A sensação é de ficar sob a água por tempo demais. Consumi tolamente todo o oxigênio
e, embora saiba que a superfície está logo acima, tenho dificuldade para chegar lá, em
meio ao pânico sufocante. Mas meus olhos se abrem em um mundo borrado, e dou
aquela primeira respirada. Não sei se estou arfando. Parece que sim.
O primeiro rosto que vejo ao acordar é o de Morfran, e ele está muito perto. Tento
instintivamente afundar mais, seja onde for que eu esteja deitado, para manter aquela
barba musguenta a uma distância mais segura. Sua boca está se movendo, mas não sai
nenhum som. O silêncio é completo, nem mesmo um zumbido uma vibração. Meus
ouvidos ainda estão off-line.
Morfran se afastou, ainda bem, e está falando com minha mãe. Então, de repente, ali
está Anna, flutuando e pousando no chão ao meu lado. Tento virar a cabeça para
acompanhar. Ela passa os dedos em minha testa, mas não diz nada. Percebo o alívio
elevando os cantos de seus lábios.
Minha audição volta estranhamente. A princípio ouço ruídos abafados, depois,
quando eles por fim ficam claros, não fazem sentido. Acho que meu cérebro concluiu
que tinha sido despedaçado e agora está religando as funções pouco a pouco, testando
terminações nervosas e gritando através das sinapses, feliz por encontrar tudo ainda ali.
— O que está acontecendo? — pergunto, depois que os tentáculos de minha mente
finalmente localizam a língua.
— Putz, cara, achei que você já era — Thomas exclama, aparecendo ao lado do que
agora percebo que é o mesmo sofá antigo em que me puseram quando fui nocauteado,
naquela primeira noite na casa de Anna. Estou na loja de Morfran. —Quando trouxeram
você... — ele diz. Não termina a frase, mas sei o que quer dizer. Ponho a mão em seu
ombro e lhe dou uma sacudida.
— Eu estou bem — respondo e me sento um pouco, apenas com um mínimo de
dificuldade. —Já estive em enrascadas piores.
Do outro lado da sala, de costas para todos nós, agindo como se tivesse muitas
coisas bem mais interessantes para fazer, Morfran solta o ar com desdém.
— Pouco provável. — Ele se volta. Os óculos de aro fino deslizaram quase até a
ponta do nariz. —E você ainda não está fora dessa "enrascada". Você foi obehado.
Thomas, Carmel e eu fazemos o que todos fazem quando alguém está falando outro
idioma: nos entreolhamos e dizemos "Hã?".
— Obehado, garoto — Morfran repete com impaciência. — Magia vodu das Índias
Ocidentais. Você tem sorte de eu ter passado seis anos em Anguilla com Julian Baptiste.
Aquele, sim, era um verdadeiro obeahman.
Estico as pernas e me sento mais ereto. Exceto por uma leve dor nas costas e nas
laterais do corpo, além da cabeça meio tonta, eu me sinto bem.
— Eu fui obehado por um obeahman? É como quando os Smurfs ficam falando de
"smurfadas smurfantes"?
—Não é hora para piadas, Cassio.
É minha mãe. Ela está péssima. Andou chorando, e eu odeio isso.
—Ainda não sei como ele entrou na casa —diz ela. —Sempre temos tanto cuidado.
E o feitiço de barreira estava funcionando. Funcionou com Anna.
— Era um ótimo feitiço, sra. Lowood — Anna concorda. — Eu nunca poderia ter
passado por aquela porta. Por mais que quisesse. — Quando diz a última frase, seus
olhos escurecem uns três tons.
— O que aconteceu? O que houve depois que eu apaguei, ou seja lá o que for? —
Estou interessado agora. O alívio de não estar morto já cedeu.
— Eu disse a ele para sair e me enfrentar. Ele não aceitou. Só abriu aquele sorriso
terrível. Depois sumiu. Não ficou nada além de fumaça. —Anna se volta para Morfran.
—O que ele é?
—Ele era um obeahman. O que é agora eu não sei. Qualquer limitação que tivesse,
ficou em seu corpo. Agora ele é só força.
—Mas o que é obeah? —Carmel pergunta. —Sou a única pessoa que não sabe?
— É só outra palavra para vodu — digo, e Morfran bate o punho fechado no canto de madeira do balcão.
—Se é isso que você acha, já pode se considerar morto.
— Por quê? — Eu me levanto, oscilante, e Anna segura minha mão. Esta não é uma conversa para se ter deitado.
— Obeah é vodu — ele explica. — Mas vodu não é obeah. O vodu é simplesmente
bruxaria afro-caribenha. Segue as mesmas regras da magia que todos nós praticamos. O
obeah não tem regras. O vodu canaliza energia. O obeah é energia. Um praticante de
obeah não canaliza nada, ele toma para si. Ele se torna a fonte de energia.
—Mas a cruz...Eu encontrei uma cruz preta, como a sua, de Papa Legba.
Morfran balança a mão.
— Ele provavelmente começou como voduísta. Mas é muito, muito mais agora.
Você nos meteu em um monte de merda.
— Como assim, eu nos meti? — pergunto. — Por acaso eu chamei o cara aqui? "Ei,
cara que matou meu pai, venha para cá aterrorizar meus amigos e eu!"
— Você o trouxe aqui — Morfran rosna. — Ele esteve com você o tempo todo. —
Olha com fúria para o athame em minha mão. —De carona nessa maldita faca.
Não. Não. Não pode ser isso. Agora eu entendo o que ele está dizendo, e não pode
ser verdade. O athame parece pesado, mais pesado que antes. O brilho da lâmina no
canto de meu olho parece dissimulado e traidor. Ele está dizendo que esse obeahman e
meu athame estão ligados.
Minha mente resiste, mesmo que eu saiba que ele está certo. Por que outro motivo
ele me traria o punhal de volta? Por que Anna teria sentido cheiro de fumaça quando a
lâmina a cortou? O punhal estava ligado a mais alguma coisa, ela disse. Algo sombrio.
Achei que fosse apenas a energia inerente do athame.
—Ele matou meu pai —eu me ouço dizer.
— Claro que matou — Morfran retruca com brusquidão. — Como acha que ele se
conectou coma faca?
Não digo nada. Morfran está me lançando aquele olhar "junte as peças, gênio".
Todos nós já passamos por isso. Mas acabei de ser desenfeitiçado não faz nem cinco
minutos, então me deem um tempo.
— É por causa do seu pai — minha mãe murmura, antes de ser mais direta: —
Porque ele comeu o seu pai.
— A carne — Thomas acrescenta, e seus olhos se acendem. Ele olha para Morfran,
em busca de aprovação, e continua: —Ele come carne humana. Carne é energia. Essência.
Quando ele comeu seu pai, absorveu a energia dele. — Baixa os olhos para o athame,
como se nunca o tivesse visto antes. —Aquilo que você chamou de laço de sangue, Cas.
Agora ele tem um vínculo coma faca. Ela o alimenta. — Não — protesto fracamente. Thomas me dirige uma expressão desamparada de
apoio, tentando dizer que eu não fiz de propósito.
— Espere — interrompe Carmel. — Você está dizendo que essa coisa tem pedaços
do Will e do Chase? Como se levasse parte deles por aí? —Ela parece horrorizada.
Olho para o athame. Eu o usei para despachar dezenas de fantasmas. Sei que
Morfran e Thomas estão certos. Então para onde, afinal, estive mandando todos eles?
Não quero pensar nisso. Os rostos dos fantasmas que matei passam em flashes por trás
de minhas pálpebras fechadas. Vejo suas expressões, confusas e bravas, cheias de dor.
Vejo os olhos assustados do Caronista, tentando chegar em casa para encontrar a
namorada. Não posso dizer que achava que estava lhes dando descanso. Eu esperava que
sim, mas na verdade não sabia. Só que com certeza eu não queria fazer isto.
—É impossível —digo por fim. —O punhal não pode estar ligado aos mortos. Ele
serve para matar os mortos, não para lhes dar alimento.
— Não é o Cálice Sagrado que você tem nas mãos, garoto — Morfran ironiza. —
Essa faca foi forjada muito tempo atrás, com poderes que era melhor terem ficado
esquecidos. Só porque você a usa para o bem, não significa que a intenção original foi
essa. Não significa que é só disso que ela é capaz. O que ela era quando seu pai a usava
não é o mesmo que é agora. Cada espírito que você matou fez esse fantasma mais forte.
