79 - Cinzas e Leite

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Jack rasgou a própria camisa em tiras grossas. Suas mãos, normalmente firmes como rocha, tremiam levemente enquanto ele amarrava o tecido em volta da cintura de Anya, apertando o suficiente para conter o fluxo de sangue, mas rezando para não machucá-la mais.
Ela gemia, delirando, a pele cinzenta contra o vermelho vivo que manchava a pedra.
Ele a pegou no colo, a cabeça dela caindo contra seu ombro, e aninhou a bebê no espaço entre o corpo dele e o dela.
Jack olhou para o abismo uma última vez. A escuridão parecia tragar a luz das tochas, um vazio faminto que havia engolido seu filho.
Anya gemia baixinho em seu ombro, a bebê chorava contra o peito dela, um som frágil que o trazia de volta à realidade brutal. Jack trincou o maxilar com tanta força que sentiu um dente estalar. Ele queria pular. Cada fibra do seu ser, humana e demoníaca, gritava para ele pular naquela escuridão e procurar, cavar com as próprias unhas até encontrar o corpo pequeno.
Um rosnado subiu pela garganta de Jack, vibrando em seu peito. Ele não deixaria aquele lugar de pé. Não deixaria que aquele buraco continuasse existindo como uma boca aberta zombando de sua dor.
Ele caminhou até a saída, mas antes de cruzar o umbral, girou o corpo. Jack chutou a coluna central de sustentação. Não foi um chute técnico. Foi um golpe bruto, carregado com toda a força sobrenatural que ele possuía e toda a raiva de um pai que falhou. A pedra explodiu. O som de rachaduras subiu pelas paredes como trovões, e o teto começou a ceder, gemendo sob o próprio peso.
Ele correu. Correu para fora, protegendo sua família com o próprio corpo, enquanto toneladas de rocha desabavam atrás dele, esmagando o altar, esmagando os corpos dos assassinos e selando a entrada daquele poço para sempre. Uma nuvem de poeira e destruição cobriu a ilha, transformando o templo em uma montanha de ruínas.
- Ninguém mais entra aqui... - ele murmurou para a poeira que se erguia. - Ninguém perturba o sono dele.
Ele desceu as pedras em direção à enseada, movendo-se rápido, ignorando o cansaço que tentava arrastar seus pés.
No barco, a situação era precária.
Jack deitou Anya no fundo da embarcação, sobre seu sobretudo, tentando mantê-la aquecida. A bebê choramingava, um som fraco que cortava o coração de Jack.
Ele empurrou o barco para a água e começou a remar.
O mar estava agitado, ondas batendo contra o casco de madeira, jogando água gelada dentro.
Quando chegou ao cais improvisado, o velho pescador que lhe cedera o barco estava lá, andando de um lado para o outro, roendo as unhas sujas. Ao ver Jack surgir da névoa, coberto de sangue, poeira e segurando uma mulher e um embrulho minúsculo, o homem recuou, fazendo o sinal da cruz.
- Santo Deus... - o velho sussurrou, os olhos arregalados focando no sangue que encharcava o vestido rasgado de Anya.
Jack não parou. Ele avançou até o homem, seus olhos ainda brilhando com resquícios de vermelho.
O pescador olhou para a ilha, onde a poeira da destruição ainda subia aos céus, e depois para o rosto pálido de Anya. Ele conhecia aquela seita. Odiava os barcos encapuzados que passavam por ali à noite, os boatos de sacrifícios que o vento trazia. Ele viu o estado da garota e a fúria protetora nos olhos daquele estranho. Não precisava ser um gênio para entender o que tinha acontecido.
- Minha casa - o velho disse depressa, a voz trêmula mas decidida, apontando para uma cabana próxima. - É logo ali. Minha esposa tem caldos prontos. Vamos, rapaz. Tire ela desse frio.
A cabana era simples, cheirava a peixe defumado e madeira velha, mas era quente. Havia uma lareira crepitando no canto que parecia a coisa mais acolhedora do mundo naquele momento.
O pescador e sua esposa, uma senhora muda e eficiente que não fez perguntas ao ver o sangue real manchado de violência, trouxeram roupas, bacias de água morna e toalhas limpas. Depois recuaram para os fundos, fechando uma cortina de tecido grosso, deixando Jack sozinho com o sua família quebrada.
