~ Continuação do capítulo anterior. Boa Leitura. ;)
Por que tinha de ter tantos números em química?
Essa era a pergunta constante toda vez que Cattalina abria um livro para estudar.
Sentada na biblioteca quase vazia da faculdade ela revisava os pontos principais do livro em mãos, marcava levemente com o lápis trechos que lhe seriam úteis e percorria todas as palavras com atenção, o trabalho era do Senhor Malonne, e o velho tinha alguma birra com a aluna, um grandississimo idiota que dava em cima de toda e qualquer garota padrão e que adorava ridicularizar qualquer mulher que não se enquadrava em seus conceitos de beleza. Não com ela, a primeira vez que o professor tentou fazer uma piada sobre o peso da aluna, foi colocado imediatamente em seu lugar, com uma sutilidade que ninguém imaginava que ela possuísse.
Sorriu ao lembrar da face vermelha e a expressão fechada do senhor ao ficar sem fala, Catt nunca se apegará à muitos padrões, a sua vida era complicada o bastante para que ela se atar à esse tipo de coisa, sabia que era olhada e as vezes até tratada diferente por causa do seu sobre peso, mas a sua auto confiança era demais para que desse atenção à gente preconceituosa e ignorante por escolha, nunca parará para pensar em como seu corpo seria para um homem? Atrante? Bem, Ed parecia gostar, a garota ficava envergonhada toda vez que sentia o olhar quente do detetive lhe percorrer o corpo, ele não era nada sutil, principalmente quando tudo o que Catt usava eram suas camisolas de tecido fino, e ela mentiria se dissesse que não passará a usar mais vezes esse tipo de vestimenta. Ed sempre fora respeitoso, entendendo seus limites e indo em seu tempo, mas era gostoso demais se sentir desejada daquele jeito, observar os lábios finos serem mordidos toda vez que um pedaço de pele de seu corpo aparecia, à fazia esquentar por inteira. Balançou a cabeça tentando voltar o foco ao livro em mãos, ja fazia um bom tempo que a garota se encontrava naquele mesmo lugar, decidirá esfriar a cabeça após a ligação inconveniente de Banks e nada melhor do que se enfiar nos livros, abriu o celular e verificando que a tarde ja estava acabando, decidiu se levantar, pegou o livro e entregou a moça que logo lhe devolveu com um pequeno cartão com a data de devolução, arrumou tudo na bolsa e seguiu calmamente pelos corredores do prédio, algumas pessoas andavam pelo lugar, carregando livros ou conversando uma com as outras, de longe viu Amber, sua parceira em Química Inorgânica e acenou timidamente, recebendo um sorriso de volta.
Saiu do prédio sentindo o sol de fim de tarde lhe aquecer a pele, uma brisa suave e gostosa soprava-lhe os cabelos e ela respirou fundo, queria chegar em casa logo, provavelmente o jantar estaria pronto e ela e Ed compartilhariam detalhes de seus dias enquanto dividiam alguma comida orgânica e saudável, pescou o telefone na bolsa discando logo em seguida o número ja conhecido do taxista e esperou pacientemente, cantava uma canção antiga na mente enquanto observava o movimento no Campus, pessoas sentadas na grama, grupos de amigos compartilhando lanches e risadas, casais abraçados sorrindo um pro outro e não pode evitar se sentir solitária, era uma grande merda não ter amigos de vez em quando; Olhou pra frente observando a fachada de um café, a barriga roncou e se lembrou que não comia nada desde o café da manhã, atravessou a rua e entrando no estabelecimento pediu um pingado e bolinhos para viagem, pagou agradecendo quando a garota lhe entregou a comida, abriu a porta enquanto abria a embalagem, concentrada no que fazia não percebeu um homem mais escondido nas sombras.
- Princesa?
Sentiu o sangue gelar, a brisa que antes lhe parecia suave e agradável agora lhe era cruel e gelada demais, aquela voz. Aquela maldita voz. Uma enxurrada de sentimentos invadiu seu corpo, saudade, amor, raiva, medo e tristeza. Tudo se misturando e criando um vendaval dentro da garota, quando se virou e observou a figura toda de preto sentiu o peito apertar forte. Era ele, seu pai, seu herói, o rosto mais envelhecido do que ela se lembrava, os cabelos um tanto grisalhos e um sorriso aberto em sua direção, sentiu as pernas tremerem e os olhos se encherem de água, Deus, ele estava ali! Ele estava bem!
Suas pernas criaram vida própria e só teve tempo de sentir o impacto do corpo contra o do maior, os braços protetores fecharam se à sua volta e ela inalou o cheiro do homem que sentia falta. Canela. Desde pequena ele cheirava à canela e café, assim como a vó, foi inevitável as lágrimas transbordarem e correrem pelo seu rosto, se apertou no abraço, um sentimento morno tomando o corpo, ele era sua família, seu sangue e agora estavam juntos mais uma vez.