Ele come carne humana. É um obeahman. Um coletor de energia.
As acusações me fazem querer ser criança outra vez. Por que minha mãe não está
chamando todos eles de grandes mentirosos? Daquele pior tipo, de cara de pau e nariz de
Pinóquio? Mas minha mãe está em silêncio, ouvindo tudo sem discordar.
—Você está dizendo que ele esteve comigo o tempo todo. —Eu me sinto doente.
— Estou dizendo que o athame é como as coisas que trazemos para esta loja. O
fantasma esteve com ele. —Morfran olha, sério, para Anna. —E agora ele a quer.
— Por que ele mesmo não faz isso? — pergunto, cansado. — Ele é comedor de
carne, certo? Por que precisa da minha ajuda?
—Porque eu não sou carne—Anna responde. —Se fosse, estaria podre.
—Em termos bem diretos —Carmel observa. —Mas ela tem razão. Se os fantasmas
fossem carne, seriam mais como zumbis, não é?
Começo a oscilar ao lado de Anna. A sala está girando lentamente, e sinto o braço
dela me segurar pela cintura.
— O que isso tudo importa neste momento? — Anna questiona. — Há algo a ser
feito. Será que esta conversa não pode esperar?
Ela fala isso por mim. Há um tom protetor em sua voz. Eu a fito, agradecido, em pé
a meu lado, em seu auspicioso vestido branco. Ela é pálida e magra, mas ninguém
poderia dizer que é fraca. Para aquele obeahman, deve parecer o banquete do século. Ele
quer que ela seja o seu grande fundo de aposentadoria.
—Vou acabar com ele—digo.
—Vai precisar fazer isso —Morfran concorda. —Se quiser permanecer vivo.
Isso não parece bom.
—Como assim?
— O obeah não é minha especialidade. Seria preciso mais de seis anos para isso,
com ou sem Julian Baptiste. Mas, mesmo que fosse, não posso tirar o feitiço de você. Só
posso me contrapor a ele e ganhar tempo. Mas não muito. Você estará morto ao
amanhecer, a menos que faça o que ele quer. Ou a menos que o mate.
A meu lado, Anna fica tensa. Minha mãe leva a mão à boca e começa a chorar.
Morto ao amanhecer. Pois bem. Não sinto nada, ainda não, exceto uma espécie de
zumbido baixo e cansado por todo o corpo.
—Oque vai acontecer comigo, exatamente? —pergunto.
—Não sei —Morfran responde. —Pode parecer uma morte humana natural, ou ter
a forma de envenenamento. De qualquer modo, acho que você pode esperar que alguns
de seus órgãos comecem a parar de funcionar nas próximas horas. A menos que você o
mate. Ou mate ela. — Faz um sinal com a cabeça indicando Anna, e ela aperta minha mão.
—Nem pense nisso —digo a ela. —Eu não vou fazer o que ele quer. E essa históriade fantasma suicida já perdeu a graça.
Ela levanta o queixo.
—Eu não ia sugerir isso. Se você me matasse, ele só ficaria mais forte e voltaria para
matar você, de qualquer modo.
—Então o que fazemos? —Thomas pergunta.
Eu não gosto, particularmente, de ser o líder. Não tenho muita prática com isso e me
sinto muito mais à vontade arriscando apenas a minha pele. Mas não adianta. Não há
tempo para desculpas ou dúvidas. Nas mil maneiras que imaginei isso acontecendo,
jamais poderia ter pensado em nada assim. De qualquer forma, é bom que eu não esteja lutando sozinho.
Olho para Anna.
—Vamos lutar em nosso próprio campo —afirmo. —E ficar nas cordas.
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Anna Vestida de Sangue
HorrorCas Lowood herdou uma vocação incomum: ele caça e mata os mortos. Seu pai fazia o mesmo antes dele, até ser barbaramente assassinado por um dos fantasmas que perseguia. Agora, armado com o misterioso punhal de seu pai, Cas viaja pelo país com sua mã...
