tempo para pensar no que havia acontecido comigo mesmo.
A pior parte começa agora, voltamos para a cidade e para ser sincero ver os olhos cheios de esperança se apagando em um instante era doloroso, o grupo sobrevivente reencontra seus pais mas a quem tinha prometido que traria seu ente querido de volta, olha para mim fragilizada com lágrimas em seus olhos, me aproximo com um enorme aperto em meu peito.
Viktor: Me desculpa….
Félix: Não foi sua culpa, garoto.
Encaro Félix, suspirando e tentando apoiar a mulher, não queria ter fracassado, pelo menos não aqui, mesmo não demonstrando, podia sentir algo crescendo aos poucos dentro de minha cabeça, um incômodo, uma dor na garganta, me sentia cansado.
A atenção de todos é roubada novamente pela guarda do reino e por Hermes, não era comum a sua presença entre os aldeões.
Hermes: Acolham as famílias dos sobreviventes, deem o que eles precisarem.
O vejo tocando gentilmente o ombro da velha mulher, retirando de seu bolso, um saco de couro.
Hermes: Sei que isso não compra a vida do seu filho, mas você ainda precisa viver, se junte aos guardas.
Ela o olha e aceita o presente, voltando seu rosto para mim.
Camponesa: Obrigada, obrigada por se importar.
Lentamente a imagem da senhora se mistura com o restante e a única pessoa que resta é simplesmente o capitão da guarda.
Hermes: Não estava confiante que faria isso, mas você me mostrou o contrário, você é diferente garoto, achou as crianças sozinho e ainda saiu vivo do que quer que tenha encontrado, mostrou coragem e bravura, tenho uma proposta.
Antes que o mesmo pudesse terminar de falar, Félix levanta sua voz dizendo:
Félix: SIM, ELE ACEITA.
Nem mesmo eu tive tempo de pensar na sua resposta, pisco algumas vezes ouvindo uma risada.
Hermes: Certo, a partir de hoje você é oficialmente um aluno meu, traga seu gato, o achei engraçado, te espero amanhã no trono do rei.
Ele simplesmente larga esse tipo de informação e sai andando como se nada tivesse acontecido, minha mente se limpa e a única reação que tive era de estar em choque e fora da realmente, um dos homens mais poderosos do reino iria me treinar.
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Torre
AventuraA história conta as aventuras de Viktor e de Felix o gato, seu fiel escudeiro em um mundo fantasioso, onde monstros malignos travam batalhas fantásticas contra humanos.
