Minha mãe e eu estamos sentados no carro dela, em um canto do estacionamento da
escola, vendo os ônibus chegarem, abrirem as portas e despejarem alunos, que entram
apressadamente no prédio. O processo é mais ou menos como uma fábrica: uma
engarrafadora ao contrário.
Eu lhe contei o que Gideon disse e pedi sua ajuda para fazer a mistura de ervas, e ela
concordou. Noto que parece um pouco abatida. Há círculos escuros, meio arroxeados,
sob seus olhos, e os cabelos estão sem brilho. Normalmente eles cintilam como uma
panela de cobre.
—Você está bem, mãe?
Ela sorri e olha para mim.
—Estou, querido. Só preocupada com você, como sempre. E com o Tybalt. Ele me
acordou ontem à noite, pulando no alçapão do sótão.
—Droga, desculpe—digo. —Esqueci de subir e pôr as armadilhas.
— Não faz mal. Ouvi algo se mover lá, na semana passada, e parecia muito maior
que um rato. Será que guaxinins podem entrar no sótão?
— Talvez seja só uma turma de ratos — sugiro, e ela faz cara de nojo. — É melhor
você chamar alguém para dar uma examinada.
Ela suspira e bate o dedo no volante.
—Pode ser. —Encolhe os ombros.
Minha mãe parece triste, e lembro de repente que não sei como ela está se saindo
aqui. Não a ajudei muito na mudança, nem com a casa, nem com mais nada. Mal paro
em casa, na verdade. Dou uma olhada para o banco de trás e vejo uma caixa de papelão
cheia de velas encantadas de várias cores, prontas para ser vendidas em uma livraria
local. Normalmente eu teria embalado para ela e amarrado as etiquetas apropriadas com muitos fios coloridos.
— O Gideon me falou que você fez alguns amigos — diz ela, olhando para a
multidão na frente da escola como se fosse capaz de identificá-los. Eu deveria saber que
Gideon ia dar com a língua nos dentes. Ele é como um pai substituto. Não como um
padrasto exatamente. Mais como um padrinho, ou um cavalo-marinho que quer me
guardar dentro de sua bolsa.
—Só o Thomas e a Carmel —respondo. —Os que você já conheceu.
—A Carmel é uma menina muito bonita—ela diz, com voz esperançosa.
—Parece que o Thomas também acha.
Ela suspira, depois sorri.
—Que bom. Ele está precisando de um toque de mulher.
—Mãe—gemo. —Que podre.
— Não esse tipo de toque — ela ri. — Eu quis dizer que ele precisa de alguém para
dar uma ajeitada nele. Fazê-lo endireitar o corpo. Esse menino é todo encolhido. Echeira
a cachimbo de velho. — Ela procura alguma coisa no banco traseiro, e sua mão volta
cheia de envelopes.
— Eu estava mesmo querendo saber o que tinha acontecido com a minha
correspondência — digo, passando os olhos pelas cartas. Elas já estão abertas. Não me
importo. São apenas dicas sobre fantasmas, nada pessoal. No meio da pilha, há uma carta
grande do Margarida Bristol. —O Margarida escreveu. Você leu?
— Ele só queria saber como você estava. E contar tudo o que aconteceu com ele no
último mês. Quer que você vá a New Orleans por causa do espírito de uma bruxa que
anda espreitando em volta de uma árvore. Parece que ela costumava usar a árvore para
sacrifícios. Não gostei do jeito que ele falou dela.
Dou um sorriso condescendente.
—Nem toda bruxa é boa, mãe.
— Eu sei. Desculpe por ler suas cartas. Mas você estava concentrado demais para
reparar na correspondência. A maioria ficou esquecida em cima da mesa. Achei melhor
cuidar disso para você. Garantir que não estivesse deixando passar nada importante.
—E estava?
—Um professor em Montana quer que você vá matar um vampiro.
—Quem eu sou? Van Helsing?
—Ele disse que conhece o dr. Barrows, de Holyoke.
Faço um som de desdém.
—O dr. Barrows sabe que monstros não são reais.
Minha mãe suspira.
— Como podemos saber o que é real? A maioria das coisas que você elimina
poderia ser chamada de monstro por algumas pessoas.
— É. — Ponho a mão na maçaneta. — Tem certeza que pode conseguir as ervas de
que eu preciso?
Ela confirma com um gesto de cabeça.
—E você tem certeza que pode conseguir que eles te ajudem?
Olho para a multidão de estudantes.
—Vamos ver.
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Os corredores hoje parecem algo saído de um filme. Daquele tipo em que os
personagens importantes andam em câmera lenta e o restante das pessoas só vai
passando, como borrões de diferentes cores de pele e roupas. Avistei Carmel e Will na
multidão, mas ele estava indo em direção oposta a mim, e não consegui chamar a atenção
dela. Não vi Thomas, apesar de ter ido até seu armário duas vezes. Então tento me
manter acordado durante a aula de geometria. Não me saio muito bem. Não deveria ser
permitido ensinar matemática de manhã tão cedo.
No meio de uma explicação sobre demonstrações matemáticas, um retângulo de
papel dobrado aterrissa sobre minha carteira. Quando o abro, vejo um bilhete de Heidi,
uma loira bonita que senta três fileiras atrás. Ela está perguntando se eu preciso de ajuda
com os estudos. E se quero ver o novo filme de Clive Owen. Enfio o bilhete dentro do
livro de matemática como se fosse responder mais tarde. Não vou, claro, e, se ela
perguntar, respondo que estou indo bem sozinho, e talvez alguma outra hora. Pode ser
que ela me convide de novo, mais umas duas ou três vezes, mas depois disso vai
entender o recado. Pode parecer cruel, mas não é. De que adianta sair para ver um filme
e começar algo que não vou poder terminar? Não quero sentir falta das pessoas e não
quero que elas fiquem sentindo falta de mim.
Depois da aula, escapo rapidamente da sala e me misturo com os outros alunos no
corredor. Acho que ouço a voz de Heidi me chamando, mas não me viro. Tenho
trabalho a ser feito.
O armário de Will é o mais próximo. Ele já está lá e, como sempre, com Chase a
tiracolo. Quando me vê, seus olhos se movem automaticamente da direita para a esquerda, como se achasse que não deveríamos ser vistos conversando.
— E aí, Will? — cumprimento. Faço um gesto de cabeça para Chase, que me recebe
com uma expressão de pedra, como se estivesse dizendo para eu tomar cuidado ou ele
vai me dar um murro a qualquer momento. Will não diz nada. Só dá uma olhada para
mime continua o que estava fazendo, pegando seus livros para a próxima aula.
Percebo, com uma espécie de choque, que Will me odeia. Ele jamais gostou de mim,
por lealdade a Mike, e agora me odeia por causa do que aconteceu. Não sei por que não
percebi isso antes. Acho que nunca penso muito sobre os vivos. De qualquer modo, fico
contente pelo que tenho para lhe falar, sobre ele ser parte do feitiço. Isso lhe dará uma
espécie de fechamento para o processo de luto.
—Você disse que não queria ficar de fora. Eis a sua chance.
— Qual é a chance? — ele pergunta. Seus olhos são frios e cinzentos. Duros e
inteligentes.
— Não dá para você mandar o seu capanga dar uma volta primeiro? — Faço um
gesto na direção de Chase, mas nenhum deles se move, então continuo: — Vamos fazer
um feitiço para prender o fantasma. Encontre a gente na loja do Morfran depois da
escola.
— Você é uma aberração, cara — Chase me diz com desprezo. — Traz essa merda
toda pra cá. Faz a gente ter que falar coma polícia.
Eu não sei do que ele está resmungando. Se os policiais tiverem sido tão tranquilos
com eles como foram com Carmel e comigo, qual é o grande drama? E acredito que
foram, porque eu estava certo sobre o que pensei que fariam. O desaparecimento de
Mike gerou apenas um pequeno grupo de buscas, que vasculhou as colinas por cerca de
uma semana. Houve algumas poucas notícias no jornal, que logo deixaram a primeira
página.
Todos estão engolindo a história de que ele resolveu fugir de repente. Era de esperar.
Quando as pessoas veem algo sobrenatural, sempre racionalizam. Os policiais de Baton
Rouge fizeram isso com o assassinato de meu pai. Concluíram que foi um ato de
violência extrema, provavelmente executado por alguém que estava de passagem pelo
estado. E daí que ele foi comido? E daí que nenhum ser humano poderia ter dado
mordidas daquele tamanho?
— Pelo menos a polícia não acha que vocês estão envolvidos — ouço-me dizer
distraidamente. Will bate a porta do armário.
—Não é isso que importa —diz em voz baixa e me olha com uma expressão dura.
—É melhor que isso não seja mais uma enrolação. É bom que seja sério.
Enquanto eles se afastam, Carmel surge a meu lado.
—Oque foi? —pergunta.
—Eles ainda estão pensando no Mike. Algo de estranho nisso?
Ela suspira.
—Só que parece que somos apenas nós. Eu achei que, depois do que aconteceu, um
bando de pessoas ia me cercar fazendo um milhão de perguntas. Mas nema Nat e a Katie
perguntam mais nada. Elas estão mais interessadas em saber de você, se estamos juntos e
quando vou te levar comigo nas festas. — Olha para os que estão passando. Muitas
meninas sorriem e algumas a chamam e acenam, mas nenhuma se aproxima. É como se
eu estivesse usando repelente de pessoas. — Acho que elas estão meio bravas — Carmel
prossegue. — Porque eu não tenho saído muito com elas ultimamente. Não é legal, acho.
Elas são minhas amigas. Mas... as coisas que eu quero falar não podem ser ditas para
elas. Eu me sinto tão diferente, como se tivesse tocado algo que tirou minha cor. Ou
talvez eu esteja colorida agora e elas estejam em branco e preto. — Olha para mim. —
Nós estamos vivendo uma vida secreta, não é, Cas? E ela está nos tirando do mundo.
— Geralmente é assim que funciona — digo mansamente.
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Anna Vestida de Sangue
TerrorCas Lowood herdou uma vocação incomum: ele caça e mata os mortos. Seu pai fazia o mesmo antes dele, até ser barbaramente assassinado por um dos fantasmas que perseguia. Agora, armado com o misterioso punhal de seu pai, Cas viaja pelo país com sua mã...
