capitulo 39

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O pesadelo da noite anterior ainda latejava na minha mente, como um sinal de alerta.
"Ninguém puxa as cordas melhor que eu."
A voz de Gawain ecoava, nítida, insolente.

Ele sempre foi prepotente, confiante a ponto de beirar a loucura. A própria ideia de grandeza o cegava, mas jamais o tornava idiota. Gawain podia se perder em discursos de glória, mas por trás de cada palavra, havia cálculo. Ele errava de propósito só para entender o que você faria em seguida.

Lembrei da primeira vez que ele trouxe aquele tabuleiro estranho. Peças brancas e pretas, mas com regras que só ele conhecia. Nem era xadrez, nem qualquer jogo que eu já tivesse visto. Até na diversão, ele precisava ditar as regras.

" - Você planeja, calcula, disfarça… mas enquanto você avança uma casa, eu já movi todo o tabuleiro - Gawain sorriu enquanto derrubava meu rei com um toque leve, quase preguiçoso

- Um dia você vai errar a jogada - Desafiei, a voz mais firme do que eu realmente sentia.

Ele se recostou na cadeira, olhos faiscando uma confiança que me gelou.
Talvez. — O sorriso dele se abriu, lento, cheio de veneno — Mas até lá, cada passo seu será exatamente onde eu quiser.

Naquele momento, percebi que o jogo nunca foi um passatempo. Era uma premonicao. Cada peça que eu acreditava mover por vontade própria já estava marcada por ele antes mesmo de tocar o jogo. Gawain não buscava apenas a vitória, ele queria corroer a ideia de liberdade, até que eu duvidasse da minha própria mente. Era esse o verdadeiro terror, a partida não começava quando eu sentava à mesa… ela começava muito antes, no exato momento em que ele me fez acreditar que eu tinha escolha."

Fiquei ali, encarando o teto, enquanto a realidade voltava em ondas.

O plano que eu tinha repetido mentalmente durante várias madrugadas. Atacar, punir, fazer cada um deles pagar pelo que fizeram com a minha tripulação, agora soava como uma armadilha maldisfarçada.
E talvez fosse exatamente isso.

Gawain nunca dava um passo sem três de vantagem. Se eu, movida pela raiva, entrasse em território inimigo, seria apenas uma peça jogando do jeito que ele queria.
Ele queria que eu fosse previsível.
Ele queria que eu sangrasse.

Talvez eu conseguisse atacar e sair vitoriosa. Talvez conseguisse derrubar cada um dos desgraçados que ousaram tocar no meu bando, mas a que preço?

Se Gawain já esperava por isso, bastaria um passo em falso para que mais vidas fossem perdidas ou para que eu mesma fosse capturada.

Ele adoraria me ver perder a cabeça, provar que sou tão previsível quanto qualquer inimigo que já derrotou.

O problema não era apenas a possibilidade de fracasso.
Era o que acontecia depois.

O que ele faria comigo se me tivesse de novo sob seu controle.

Meu corpo reagia antes que minha mente pudesse negar. O estômago se fechava, os músculos se enrijeciam, a respiração ficava curta. Eu podia estar segura, cercada pela minha tripulação, mas bastava o nome dele atravessar meus pensamentos para que eu voltasse a ser aquela versão quebrada de mim mesma, a que media cada palavra, cada gesto, com medo de errar e pagar caro por isso.

Eu odiava admitir, até para mim, mas Gawain ainda morava em lugares que eu não conseguia expulsar.

Ele não precisou de correntes para me prender. Usou tempo. Usou repetição. Usou silêncio. Me ensinou, dia após dia, que lutar trazia consequências piores do que obedecer. Que a dor podia ser meticulosa, paciente, e sobretudo… educativa. Ele não gritava. Não precisava. A calma dele era a verdadeira punição.

Zoro e S/nOnde histórias criam vida. Descubra agora