77 - Rastro de sangue

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Jack corria.
Não como um homem corre, preocupado com o fôlego ou com o terreno irregular. Ele corria como a besta que era. As árvores passavam por ele como borrões verdes e marrons. Galhos batiam em seu rosto, mas ele nem piscava, a pele se curando antes mesmo que o sangue pudesse secar.
Ele havia deixado Adan e o castelo para trás sem olhar. Não importava quem cuidaria do reino, não importava se Villena se rebelaria novamente. Se Anya não estivesse ao seu lado, ele queimaria tudo aquilo até as cinzas de qualquer maneira.
O cheiro dela era uma linha tênue no ar, misturado ao odor de cavalos, suor de homens e medo.
Ele parou apenas uma vez na orla da floresta que dividia seu reino da costa. O cheiro de Anya mudou ali. Não havia mais cheiro de terra ou folhas. Havia cheiro de maresia e madeira podre. Ele rosnou para o vento.
Eles a levaram pelo mar.
Jack socou uma árvore ao seu lado, a madeira estalou e tombou com um estrondo que assustou os pássaros a quilômetros. Ele odiava o mar. Na terra, ele era um deus, um predador que ninguém conseguia despistar. Mas na água... ele era apenas um passageiro à mercê do vento e das ondas.
Ele avançou para a vila de pescadores mais próxima. As pessoas se afastavam, correndo para dentro de suas casas ao verem a figura alta, suja de sangue seco e com olhos que brilhavam em um vermelho intenso.
Ele não precisou pedir. Foi até o cais, onde um homem velho amarrava um barco de pesca modesto.
— Eu preciso dele. — Jack disse. Não foi uma pergunta.
O velho olhou para os olhos de Jack e tremeu, soltando a corda imediatamente.
— É... é seu, senhor.
Jack pulou para dentro da embarcação. Ele sabia navegar, seu pai garantira que ele aprendesse de tudo, mas a lentidão daquilo o deixava maluco.
Enquanto empurrava o barco para longe da areia e içava a vela, ele olhou para o horizonte cinzento.
— Anya... — ele sussurrou, sentindo o anel em seu dedo pulsar levemente, ou talvez fosse apenas seu próprio coração desesperado. — Se eles tocaram em um fio do seu cabelo, eu vou fazer o inferno parecer um lugar agradável.

◇•◇•◇•◇•◇•◇•◇

Anya acordou com o frio da pedra em sua bochecha.
Seus pulsos doíam onde as correntes de ferro roçavam a pele. Ela tentou se sentar, mas a tontura a atingiu com força, fazendo seu estômago vazio revirar.
Olhou ao redor. Era uma cela, ou algo parecido. Paredes de pedra úmida, uma porta de madeira reforçada com uma pequena grade no alto e um balde no canto.
— Droga... — ela resmungou, a voz rouca.
Levou a mão à barriga instintivamente.
— Oi... — sussurrou para o bebê. — Desculpe pela bagunça. Seu pai é um idiota que coleciona inimigos.
Ela se arrastou até a porta. Precisava sair. Precisava comer. Se não por ela, pela criança. Segurou as barras de ferro da pequena janela. Elas eram grossas, frias e enferrujadas.
Anya respirou fundo, tentando invocar aquela força que sentiu quando jogou Jack contra a estante, ou quando esmagou o pulso de Thomas. Ela sabia que estava lá, em algum lugar, aquela energia que veio do sangue de Jack.
— Vamos lá... — ela grunhiu, puxando as barras.
Seus músculos tremeram. Ela sentiu uma pontada de energia, algo quente percorrendo seus braços, e o ferro rangeu. Uma das barras entortou levemente, soltando lascas de ferrugem.
Mas foi só isso.
Anya soltou as barras e caiu sentada, arfando. Seus braços tremiam de fraqueza e pontos pretos dançavam em sua visão. Ela estava fraca demais. A fome a estava consumindo de dentro para fora, e o bebê parecia sugar qualquer resquício de energia que ela tivesse.
— Droga! — ela gritou, batendo a mão no chão. — Droga, Jack! Onde você está?
A porta se abriu com um rangido. Anya se encolheu contra a parede, esperando o pior.
Era Anderson. O homem mais velho que a carregou quando ela não aguentava mais andar. Ele entrou segurando uma tigela de madeira e um pedaço de pão duro.
— Você devia poupar suas forças, menina — disse ele, colocando a comida no chão, longe do alcance dela, mas perto o suficiente. — Ninguém escapa daqui.
Anya olhou para a comida como se fosse ouro. Se arrastou e pegou o pão, mordendo com voracidade antes de responder.
— Meu marido vem me buscar — ela disse de boca cheia, fuzilando-o com os olhos. — E quando ele chegar, ele não vai bater na porta.
Anderson suspirou, encostando-se na parede oposta. Ele parecia cansado, velho.
— Seu marido é o motivo de estarmos todos aqui — ele disse com amargura. — Ele tirou algo de nós. Algo que não pode ser devolvido. Nossas crianças.
Anya parou de mastigar. Ela se lembrou. As crianças...
— Vocês... — ela engoliu o pão seco com dificuldade. — Vocês são os parentes?
Anderson não respondeu, mas a dor em seus olhos foi resposta suficiente.
— Ele era uma criança também! — Anya argumentou, sentindo a necessidade de defender Jack mesmo sabendo que o que ele fez foi horrível. — Ele não controlava...
— E por isso meu neto está morto? — Anderson rebateu, sua voz subindo um tom. — Porque um monstro não sabia se controlar? O rei encobriu tudo com ouro e ameaças. Mas nós não esquecemos. Nós encontramos a fé verdadeira. E a fé exige justiça.
— Justiça? — Anya riu, uma risada sem humor. — Sequestrar uma mulher grávida e matá-la de fome é justiça?
— Não é você que queremos punir, menina. É a prole. — Ele olhou para a barriga dela com um misto de ódio e temor. — Não permitiremos que outra besta nasça para devorar nossos filhos.
Ele se virou e saiu, trancando a porta antes que Anya pudesse responder.
Anya largou o resto do pão, o apetite desaparecendo. Ela abraçou a barriga com força. Eles não queriam apenas Jack. Eles queriam o bebê.
— Ele não vai deixar... — ela sussurrou para a escuridão, tentando acreditar nas próprias palavras. — Ele está vindo.

Obcecado Por AnyaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora