019

40 1 1
                                        

POV Mia

O caminho até ao destino parecia saído de um sonho. Félix ia a conduzir, uma mão no volante, a outra a segurar a minha. De vez em quando, trocávamos olhares cúmplices e risos baixos, como se estivéssemos numa bolha onde só existíamos nós.

Chegámos a uma casa de campo encantadora, rodeada por árvores e silêncio, longe do rebuliço da cidade e das recordações que eu tentava deixar para trás. Mal estacionámos, Félix correu a abrir-me a porta do carro, fazendo-me rir com aquele cavalheirismo que parecia de outros tempos.

— Espero que gostes — disse ele, com um ar meio nervoso, como se a minha opinião tivesse mesmo o poder de lhe estragar ou salvar o dia.

— Adoro — respondi, sincera, sentindo o coração aquecido.

Assim que entrámos, ele puxou-me para junto de si e beijou-me com aquela urgência doce que me fazia esquecer tudo o resto. Era ali que eu queria estar. Com ele. Agora.


POV Neves

O som das chuteiras a bater contra o relvado ecoava no estádio vazio. Fiquei mais tempo nos treinos hoje, sem necessidade, mas a verdade é que precisava da distracção. Precisava de correr até não conseguir respirar, até os músculos doerem tanto que não sobrasse espaço para pensar nela.

O treinador olhou-me de lado, desconfiado da minha energia desmedida, mas não disse nada. Talvez tenha percebido.

Enquanto fazia os sprints, vi o telemóvel a piscar em cima do banco: uma notificação. Uma mensagem de um amigo da equipa, partilhando a foto dela e do Félix à beira da piscina, felizes, descontraídos, como se o mundo fosse perfeito.

Engoli em seco e voltei a correr, mais rápido ainda, como se pudesse fugir da imagem que agora se tinha entranhado em mim.

No fundo, sabia que estava a perder-me nisto. Mas o que podia fazer? Gostar dela nunca foi uma escolha. Foi algo que simplesmente aconteceu — como respirar, como existir.

E agora, ter de ver o meu lugar ocupado por outro, era uma dor que nem o futebol conseguia apagar.

POV Mia

O verão tinha passado num instante. Parecia que ainda ontem estava a fazer a mala para aquele fim de semana mágico com o Félix, e agora já me preparava para partir. As férias tinham acabado e, com elas, também aquela bolha perfeita onde tinha vivido durante os últimos meses.

Estávamos no aeroporto, o bilhete na mão a tremer ligeiramente. Félix segurava-me pela cintura, o sorriso triste estampado no rosto.

— Vamos sobreviver a isto, não vamos? — perguntei, num sussurro, tentando acreditar nas minhas próprias palavras.

Ele acariciou-me a bochecha com ternura, os olhos castanhos a prenderem os meus.

— Claro que vamos, Mia. Tu és... tu és especial — disse, e beijou-me a testa.

Abracei-o com força, tentando memorizar o cheiro, o toque, tudo. Não fazia ideia de como seria viver longe dele, mas confiava. Confiava no que tínhamos construído.

O que eu não sabia era que, enquanto eu sonhava com um "nós", o Félix lutava contra fantasmas que nunca chegaram a ir embora.

POV Félix

Vi-a desaparecer pela porta de embarque e senti um aperto no peito. Não de saudade, mas de culpa.

Tirei o telemóvel do bolso e vi a mensagem que tinha chegado minutos antes:
"Sentes a minha falta tanto quanto eu sinto a tua?" — dizia a Margarida.

Suspirei, passando a mão pelo cabelo, frustrado comigo próprio. Tinha tentado. Deus sabe como tentei esquecer a Margarida. Conhecer a Mia tinha sido como uma lufada de ar fresco — ela era doce, genuína, diferente. Durante algum tempo, acreditei que poderia funcionar, que poderia apagar a Margarida da memória.

Mas era mentira.

No fundo, sabia que tinha usado a Mia como uma fuga, uma tentativa desesperada de preencher o vazio que a Margarida tinha deixado. E agora, vendo a Mia a ir embora, percebia o quão injusto tinha sido para ela.

Ela merecia alguém inteiro, não alguém que vivia dividido entre o presente e o passado.

Respirei fundo, e antes que a consciência me pesasse demasiado, respondi à mensagem da Margarida:
"Sinto. Mais do que devia."

POV Neves

O verão acabou e, estranhamente, eu estava mais tranquilo. Tinha-me concentrado no futebol, na pré-época intensa, nos pequenos momentos de paz que conseguia arrancar dos treinos. A dor ainda lá estava, mas já não me esmagava o peito como antes.

Quando soube que a Mia tinha partido, senti aquele misto agridoce de alívio e saudade. Não fazia ideia do que se passava entre ela e o Félix. Para mim, ela ainda era aquela luz que eu nunca consegui alcançar.

Talvez, agora, finalmente, pudesse começar de novo. Mesmo que, no fundo, soubesse que certas pessoas ficam para sempre gravadas dentro de nós — quer queiramos, quer não.

—————————————————————————
Espero que continuem a gostar :)

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Apr 27, 2025 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Love in the gameHistórias para pegar e não largar. Descubra agora