Anahi Portilla
A vinícola sempre teve cheiro de casa.
Madeira antiga, uvas esmagadas, terra aquecida pelo sol. Um cheiro que não perguntava se eu estava pronta para senti-lo, simplesmente entrava e ficava. Era injusto como algumas coisas permaneciam intactas, mesmo quando tudo dentro da gente parecia fora do lugar.
Eu estava ali havia uma semana.
Uma semana longe do escritório, longe das paredes de vidro, longe da paz que eu sentia por estar trabalhando em um lugar que tanto almejei. Mas era uma semana sem precisar provar nada a ninguém. E uma semana sem Alfonso.
Mentira.
Sem vê-lo.
Porque ele estava em tudo. No silêncio pesado antes de dormir, no lençol frio demais, no reflexo do espelho quando eu desviava o olhar rápido demais. Pensar nele não foi uma escolha em momento algum. Foi uma invasão lenta, constante, quase cruel.
E o pior era saber que eu tinha tentado evitar.
Desde o primeiro dia.
Desde o instante em que Alfonso Herrera entrou na minha vida como amigo, rival e provocador ambulante, eu deixei claro, para mim mesma, que aquilo não passaria de atração. Nada de sentimentos. Nada de envolvimento. Eu sabia exatamente o tipo de homem que ele era dentro do escritório: arrogante, ácido, competitivo, incapaz de baixar a guarda. Um homem que usava sarcasmo como armadura e poder como linguagem.
Eu não queria aquilo para mim.
Mas o problema foi descobrir que fora dali ele era outro.
Não completamente diferente, Alfonso nunca seria fácil, mas havia nuances que eu não esperava. O silêncio confortável depois do sexo, o jeito como me observava achando que eu não percebia e a forma como escutava minhas histórias sem interromper, sem ironizar, sem tentar competir. Na intimidade, ele não precisava provar nada. E foi exatamente ali que eu perdi o controle da situação. Porque eu não estava preparada para gostar dele daquele jeito.
Acordava no meio da madrugada com o coração acelerado, o corpo quente de um jeito que me dava raiva de mim mesma. Não era só desejo. Eu sabia disso. Era memória. Era meu cérebro puxando cenas que eu não pedi para rever, misturando prazer com afeto, como se fosse justo.
O jeito como ele me prendia contra a mesa.
O cuidado disfarçado quando eu ficava em silêncio.
A voz mais baixa, menos dura, quando estávamos sozinhos.
Balancei a cabeça com força, tentando expulsá-lo.
— Você precisa comer alguma coisa, filha.
- A voz da minha mãe veio suave demais, quase cuidadosa ao extremo.
Ela estava encostada no balcão da cozinha, me observando havia tempo suficiente para perceber que eu só empurrava a comida de um lado para o outro no prato.
Ela não sabia de nada, não tive coragem de contá-la, ela sofreria em saber que o Alfonso que ela tantou gostou e que agora estava fazendo o marketing de sua empresa, simplesmente não existia e nunca existiu. Até porque para mim, foi a mesma sensação.
O gosto amargo em minha boca só crescia.
— Já vou. - Respondi, automática.
Ela assentiu, mas não saiu dali. Minha mãe sempre soube quando eu estava mentindo. Desde criança. Quando eu caía e dizia que não doía, quando dizia que estava tudo bem depois de algo claramente errado. Ela nunca me confrontava. Apenas esperava.
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Brincando Com Fogo
RomanceQuando a conheci, ela seria a nova concorrente a uma das vagas mais importantes do nosso trabalho. Nunca imaginaria que aquela mesma mulher transformaria a minha vida em um verdadeiro inferno. Mas se o inferno fosse tão belo quanto ela, acho que n...