- Por Dios! Como você está linda, minha princesa! - se afastou o suficiente para segurar o rosto delicado entre as mãos, limpando com os polegares a água salgada que insistia em molhar a face da mais nova - Não chore, mi niña! Eu estou aqui, está tudo bem!
Ela só pode assentir, estava tudo bem, seu pai estava ali.
- Como..? Como me achou? Quando, aquele bilhete...quando... - as palavras saiam desconexas, eram muitas perguntas pra um tempo tão curto
- Aqui não, niña. Me siga - a pegou pela mão à guiando por entre alguns carros, virou a esquina e um carro preto e discreto estava estacionado ali, abriu a porta para a garota entrar e e então deu a volta se juntando a ela dentro do carro.
- Dê-me isso aqui, princesa - pegou o pacote que ela ainda segurava, tirando os bolinhos e arrumandos no saco de papel para que não caíssem, cheirou o copo de plástico e torceu o nariz levemente - leite com café? Te deixei muito tempo com os Yankees, princesa - sorriu doce lhe devolvendo os alimentos - coma, temos tempo, coma tudo e me pergunte o que quiser.
Deus, eram tantas perguntas, respostas que ela queria faziam anos, mas achou mais importante se pegar ao presente, apesar de amar o pai ela sabia o que ele era e o que representava na vida de muita gente.
- Como...Como me achou? Como sabia que estaria aqui?
- Ora, você acha mesmo que não teria ninguém te protegendo enquanto eu não podia? - sorriu como se achasse a inocência da filha, algo fofo - tenho gente com você o tempo todo filha, não podia te deixar sozinha por ai. E quanto à hoje, eu não sabia que viria para faculdade e meu plano não era te encontrar tão cedo, mas eu precisava te ver e quando fui informado que você não estava voltando pra casa após a consulta, decidi que seria um bom momento para te ter comigo.
Sorriu levemente, mas Cattalina sentiu o medo se infiltrando passo à passo em seu coração, seguida? Esse tempo todo ela estava sendo seguida? Aquilo não era fofo, não era protetor, era maníaco no mínimo! Só conseguiu assentir enquanto se sentia paralizar pelo sentimento, respirou fundo tentando se controlar e deu uma mordida leve no bolinho de amora antes de voltar a falar.
- Você sabe onde estou morando? Com quem? - a agonia lhe percorreu o corpo quando viu o rosto do mais velho se fechar.
- Sim, com o policial, amigo de sua mãe, não achei que ele se importaria com a filha de alguém que ele excluiu da própria vida - deu de ombros e ela prendeu a respiração - mas melhor ele do que qualquer um que pudesse se aproveitar de sua inocência.
Soltou o ar ruidosamente. A idéia fixa que Ed estava em perigo, tinha de fazer algo.
- Ele é muito bom para mim, pai.
- Pai? - riu baixo com os olhos brilhando - me lembro de quando ainda me chamava de papa, você cresceu tanto mi hija e eu nem pude ver a linda mulher que você se tornou - sua face se fechou em um semblante doido e a menina sentiu o coração aquecer. Tudo bem, era um pouco assustador todo esse comportamento, mas ele só queria seu bem, não é? Eram família e família fazia de tudo para proteger os seus. Engoliu todos os receios e sorriu, afastando os bolinhos e o café do colo e os depositando no chão do carro.
- Esta tudo bem pai, o senhor está aqui agora - viu o rosto do mais velho suavizar - tenho mais perguntas. Como fugiu? E por que só agora?
- Meu povo precisa de mim, filha. - assumiu a postura altiva que ela se lembrava de ver toda vez que ele discursava para seus homens - precisam de alguém para lidera-los, alguém que aponte o caminho, já estava na hora de reerguer nosso reino, tem gente tentando tomar nosso lugar, povos indignos! - uma careta de desprezo se formou no seu rosto quando ele prosseguiu - passei tempo demais longe, esta na hora de colocar as coisas em seu lugar - sorriu abrindo os braços para filha e à abraçando desajeitado, apoiou o queixo no topo da cabeça de Catt antes de continuar - pra isso eu preciso de você Cattalina, esta na hora de voltar para os seus.
Sentiu o corpo travar, todo o ar pareceu ficar preso nos pulmões e se afastou do corpo do pai.
- E-eu não posso - a voz saiu baixa, quase um sussurro, mas o foi o suficiente pro rosto de González se contorcer em desagrado.
- Como não pode?! Pode e vai, eles precisam de você Catt, você será a imagem da mulher mexicana na comunidade, essa cidade inteira ira conhecer seu nome, toda garotinha de pele parda irá se inspirar em você filha, esta na hora de voltar pra casa! - tinha se esquecido como ele era autoritário e persuasivo em algumas situações, mas não podia, não quando se afastar de Ed estava em jogo, seria uma ingratidão sem tamanho, e algo dentro de si se revoltava apenas com a idéia de não estar ao lado do gigante.
- Eu nao posso pai, não quero essa vida para mim, quero apenas uma vida normal...
- Uma vida normal rejeitando os seus?! - a voz sairá mais alta, um pingo de cólera escapando em sua entoação - é isso o que quer Cattalina? Fingir a vida inteira que é um deles? Uma casa com um jardim florido e cerca branca?! Enquanto os seus morrem todos os dias nas ruas?! - ela sentiu algo dentro de si se quebrar - não foi para isso que te criei, não foi para se acovardar, minha filha - a voz ficou mais suave antes dele continuar - eu entendo, é mais fácil longe do nosso mundo, mas você é necessária, mi niña, precisa vir comigo.
Pensou em tudo, nesses meses ao lado de Jackson, na confiança que compartilhavam e voltou mais atrás, num passado onde tudo o que tinha era à si mesma e uma dor escondida por baixo da superfície fria.
- Eu não posso, não...Não dá - negou enfativamente tentando controlar as lágrimas que tentavam transbordar.
- Por que? - a voz de González saiu baixa, o rosto do homem mostrando desentendimento, a testa franzida quando uma idéia pareceu lhe atingir - É por causa do detetive, Catt? Se envolveu com aquele homem?!
- Eu..eu, não...pai, eu, nã-
- Não importa! - o tom era mais alto que o comum - você acha que isso vai durar pra sempre Catt? Que ele realmente vai preferir você do que uma igual a ele? Homens como ele nunca irão gostar verdadeiramente de mulheres como vc, nosso povo não pode se misturar, aconteceu uma vez, sua mãe Catt, sua mãe foi meu pior erro! - o tom amargo fez a garota se encolher no banco - eles nos veem como fetiche, é isso o que quer ser, Catalinna? Um fetiche? Um desejo de um homem qualquer que assim que o satisfazer te jogará fora?!
Foi como um tiro no meio do peito, de sentiu suja e indigna, ela precisava sair dali, tinha de se afastar.
- Por mais que tente filha - colocou um dos cabelos para trás da orelha da menina, fazendo um carinho delicado em sua bochecha - o seu lugar é com os seus. Comigo. Família.
Abriu a porta do carro se agarrando em sua bolsa, se sentia perdida quando atravessou a rua de volta ao campus, olhou para trás à tempo de ver o carro preto saindo do beco e passando devagar pela rua.
À passos rápidos se moveu até entrar no prédio, ela precisava pensar, tudo aquilo, era informação demais! Correu ao primeiro banheiro feminino do prédio e quando observou seu reflexo no espelho se permitiu desabar, o choro saia doído do peito da menina, gritos baixos escapavam por entre os lábios e as lágrimas molhavam o rosto sem controle, apoiou os cotovelos na pia e deixou o rosto se enconder entre as mãos. Por que tudo tinha sempre de ser tão complicado em sua vida?!
- Cattalina - ouviu a voz de Amber, mas continuou em seu próprio lamento - Cattalina, o que houve? Você ta bem? Ah, lógico que não! Vem cá! - envolveu os braços magros em volta do corpo de Catt e a menina pela primeira vez na vida, se permitiu chorar nos ombros de alguém, os soluços saiam rasgados, cada palavra que sairá da boca do mais velho se infiltrava lentamente em seu coração e seu peito parecia sangrar. Não podia acreditar nele, ele estava errado! Tinha de estar errado!
Envolveu os braços no corpo da esguia Amber e se deixou chorar, chorar por ela, por Ed, pelo pai, pela morte da mãe, chorou por ter tido uma vida de merda, uma infância sofrida e por tudo que perderá por ser quem era, chorou por não querer estar com os "seus", chorou pelo desapontamento que dera para o pai e por não saber no que confiar, se desmanchou toda e sentiu a colega sussurrar palavras de conforto em seu ouvido enquanto à embalava lentamente, se afastou após os soluços diminuírem e a vista ja não estar tão embaçada, passou as mãos sob os olhos, a vergonha tomando lugar e enxungou as lágrimas que ainda marcavam o rosto.
