IV: Socorro

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"Quando eu era jovem, muito mais jovem que hoje
Eu nunca precisei de ninguém em nenhum sentido
E agora estes dias se foram, eu não sou uma pessoa assim tão segura."
(Help, de The Beatles)

Mabel andava pelas ruas de Londres, repassando o endereço do bar onde iria em sua cabeça. Ela esperava que logo ela estivesse no bar, ouvindo um bom cover dos Beatles, vendo a sua mente se organizar.
    O salto fino de sua bota batiam na calçada, enquanto atravessava a rua iluminada da cidade. Várias pessoas andando, mal notando Mabel. Mesmo assim, ela se achava linda naquele momento, com sua calça jeans e uma camiseta dos Beatles preta. Mabel ajeita um dos lados do cabelo ruivo para detrás da orelha, enquanto alguns fios do outro lado caíam em frente ao óculos preto que Mabel não consegue tirar, por ter um grau muito alto de miopia.
    Ela sai analisando todos bares pelos quais passava, na esperança de ser o que procurava, mas só encontrou-o alguns quarteirões depois. Em compensação, Mabel conseguiu descobrir qual era o bar no início da rua, ao ouvir um barulho de guitarra e bateria, além de uma voz que, por si só, já tinha uma presença forte.
     Mabel sorri, ao ver que seria um show bom, e que valeria a pena, mesmo que não conseguisse organizar seus pensamentos para descobrir a peça que faltava no seu quebra-cabeça.
    Ao som de "Help", Mabel caminha pela rua lentamente, sendo embrulhada por aquela voz marcante. Ela queria andar de modo realmente lento, com medo de se decepcionar ao ver o rosto do cantor. Essa era uma das peculiares de Mabel: ela ouvia as músicas sem ver o rosto do cantor, ou da banda; só via depois de ouvir. Ela realmente achava que isso poderia afetar seu julgamento, e que deveria gostar da música apenas pelo som e pelo talento, e não pelas coisas externas que acompanhavam.
    Por isso, Mabel só entrou quando soube definitivamente que nada que aquele cantor tivesse faria com que ela parasse de admirar aquela voz fantástica. Você ouvia e sabia, estava consciente de que não eram os Beatles, ou algum membro da banda, cantando, mas, ainda assim, continuava sendo uma experiência maravilhosa.
    Apenas por causa da voz que Mabel ouviu do lado de fora, a primeira coisa que fez ao entrar no bar foi olhar em direção ao palco, à procura do cantor.

Mabel tinha, sinceramente, achado que nada a faria ficar mais impressionada do que a voz que tinha ouvido do lado de fora do bar.
A vida mostrou que ela estava errada.
Tinha, sim, uma coisa mais impressionante do que aquela voz.
O dono dela.
Mabel fica paralisada encarando o homem de olhos fechados de frente ao microfone, segurando uma guitarra. Ela não tinha dúvidas de que era ele quem estava cantando na hora em que ela ouviu, mas, dentro dela, alguma coisa a fez duvidar daquilo. Ele era bonito demais para ter uma voz daquela. Ele era bonito demais para ter qualquer coisa boa além da beleza. Ele era tão bonito, que para ser justo com o resto da humanidade ele tinha que ser uma pessoa cruel, que partia o coração de virgens inocentes que cantam no coral da igreja. E, ainda assim, Mabel ainda achava que teria que pensar se aquilo era ou não uma injustiça de Deus.
Os cabelos bagunçados dele, o jeito de batucar na perna com os dedos, no exato ritmo da música que cantava, o jeito como ele cantava as músicas, como se as falasse em uma peça teatral, e tivesse cada palavra sob controle. Como se tivesse controle sobre a própria música, e pudesse fazer qualquer coisa com ela.
E Mabel desconfiava que, com aquela voz, ele pudesse, de fato, fazer qualquer coisa com a música.
Até aquele momento, o cantor estava de olhos fechados, e Mabel, fanática por aquele homem de pé no palco. Mas quando ele abre os olhos... Mabel fica, de fato, viciada. Ela não consegue parar de encarar aqueles olhos verdes olhando para ela, que faziam com que ela quisesse ficar a vida inteira ali naquela posição.
Mabel só sai do seu transe quando um dos garçons chega até ela e pergunta se ela deseja sentar. Mabel apenas concorda com a cabeça, incapaz de falar qualquer coisa. Ela segue o garçom, sem tirar os olhos por um segundo do cantor. Este ri com o canto dos lábios na parte apenas instrumental da música e dá uma piscadela para Mabel, o que faz com que ela queira cavar um buraco no chão e se enfiar lá dentro.
    - A senhorita quer alguma coisa? - pergunta o garçom. Eu quero o cantor que está ali no palco, pensa Mabel, logo de surpreendendo por pensar algo assim, e corando.
    - Hum... apenas água, por favor.
    Com a sua visão periférica, Mabel sabe que o garçom assentiu com a cabeça e foi embora, mas ela só conseguia pensar no cantor ali, naquele palco, e praticamente só conseguia ouvir a voz dele, enquanto todo o resto eram apenas ecos.
    E é quando uma música começa a tocar.
    A sua música.

Hey, JudeOnde histórias criam vida. Descubra agora