A noite parecia pesar sobre os ombros de Simone quando entrou no quarto do hotel. As luzes da cidade filtravam-se pela cortina, jogando sombras longas no carpete. Tirou os sapatos num gesto quase silencioso, os pés agradecendo o alívio. Sentou-se à beira da cama e afrouxou os primeiros botões da blusa branca - revelando o início dos seios e a pele clara que cintilava com o suor discreto de um dia exaustivo.
Clarice ainda estava de pé perto da porta, a bolsa presa ao ombro, o corpo indeciso. Iria para o quarto ao lado. Isso era o esperado. Mas Simone, ao vê-la de relance pelo espelho do armário, sentiu algo dentro de si recuar - como se não quisesse ficar sozinha naquela noite.
- Você... pode ficar um pouco mais? - perguntou, sem encará-la diretamente.
Clarice sorriu leve, como quem entende mais do que ouve. - Claro. Podemos revisar aquelas minutas, se quiser.
- Claro... as minutas. - Simone pegou uma pasta da mesa, mas não a abriu. Sentou-se na poltrona perto da janela. - Só não quero silêncio absoluto agora.
Clarice largou a bolsa discretamente. Sentou-se no sofá pequeno à frente, cruzando as pernas com naturalidade. Simone reparou no modo como a saia dela subiu só um pouco, revelando o joelho, o traço da coxa. Engoliu em seco, sem saber por quê.
- Está tudo bem? - Clarice perguntou, com aquela voz morna, sem pressa, que sempre lhe dava a sensação de colo.
- Não sei. Estou... cansada. Mas é um cansaço que parece não passar. - Simone mexia em um anel no dedo, distraída. - Às vezes penso que me tornei uma ausência de mim mesma.
Clarice inclinou a cabeça, os olhos atentos. Mas não falou. Esperou.
- Não sei se você entende isso. Essa sensação de ser útil pra todo mundo, menos pra si mesma. De não lembrar a última vez que alguém... - hesitou por um instante. - te tocou... como se você fosse pele, desejo.
Clarice sorriu com doçura. Mas não disse "eu entendo". Apenas sussurrou:
- Você ainda é tudo isso. Só... talvez tenha esquecido o quanto.
Simone ergueu o olhar. Por um momento, não havia cargo, idade ou biografia entre elas. Só o silêncio suspenso. E nele, algo nascia.
- Você sempre fala assim? - Simone perguntou, tentando sorrir. - Como se tudo que dissesse tivesse mais de um sentido?
Clarice riu baixo. - Nem percebo. Às vezes as palavras me escapam... como olhares.
Simone abaixou os olhos. Tocou os botões da blusa de novo. Desabotoou mais um - sem pensar, ou pensando demais.
Clarice desviou o olhar rapidamente, mas não antes de Simone notar o instante em que os olhos dela fixaram na curva entre os seios, na linha suave da pele clara.
- Sabe o que mais sinto falta? - Simone murmurou. - De ser olhada assim.
Clarice respirou fundo, sem saber se devia responder àquela fala que a deixou confusa pelo duplo sentido. Optou pelo silêncio, mas seus olhos falavam, mesmo quando fugiam.
- Quer... quer que eu te faça uma massagem? - perguntou, hesitante, e ao mesmo tempo tentando fugir da fala anterior. - Você disse que estava tensa.
Simone hesitou por um segundo. Depois assentiu, de leve.
- Sim. Acho que preciso disso mais do que imagino.
Foi ela mesma quem se levantou e caminhou até a cama. Deitou-se de bruços, afundando o rosto no travesseiro, o cabelo castanho escuro, quase preto, escapando pelas laterais. Clarice permaneceu parada por um instante, olhando para o corpo de Simone, para os ombros nus, para a pele que parecia pedir toque.
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Short Love Stories
Hayran KurguUma série de pequenos amores criados. Sintam-se livres para me mandarem sugestões de casais ou apenas para apreciarem os que serão em breve descritos. Esta é uma obra de ficção sem qualquer compromisso com a realidade.
