Capítulo 3

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Quinta feira eu tinha os dois últimos horários de filosofia. Era meio chato, estudar bom senso. Mas aqui estava eu para aguentar mais um dia.

A primeira aula já havia acabado, achei que iríamos fazer uma atividade mas o professor se levantou e parou de frente a lousa.

- Como todos sabem os vestibulares estão chegando, então hoje iremos fazer uma atividade diferente. Todos ajeitam suas carteiras e façam um círculo.

A Taylor estava sentada do meu lado e assim como eu fez uma careta para a situação.

Me sentei ao seu lado e ela logo resmungou.

- O que esse professor tem de gato ele tem de chato.- Ela diz sussurrando e sorrindo.

- Você não presta.

Sorrimos e ficamos esperando o professor voltar a falar, o que não demorou muito.

- É uma dinâmica simples. Na primeira fase cada um vai compartilhar os seus sonhos com a turma. O que quer ser e seus desejos.

Todo mundo ficou falando ao mesmo tempo sobre isso e o professor aumentou o tom.

- Galerinha sem bagunça. Então, cada um vai falar sobre isso e vamos debater sobre o assunto. Ta legal?

Todos concordam e ele fala.

- Pode começar, Kerry. - A garota baixinha e morena da minha sala começa a falar dos seus sonhos e vontades.

Essa atividade me deixou pensativa. Todos ali naquela sala eram pessoa normais. Todos eram adolescentes perfeitos vivendo duas vidinhas perfeitas.

Mas eu era diferente demais para ser somente uma adolescente normal. Eu era rotulada, como se tivesse um selo na minha testa dizendo quem eu era. Uma aberração, a diferente, a que sofria. Um pequeno erro que todos podiam humilhar, cuspir e falar o que quisessem. Afinal, nunca sofreriam nada. Eu sou a errada.

Sou errada e feia. Errada e suja. Errada e inútil. Errada e diferente. Errada e insignificante.

Foi tão rotulada durante toda a minha vida que eu não sabia o que queria ser. Queria ser somente eu mesma, mas era impossível naquele mundo doente.

Então chegava ao ápice do problema. Eu não sabia o que queria ser. Eu não escolhi nem nascer assim. Não escolhi ser o que sou hoje. Mas todos me julgavam, sem se importar. Ah, ninguém nunca ligou para isso. Alunos nem professores.

Eles diziam que eu era diferente e deveria me acostumar a ser tratada assim. Se acostume a ser assim, sua vida vai ser uma merda. Era isso que eu ouvia deles. Era isso que eu escutava. Eu ainda escuto. Não aprendi a revidar, ainda não sei revidar...

- Victoria?- Ouvi o professor falar e todos os alunos olharem para mim.

O que dizer? Eu não sabia de nada, como poderia falar algo? Eu só sabia de uma única coisa, então porque não falar?

- Hm..Eu só queria ser normal.- Digo e todos me encarando em silêncio. Engulo o seco e continuo. - Ter ima vida normal e ser tratada normalmente, como se eu não fosse uma aberração. Ter uma deficiência não faz de mim pior do que ninguém, eu só queria que todos soubessem disso.

O silencio prosseguiu por mais alguns segundos até uma gargalhada explodir, virando todas as atenções para a dona dela. Alice!

- Isso é algum tipo de piada?- Ela diz sorrindo alto. - Não, porque parece muito.

Fico perplexa com suas palavras. Elas sempre tinham o poder de me ferir. Não podia acreditar que alguém pudesse ser tão rude como ela era. Ela era a garota perfeita. Alta, corpo cheio de curvas, cabelo e rosto bonito além de ser rica.

Victoria ( LIVRO 3)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora