Estruturas abaladas

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Era mês de março e logo eu completaria 18 anos. Meu pai fizera algo ruim que abalaria toda a estrutura da família, da minha vida. Eu não era mais criança. Havia crescido a muito tempo. Meu irmão sim, era uma criança que precisa de amparo e proteção.

Eu me senti com um grande fardo para carregar, além daqueles que eu já carregava. Quando precisei de alguém para desabafar, aquele namorado de tempos, não ajudou. Porque eu ainda estava com ele. Eu me perguntava isso o tempo todo. Talvez eu não quisesse ficar sozinha, talvez tivesse medo de voltar a reviver o passado que eu queria esquecer.

Não tinha coragem de falar com ninguém. O mês de São José Operário, nome da cidade a qual eu gostaria de voltar, mas não sabia como. Fiz a semana de novena e chorava todos os dias, minha mãe pensava que era por causa do namoro que estava por um fio, mas eu não estava nem ai para ele. O que estava na minha cabeça, era o cansaço, sentia o fardo grande demais para mim e não sabia o que fazer. E ainda sentia que tudo que acontecia em minha vida era uma punição pelo mal que fiz a  alguém. O passado voltava a me rondar.

Foram alguns meses de profundas tristezas em minha família, e eu não sabia o que fazer. Minha mãe saia as vezes a noite para vagar sem rumo, pelo tristeza que sentia. Tomava calmantes fortíssimos e dormia o dia todo. Eu comecei a fazer muito coisa que não era minha função, mas precisava cuidar e proteger meu irmão. 

As vésperas de me tornar maior de idade, tomei uma decisão. Ir embora. Abandonar tudo para trás e fazer meus pais amadurecerem e resolverem seus problemas. Me livrar do fardo e seguir. Era a unica solução, mesmo sabendo que meu irmãozinho teria que ficar, ele tinha apenas 10 anos e não precisava passar por problemas de adultos.

Meu namoro ainda continuava ali, meio morno. Nem pra lá, nem pra cá. Já não fazia diferença para mim.

Embarquei naquele ônibus, deixando tudo para trás. Fui ao encontro da minha vó, voltei para o lugar onde acreditava que nunca deveria ter saído. 25 de maio, esse era o dia em que completava minha maioridade dentro de um ônibus e minha avó me esperava no fim do caminho com um bolo.

Eu não sabia o que ia acontecer, não tinha noção de nada. Trabalho, estudo. Tudo era incerto em minha vida. Apenas minha amiga depressão me acompanhou. Ela sempre esteve ali.

Minhas amigas, depois da formatura, foram embora fazer faculdade. Eu não passara em nenhum, ou não quisera passar. Minha prima, aquela grande amiga, estava noiva, ia casar com o grande amor da vida dela. Eu não queria ficar segurando vela, então quase não saímos mais juntas. Renovar, era o que eu pensava quando entrei naquele ônibus. Chorei na partida, porque sabia que a saudade de casa ia bater. Mas fui.

Sem experiencia, não havia trabalho. Um, dois meses e a minha grande amiga depressão se aprofundou em mim. Não queria sair da cama, quando saia era para comer algo. Não me sentia me viva. Não sentia nada.

Você pode achar estranho o que vou contar. Esse segredo eu guardei comigo, mas precisava sentir dor. A dor poderia me dizer que ainda estava viva e precisava lutar. Mas como?

Uma unica sessão de tatuagem, duraria o dia todo e seria grande, para a dor valesse a pena. Era uma sexta -feira treze. Não contei a ninguém. Sai de casa cedo e só voltei a tarde. Sete horas de intensa dor, para uma pessoa normal, para mim pouca coisa, mas o suficiente para voltar a viver e decidir minha vida.

Terminei aquele namoro morno por email, para que adiar o que já havia acabado a muito tempo. Se não havia trabalho então vamos estudar. A biblioteca se tornou minha amiga, lia livros e comecei a ir na igreja onde fiz amigos muitos bons que estariam comigo o tempo todo. 

Consegui um trabalho em um loja, mas não fui registrada o que não me deu a experiencia para outro emprego. Seguia a vida. Nas horas vagas, ia na biblioteca para olhar o famoso Orkut, e um dia me deparei com uma mensagem, "Oi sou fulano, lembra de mim, te mandei rosas no colégio a muito tempo atras". Não havia foto, também puderá ele havia se queimado, mas com aquela mensagem não precisa de foto para que eu o reconhece-se. Só havia uma pessoa que havia me mandado rosas.

Na mensagem ainda vinha um pedido, "gostaria de te ver novamente". Não, eu não tinha coragem de olha-lo. Eu não podia olha-lo, a culpa já me consumia, se eu o visse seria pior. "Sei quem é você, mas não podemos nos encontrar, você tem mulher, filhos, por favor me deixa em paz". Minha resposta era clara, e nunca mais nos falaríamos. Assim eu espera.

Mais um namorado, mas em menos de um mês tudo acabou e o pior na mesma semana já estava namorando com outra. Eu achava que estava mesmo sendo castigada por algo ruim que fiz. Fiquei um ano, com minha avó. Fiz cursinho para entrar na escola de oficiais da policia militar, mas descobri que só estava fazendo isso para que minha família sentisse orgulho de mim. Percebi que não estava fazendo as escolhas para os outros. 

Viajei para casa, era o casamento da minha prima e um novo pequeno amor brotava em mim. Ela tinha um filho de 4 meses, que eu queria estar perto. Era praticamente meu sobrinho, pois ela era pra mim uma irmã. Ele, seria para mim como um filho. Voltei embora por ele, queria estar perto do meu amorzinho. E ele sempre gostou de mim também e até hoje ainda me chama de tia as vezes. Queria ficar com ele no colo o tempo todo e sentia ciumes, talvez mais que a própria mãe dele...rsrsrs

Meus pais estavam bem e juntos. Minha partida tinha dado um start neles. Meu irmão dizia sentir saudades. E eu voltei. Mas minha volta seria curta, logo estaria embarcando para a casa da vovó novamente. Sentia saudades dos amigos, dos afazeres, da vida que tinha lá e o pequeno já estava crescendo. 

Não tinha conseguido passar em nenhuma faculdade, então fui fazer uma particular, mas podia transferi-la. Tudo parecia caminhar bem. Apesar de ver minhas amigas todas casando, tendo filhos e eu ali. Sozinha.

Em busca da felicidadeWhere stories live. Discover now