Capítulo 11

390 18 1
                                        

Minha mãe me deixa dormir até bem tarde e, quando finalmente me acorda, é para dizer
que preparou um banho com folhas de chá, alfazema e beladona. A beladona está lá para
moderar meu comportamento imprudente, mas não me oponho. Todo o meu corpo dói.
Isso é o que ser jogado de um lado para outro pela deusa da morte, dentro de uma casa,
durante a noite inteira, faz com você.
Enquanto afundo na banheira, muito devagar, com uma careta, começo a pensar em
meu próximo movimento. O fato é: estou em desvantagem. Isso não aconteceu muitas
vezes, e nunca neste grau. Mas, ocasionalmente, preciso pedir ajuda. Pego meu celular na
bancada do banheiro e ligo para um velho amigo. Um amigo há gerações, na verdade. Ele
conhecia meu pai.
—Theseus Cassio —diz ele quando atende, e eu dou um sorriso afetado. Ele nunca
vai me chamar de Cas. Acha meu nome completo muito mais divertido.
—Gideon Palmer —digo em resposta e o imagino do outro lado da linha, do outro
lado do mundo, sentado em uma casa muito inglesa com vista para Hampstead Heath, no
norte de Londres.
—Faz muito tempo —ele comenta, e posso imaginá-lo cruzando ou descruzando as
pernas. Quase posso ouvir o roçar do tweed ao telefone. Gideon é um clássico
cavalheiro inglês, sessenta e cinco anos pelo menos, cabelos brancos e óculos. É o tipo de
homem com um relógio de bolso e longas prateleiras de livros meticulosamente
espanados, que vão do piso ao teto. Costumava me empurrar na escada de rodinhas
quando eu era criança e ele queria que eu pegasse algum livro estranho sobre poltergeists,
ou feitiços de impedimento, ou o que fosse. Minha família e eu passamos um verão com
ele enquanto meu pai caçava um fantasma que estava assombrando White chapel, uma
espécie de aspirante a Jack, o Estripador. — Diga-me, Theseus. Quando você pretende retornar a Londres? Muitas coisas estranhas pela noite para mantê-lo ocupado por aqui.
Várias universidades excelentes, todas assombradas até o pescoço.
—Você anda conversando coma minha mãe?
Ele ri, mas é claro que anda. Eles permaneceram próximos depois que meu pai
morreu. Ele era... acho que "mentor" do meu pai seria a melhor palavra. Mas era mais
que isso. Quando meu pai foi morto, ele pegou um avião no mesmo dia. Ajudou minha
mãe e eu a enfrentarmos a barra. E, agora, vem com a cantilena de como é preciso enviar
as inscrições para as faculdades no próximo ano, e como eu tenho sorte de meu pai ter
deixado recursos para minha educação e eu não precisar ficar me preocupando com
empréstimos estudantis e todas essas coisas. E é mesmo uma sorte, porque uma bolsa de
estudos para uma pessoa que não para no lugar realmente não rola, mas eu o
interrompo. Tenho questões mais importantes e urgentes.
—Preciso de ajuda. Eu me meti em um grande enrosco.
—Que tipo de enrosco?
—O tipo com mortos.
—Claro.
Ele escuta enquanto lhe conto sobre Anna. Então ouço o som conhecido da escada de
rodinhas e seus grunhidos abafados enquanto ele sobe para alcançar um livro.
—Ela não é um fantasma comum, isso parece certo —diz ele.
—Eu sei. Algo a fez mais forte.
—O modo como ela morreu?
—Não sei. Ao que consta, ela foi assassinada como tantos outros. Garganta cortada.
Mas agora está assombrando sua velha casa, matando todos que entram lá, como uma
aranha de merda na teia.
—Olhe a língua—ele me repreende.
—Desculpe.
— Ela certamente não é apenas um espectro mutante — ele murmura, mais para si
mesmo. — E seu comportamento é muito controlado e deliberado para ser um
poltergeist. —Faz uma pausa, e ouço páginas sendo viradas. —Você está em Ontário, é
isso? Acasa não foi construída sobre algum cemitério nativo antigo?
—Acho que não.
—Humm.