- Tudo bem chorar de vez em quando, Cattalina - a voz doce de Amber a fez erguer os olhos pra menina palida de cabelos amendoados e olhos verdes faiscantes - eu mesma choro uma vez por semana se puder, é saudável pra tirar todo o peso dos ombros, nada que boas lágrimas não resolvam - sorriu doce e Catt sentiu a vergonha diminuir, ela odiava chorar, era demonstrar uma fraqueza que não condizia com sua pessoa, mas a fala da garota à acalmou o suficiente para que não sentisse raiva de si mesma - quer me dizer o que houve?
- Agradeço a ajuda Amber, mas não posso te falar nada - a voz saiu rouca e consequentemente as palavras tomaram uma entoação mais rude do que ela esperava, não queria ser grosseira com a garota, só queria que ela não fizesse perguntas.
- Tudo bem, seu direito - sorriu tranquila antes de continuar - precisa de mais tempo por aqui?
- Não, só vou lavar o rosto - andando até a pia encheu as mãos em formato de concha e jogou a água gelada direto na face, a coloração continuava avermelhada mas o aspecto de quem chorará muito, diminuirá um tanto, enxugou-se em um amontoado de papel antes de se virar para colega - eu preciso ir agora.
- Vamos juntas, dividimos um táxi, pode ser? - não estava segura em deixar Catt sozinha, ela mais que ninguém, sabia que pessoas desesperadas e aflitas podiam ter decisões ruins.
- Tudo bem - caminhou até a porta pegando a bolsa em cima da pia, se virou quando chegou na porta - Amber, por favor, não conte para ninguém o que viu hoje.
- Tá tudo bem Catt - pronunciou pela primeira vez o apelido da outra e sorriu com o intuito de acalma-la - não precisa se preocupar e se precisar, pode me chamar, tem meu número, certo?
Cattalina assentiu e saiu do banheiro sendo acompanhada de perto da maior que parecia a todo momento pronta para agarra-la em alguma crise de choro. Merda! Odiava parecer frágil.
Andaram em silêncio pelos corredores até alcançarem a fachada do prédio.
- Ora, quem temos aqui? Se não é a mais bela...Catt? O que houve? O que aconteceu? - a voz de Todd a fez tirar os olhos dos degraus que descia, o garoto a encarava com a feição preocupada, na certa notará o rosto mais avermelhado que o normal e a expressão de morta, era tudo o que precisava agora!
- Todd, hoje não. - se sentia cansada até para discutir, continuou o percurso com uma Amber observadora ao seu lado, passou pelo rapaz que a pegou pelo braço sutilmente.
- Catt, não estou brincando? Alguém te fez algum mal? O que houve? - observou um interesse genuíno no rosto do rapaz, deu de ombros antes de responder
- Problemas pessoais, não precisa se preocupar.
- Como vai para casa? Precisa de carona?- se ofereceu solicito.
- Eu estou com ela playboy, vamos pegar um táxi, você pode solta-la agora? - o tom que Amber usará era um propositadamente altivo, só então Banks deu atenção à colega de Catt.
- Ela não precisa de táxi, posso leva-la pra casa, mais fácil do que achar um taxista disponível por aqui.
- Ah é? Leva-la para casa para se aproveitar do estado de fragilidade dela pelo caminho? Eu acho que não - sorriu sarcástica quando empurrou o garoto longe da colega - sabemos nos virar sozinhas, obrigada!
- Mas é muito intrometida, nunca faria isso com Cattalina! Como pode achar que...?
- Chega, eu estou aqui sabe? Parem com essa bobagem vocês dois! - respirou fundo pensando nas opções, ela só queria chegar em casa o mais rápido possível, tomar um banho e dormir para esquecer esse dia desastroso - nós vamos aceitar a carona, só se prometer levar Amber em casa.
Banks olhou para a garota magra que o encarava com um semblante desafiador e assentiu contrariado.
- Ah, e vai me deixar em casa depois de deixar Catt em casa, não confio em você playboy! - enroscou o braço no de Catt e a puxou andando em direção ao estacionamento do Campus, deixando um Todd raivoso mais para trás - nada de dar trela pra esse idiota, está bem?
Não pode deixar de rir da antipatia aparente da colega pelo garoto.
- Nem me passou pela cabeça, Amber.
- Hey! Meu carro é aquele - apontou um volvo preto estacionado numa vaga distante e todos se dirigiram à ele. Agora só mais alguns minutos e ela poderia enfim, ter a paz que sua cabeça pedia tão suplicante.
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Destinos Cruzados
RomanceATENÇÃO! ESTA ESTÓRIA CONTÉM CONTEÚDO ADULTO! Ed Jackson tinha uma vida sossegada e sem grandes emoções além do trabalho como detetive da Homicídios da cidade de Nova York, aos 38 anos leva uma vida solitária e isenta de paixões, já cansado de decep...
