Esta é a operação mais desmantelada que já vi. Estamos viajando em uma pequena
caravana nervosa, amontoados em carros velhos que deixam trilhas de fumaça escura,
sem saber se estamos prontos para fazer o que quer que estejamos indo fazer. Ainda não
expliquei a estratégia de "ficar nas cordas". Mas acho que Morfran e Thomas, pelo
menos, desconfiam do que seja.
A luz está começando a ficar dourada, chegando pela lateral, pronta para adquirir os
tons do pôr do sol. Colocar tudo nos carros demorou um século. Temos metade do
estoque de ocultismo da loja enfiado no Tempo de Thomas e na picape Chevy de
Morfran. Fico pensando nas tribos nômades nativas e em como conseguiam embalar
uma civilização inteira em uma hora, a fim de perseguir búfalos. Quando os humanos
começaram a juntar tanta tralha?
Quando chegamos à casa de Anna, começamos a descarregar os carros, levando para
dentro tudo o que podemos. Foi isso que eu quis dizer quando falei "em nosso próprio
campo". Minha própria casa parece contaminada, e a loja é próxima demais do restante
da cidade. Contei para Morfran sobre os espíritos inquietos, mas ele acha que eles vão se
encolher em algum canto escuro na presença de tantos bruxos. Vou confiar na palavra dele.
Carmel entra em seu Audi, que ficou estacionado ali o tempo todo, e esvazia a
mochila da escola para poder enchê-la de ervas e frascos de essências. Até aqui, eu me
sinto bem. Ainda lembro o que Morfran disse sobre o feitiço obeah ficar pior aos
poucos. Há uma dor se formando em minha cabeça, bem entre os olhos, mas pode ser
da batida na parede. Se tivermos sorte, vamos acelerar o ritmo o suficiente para que esta
batalha termine antes que a maldição comece a me perturbar. Não sei quanto poderei
ajudar se estiver me contorcendo em agonia.
Estou tentando me manter positivo, o que é estranho, já que tenho uma tendência a
me preocupar. Deve ser toda essa história de líder da turma. Tenho de parecer bem.
Tenho de parecer confiante. Porque minha mãe está aflita a ponto de ficar de cabelos
brancos antes da hora, e Carmel e Thomas estão pálidos demais, mesmo para canadenses.
— Você acha que ele vai nos encontrar aqui? — Thomas pergunta enquanto
puxamos um saco de velas de dentro do carro.
— Acho que ele sempre soube exatamente onde eu estou — respondo. — Ou, pelo
menos, sempre sabe onde o punhal está.
Ele olha para Carmel, que ainda arruma cuidadosamente dentro da mochila frascos
de óleo e potes de vidro com coisas flutuando.
— Acho que a gente não devia ter trazido as duas — Thomas diz. — A Carmel e a
sua mãe. Talvez a gente deva mandá-las para algum lugar seguro.
— Não acho que exista um lugar assim. Mas vocês podiam levar as duas, Thomas.
Você e o Morfran podiam se esconder com elas por aí. Têm alguma condição de resistir,
se for preciso.
—E você? E a Anna?
—Bom, parece que somos nós que ele quer —digo, encolhendo os ombros.
Ele franze o nariz para ajeitar os óculos no rosto. Sacode a cabeça.
— Não vou para lugar nenhum. Além disso, elas devem estar tão seguras aqui
quanto em qualquer outra parte. Podem pegar algum fogo cruzado, mas pelo menos não
estão sozinhas, sendo alvos fáceis.
Olho para ele com afeto. Sua expressão é de pura determinação. Thomas não é, de
forma alguma, o tipo naturalmente corajoso. E isso faz da coragem dele algo ainda mais
valioso.
—Você é um bom amigo, Thomas.
Ele ri.
—É, obrigado. Agora, que tal você me contar sobre esse plano que supostamente vai
evitar que a gente seja devorado?
Eu sorrio e olho para os carros, onde Anna está ajudando minha mãe com um braço
e carregando um pacote com seis garrafas de água mineral no outro.
—Tudo que preciso de você e do Morfran é um jeito de contê-lo quando ele chegar
aqui — digo, enquanto continuo a observar. — E, se tiverem como lançar a isca para a
armadilha, também ajudaria. — Deve ser fácil — ele responde. — Tem toneladas de feitiços de evocação usados
para atrair energias, ou para atrair um namorado. Sua mãe deve conhecer dezenas. É só a
gente alterar um pouco. E podemos energizar uma corda para contenção. Também
podemos modificar o óleo de barreira da sua mãe. — Franze a testa enquanto vai
refletindo sobre os requisitos e métodos.
— Deve funcionar — digo, embora não tenha ideia da maior parte do que ele está falando.
—É—ele responde, cético. —Agora, se você puder me arrumar 1,21 gigawatt e um
capacitor de fluxo, estamos prontos.
Eu rio.
—São Tomé, pare de ser tão negativo. Isso vai dar certo.
—Como você sabe?
— Porque tem que dar. — Tento manter os olhos bem abertos enquanto minha
cabeça começa a doer de verdade.
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Anna Vestida de Sangue
TerrorCas Lowood herdou uma vocação incomum: ele caça e mata os mortos. Seu pai fazia o mesmo antes dele, até ser barbaramente assassinado por um dos fantasmas que perseguia. Agora, armado com o misterioso punhal de seu pai, Cas viaja pelo país com sua mã...