Há mais alguns humms antes que eu sugira simplesmente queimar a casa e ver o que
acontece. —Eu não recomendaria isso —ele diz com firmeza. —Acasa pode ser a única coisa
que a restringe.
—Ou pode ser a fonte de sua força.
—Sim, de fato. Mas isso merece uma investigação.
—Que tipo de investigação? —Eu sei o que ele vai dizer. Vai me falar para deixar de
ser preguiçoso e ir à luta atrás de informações. Vai me dizer que meu pai nunca se
esquivou de fazer trabalho de campo. Vai resmungar sobre os jovens de hoje. Ah, se ele
soubesse...
—Você vai ter que encontrar um fornecedor de artes ocultas.
—Hã?
—É preciso fazer essa menina revelar seus segredos. Alguma coisa...aconteceu com
ela, algo que a afetou. Antes de poder exorcizar seu espírito da casa, você vai ter que
descobrir o que é.
Isso não é o que eu esperava. Ele quer que eu faça um feitiço. Eu não faço feitiços.
Não sou bruxo.
— Para que eu preciso de um fornecedor de artes ocultas? Minha mãe é uma. —
Baixo os olhos para meus braços imersos na água. Minha pele está começando a
formigar, mas os músculos se sentem renovados e posso ver, mesmo através da água
escurecida, que os hematomas estão clareando. Minha mãe é ótima em herbologia.
Gideon ri.
— Abençoada seja sua querida mãe, mas ela não é fornecedora de artes ocultas. É
uma bruxa talentosa, mas de magia branca, não se interessa pelo que tem de ser feito
aqui. Você não precisa de um círculo de flores e óleo de crisântemo. Precisa de pés de
galinha, um pentagrama de banimento, algum tipo de adivinhação em água ou espelho e
um círculo de pedras consagradas.
—Também preciso de uma bruxa.
— Depois de todos esses anos, imagino que você já tenha recursos para encontrar
pelo menos isso.
Faço uma careta, mas duas pessoas me vêm à mente. Thomas e Morfran Starling.
— Vou terminar de pesquisar isso, Theseus, e envio um e-mail a você em um ou
dois dias como ritual completo.
—Está certo, Gideon. Obrigado.
—Não há de quê. E, Theseus?
—Sim?
—Enquanto isso, vá à biblioteca e tente descobrir o que puder sobre o modo como
essa menina morreu. Saber é poder.
Eu sorrio.
— Trabalho de campo. Certo. — Desligo o telefone. Ele acha que sou um
instrumento tosco, nada além de mãos, lâmina e agilidade, mas a verdade é que estive
fazendo estudos e pesquisas desde antes de começar a usar o athame.
Depois que meu pai foi assassinado, surgiram muitas perguntas. O problema é que
ninguém parecia ter respostas. Ou, como eu desconfiava, ninguém queria me dar
respostas. Então saí procurando sozinho. Gideon e minha mãe fizeram nossas malas e
nos tiraram muito rápido da casa em que estávamos ficando, em Baton Rouge, mas não
antes de eu conseguir fazer uma visita ao sítio dilapidado onde meu pai encontrara seu fim.
Era uma casa pavorosa. Por mais furioso que eu estivesse, não queria entrar nela. Se
é possível um objeto inanimado olhar com raiva e rosnar, era exatamente isso o que a
casa fazia. Em minha cabeça de sete anos, eu a vi empurrar as trepadeiras para os lados.
Eu a vi afastar o musgo e mostrar os dentes. Imaginação é uma coisa maravilhosa, não é?
Minha mãe e Gideon tinham limpado o lugar dias antes, lançando runas e acendendo
velas, para ter certeza de que meu pai estava em paz, que os fantasmas tinham ido
embora. Mesmo assim, quando subi naquela varanda, comecei a chorar. Meu coração
me dizia que meu pai estava lá, que tinha se escondido deles para me esperar e que, a
qualquer minuto, abriria a porta com um grande sorriso morto. Seus olhos não
existiriam mais, e haveria enormes feridas em forma de luas crescentes nas laterais do
corpo e nos braços. Sei que parece bobo, mas acho que comecei a chorar ainda mais
quando abri a porta e ele não estava lá.
Respiro fundo e sinto cheiro de chá e alfazema. Isso me traz de volta ao meu corpo.
Lembrar aquele dia, de explorar aquela casa, faz o coração pulsar forte em meus ouvidos.
Do lado de dentro, encontrei sinais de luta e desviei o rosto. Eu queria respostas, mas
não queria imaginar meu pai sendo trucidado. Não queria pensar nele com medo. Passei
pelo corrimão quebrado e me encaminhei instintivamente para a lareira. Os aposentos
tinham cheiro de madeira velha, apodrecida. Havia também o cheiro mais fresco de
sangue. Não sei como eu sabia qual era o cheiro de sangue nem por que fui diretamente
para a lareira.
Não havia nada nela além de carvão e cinzas de décadas. E então eu vi. Só uma
ponta, preta como carvão, mas um pouco diferente. Mais lisa. Era bem perceptível e sinistra. Estendi a mão e a tirei das cinzas: uma fina cruz preta, de uns dez centímetros de
altura. Havia uma serpente preta enrolada nela, cuidadosamente tecida do que eu soube
na hora que era cabelo humano.
A certeza que senti quando segurei aquela cruz foi a mesma que me invadiu quando
peguei o punhal de meu pai, sete anos depois. Aquele foi o momento em que eu soube,
sem nenhuma dúvida. Foi quando tive consciência de que aquilo que fluía no sangue de
meu pai —qualquer que fosse a coisa mágica que lhe permitia rasgar carne morta e enviá-
la para fora de nosso mundo —corria em minhas veias também.
Quando mostrei a cruz a Gideon e a minha mãe e lhes contei o que eu havia feito,
eles ficaram em pânico. Eu esperava que me tranquilizassem, que me embalassem como
um bebê e me perguntassem se eu estava bem. Em vez disso, Gideon me agarrou pelos
ombros.
— Nunca mais volte lá! — gritou, me sacudindo com tanta força que meus dentes
bateram uns nos outros. Ele confiscou a cruz preta, e eu nunca mais a vi. Minha mãe
ficou parada, de longe, chorando. Eu me sentia apavorado; Gideon nunca tinha feito nada
assim comigo. Ele sempre fora como um avô, piscando enquanto me passava doces
escondido, coisas do gênero. Mas meu pai tinha acabado de ser morto, e eu estava
furioso. Perguntei a Gideon o que era aquela cruz.
Ele me fitou com um olhar frio, depois levantou a mão e me deu um tapa tão forte
no rosto que eu caí. Ouvi minha mãe gemer, mas ela não interferiu. Os dois saíram da
sala e me deixaram ali. Quando me chamaram para jantar, estavam sorridentes e
normais, como se nada tivesse acontecido.
Foi o suficiente para me deixar com medo de romper o silêncio. Nunca mais toquei
no assunto. O que não significa que o esqueci e, nos últimos dez anos, tratei de ler e
aprender onde quer que encontrasse oportunidade. A cruz preta era um talismã vodu.
Não descobri seu significado, ou por que era adornada com uma cobra feita de cabelo
humano. De acordo com a tradição, a cobra sagrada se alimenta de suas vítimas
comendo-as inteiras. Meu pai foi mordido em pedaços.
O problema dessa pesquisa é que não posso perguntar às fontes mais confiáveis que
tenho. Sou forçado a me esgueirar e falar em código, para que minha mãe e Gideon não
saibam de nada. Para dificultar ainda mais, o vodu é um lance muito desorganizado.
Parece que cada um o pratica de um modo diferente, por isso fazer uma análise é quase
impossível.
Penso em perguntar a Gideon de novo, depois que o trabalho com Anna tiver terminado. Sou mais velho agora, experiente. Não seria a mesma coisa dessa vez. E,
mesmo enquanto penso nisso, mergulho mais fundo em meu banho de chá. Porque
ainda me lembro da sensação da mão dele em meu rosto e da fúria cega em seus olhos, e
isso ainda me faz sentir como se tivesse sete anos.

Anna Vestida de SangueHistórias para pegar e não largar. Descubra agora