Jack deitou Anya na cama estreita com o máximo de cuidado que suas mãos trêmulas permitiam. Ela estava semi-consciente, os olhos vidrados, o corpo tremendo de choque e frio. A bebê, milagrosamente, havia parado de chorar, aninhada na curva do pescoço da mãe, buscando calor instintivamente.
- Anya... - Jack chamou, a voz falhando. Ele se sentia inútil, sujo. - Eu vou limpar você, amor. Vai arder, mas preciso tirar esse sangue.
Ele molhou os panos na água morna. Com uma delicadeza que contradizia a brutalidade que ele acabara de cometer, Jack limpou o rosto dela, tirando a fuligem e as marcas das lágrimas secas. Limpou os braços, as pernas trêmulas. Quando chegou ao ventre, ele precisou parar e respirar fundo para não socar a parede.
O corte era feio. A prata ou o que quer que eles tivessem usado na lâmina havia impedido a cura instantânea que o sangue dele proporcionava. A ferida estava aberta, feia, mas agora, longe daquele lugar maldito, ele podia ver as bordas começando a querer se fechar, lentamente. O sangue dele nela estava lutando para mantê-la viva.
Ele fez um curativo improvisado com as toalhas limpas, apertando o suficiente para estancar qualquer sangramento restante, mas não tanto para machucá-la. A vestiu no vestido velho mas macio que a esposa do pescador cedeu, e então colocou um cobertor sobre as pernas dela.
Depois se levantou e trocou as próprias roupas sujas. O pescador era um homem velho e curvado pela idade, e tão suas roupas eram particularmente menores do que os sobretudos e conjuntos largos e confortáveis que Jack estava acostumado. Além disso, apesar de ter limpado as mãos e os rosto nas bacias de água, seu cabelo ainda estava coberto de poeira e sangue.
Anya mal piscava, parecendo mais uma estátua de cera.
Jack sentiu na beirada da cama.
- Coma - ele disse, pegando a tigela de caldo que a senhora havia deixado sobre uma banqueta. Ele ergueu a cabeça de Anya e a apoiou em seu braço forte. - Por favor, Anya. Por ela.
Anya comeu mecanicamente, engolindo sem sentir o gosto, seus olhos fixos na filha. Quando terminou, pediu:
- O bebê... - ela sussurrou, a voz arranhada e fraca.
Jack pegou a menina, que estava enrolada em um pedaço de pano limpo que a esposa do pescador havia trazido. Ela era minúscula. Tão pequena que cabia na palma da mão dele. Tinha uma penugem de cabelos prateados como o da mãe, mas os olhos... ele ainda não conseguia ver a cor.
- Ela está aqui - Jack disse, a voz embargada, sentindo um nó na garganta.
Ele ajudou Anya a se ajeitar. Ela não tinha forças para segurar a criança sozinha, seus braços caíam ao lado do corpo. Então Jack se sentou na cama, encostando as costas na cabeceira de madeira, e puxou Anya para cima de si, segurando os braços dela para que ela segurasse a menina. Ela se deitou em seu peito largo, entre suas pernas, protegida pelo calor do corpo dele.
Com mãos trêmulas, ela abriu a parte de cima do vestido. A bebê, sentindo o cheiro da mãe e do leite, buscou o seio avidamente, começando a mamar com uma força surpreendente para alguém que acabara de nascer no meio de um massacre.
Anya sibilou de dor quando a bebê abocanhou o bico, mas não a afastou. Ela a segurou mais perto, as lágrimas escorrendo silenciosamente pelo rosto enquanto amamentava a única filha que lhe restou.
Jack observou a cena, sentindo um nó na garganta que ele não conseguia engolir.
Anya se recostou nele, exausta.
- Não me solte... - ela pediu num sussurro, a mão segurando o pezinho da bebê.
- Nunca - Jack respondeu, enterrando o rosto no cabelo sujo e emaranhado dela. - Eu estou aqui.
Ele sentiu o corpo dela relaxar completamente nos braços dele, o peso morto da exaustão tomando conta enquanto ela apagava, segura, finalmente, no único lugar onde o mundo não podia machucá-la: o colo dele.
Jack ficou ali, olhando para o fogo, segurando sua mulher e sua filha sobrevivente, enquanto uma parte de sua alma permanecia enterrada sob toneladas de pedra naquela ilha maldita.

Obcecado Por AnyaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora