V: Eu Acabei de Ver Um Rosto

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"Eu devo ter visto isso de outro modo
E eu não tinha percebido, mas é inevitável
Eu sonharei com ela esta noite
Apaixonando, sim, estou me apaixonando"
(I've Just Seen A Face, de The Beatles)

Mabel olhava para o palco, pasma, enquanto o cantor no palco olhava para ela. Mabel ficava olhando para trás algumas vezes, procurando por outra pessoa atrás dela, mas... ele estava, de fato, cantando I've Just Seen A Face, encarando-a nos olhos.
    Ele estava cantando para ela!
    E, ele não só estava cantando para ela, mas estava cantando Beatles para ela!
    Mabel estava olhando para o palco, tentando gravar todos os detalhes, com medo de que não fosse real. Em alguns momentos, ela até começa a pensar no porquê dela estar ali, mas os pensamentos dela voltam para o cantor ali naquele palco, como se ele fosse a resposta para todas as perguntas.
    Mabel mal percebe que está apertando o copo d'água em sua mão com tanta força que seus dedos já estão brancos.
    Aquilo era melhor que qualquer declaração de amor e, incrivelmente, parecia mais sensível e real que qualquer "eu te amo" que Diego disse para ela.
    E foi aí que Mabel desvia o olhar do palco.
    Diego. A promessa que Mabel tinha feito. Não se apaixonar.
    Ela olha para o palco de novo, e percebe que, se a noite continuasse naquele ritmo, ela não conseguiria cumprir a promessa. O olhar penetrante do cantor, aquela voz fascinante envolvendo-a, o cabelo bagunçado dele caindo no olho, enquanto ele não ligava para isso, pois seu olhar estava fixo em Mabel.
    As mesas que estavam entre os dois não importavam. Todo o resto das pessoas e dos objetos ao redor deles, pelo menos para Mabel, eram apenas borrões, enquanto ele estava ali, brilhando. Todas as conversas paralelas à música, o bater de copos nas mesas e o barulho de copos... tudo eram apenas ecos, enquanto a voz dele prevalecia na mente de Mabel, fazendo com que ele fosse tudo que ela fosse capaz de pensar. Seu corpo tinha perdido a força, e, por mais que soubesse que o mais lógico naquele momento seria sair dali, para que conseguisse cumprir sua promessa, Mabel sabia que não conseguiria ficar de pé se colocasse os dois pés no chão, se levantasse daquela cadeira.
    E a música não acabava, a voz dele continuava ecoando pela cabeça de Mabel, paralisando-a como se fosse uma droga. E, talvez, ele até fosse uma. Lindo daquele jeito, só podia adoecer, só podia ser algum pecado. Mas Mabel não conseguia impedir a si mesma de pensar que, se ele fosse um pecado, ela seria uma herege.
    E é quando a última nota da música, e Mabel acha que, finalmente, poderá ir embora e tentar esquecer que aquela noite não aconteceu. Ela até se apoia na mesa para tentar levantar, mas desfaz o movimento quando vê o cantor tirando a guitarra e descendo do palco, olhando na direção dela.
    Não. As pernas dela ficam sem força novamente. Não, não. Mabel agora está dividida. Metade dela implora para que ele vá embora, para que ela consiga cumprir sua promessa de não se apaixonar, ou, ao menos, implora para o universo fazer com que ele seja um babaca. Outra parte dela diz que ele era tudo que faltava para que o sonho de Mabel estivesse completo, e que as paredes em volta do coração dela já estavam ali há tempo demais, e que deveriam ser derrubadas.
    Quando ele chega na frente de Mabel, ela ainda não decidiu que parte dela mesma iria seguir.
    - Oi... - ele diz, colocando uma mão na nuca. - Hum... Gostou do show?
    Mabel olha para ele e sorri.
    - São os Beatles! Não tem como ser ruim! - é o que Mabel resolve responder.
    - Sério? - os olhos dele brilham. - Tem certeza que eu não destrui a música?
    Os olhos de Mabel se arregalam, mesmo que ela não quisesse fazer isso.
    - Claro que não! Você foi fantástico! Eu soube de cara que não eram os Beatles cantando, mas... não foi de uma maneira ruim, sabe? Não foi nem um porcento pior que a versão original. - os olhos dele ficaram arregalados. - Eu ouvi do lado de fora, antes de entrar. Sua voz é maravilhosa.
    Mabel fica surpresa por ter dito tantas coisas. Ela achava que estaria paralisada, com base nos últimos minutos.
    - Humm... - ele coloca a mão na nuca de novo. - Aceita tomar um drinque comigo?
    Mabel sorri.
    - Eu não costumo tomar um drinque com caras nome eu desconheço, ao contrário de você.
    - Meu nome é Jack. Jack Goldstein. - ele para um segundo e ri um pouco. - E, a propósito, eu não tenho o hábito de sair por aí convidando caras que eu não sei o nome para tomar um drinque, só para constar. Nem garotas.
Mabel gargalha ao ouvir a resposta do cantor, cujo nome é Jack, ela tinha acabado de descobrir.
- Eu aceito tomar um drinque com você então, Jack. E meu nome é Mabel. Mabel Rodrigues.
    Jack olha para Mabel, levantando uma sobrancelha.
    - Mabel Rodrigues? Então você não é inglesa?
    Mabel sorri.
    - Me pegou! Sou brasileira.
Jack sorri.
- Nunca conheci nenhuma brasileira. - ele faz uma pausa, e parece até que não iria falar mais nada, mas completa. - Na verdade, eu não conheço tanta gente assim.
- Eu também não. - diz Mabel. - Na verdade, você é o primeiro inglês que eu realmente conheço, com quem eu já conversei. - Jack olha para ela, com as sobrancelhas franzidas. - Eu cheguei hoje em Londres.
Jack ergue as sobrancelhas, e depois sorri.
- Seja bem-vinda, então.
- Beatles num bar... Você não é ruim em presentes de boas-vindas! - Tanto Mabel quanto Jack sorriem dessa vez.
- Imagino que... hã... você tenha telefone. - Jack coloca as mãos na nuca novamente depois de falar isso, e olha para o chão, com as bochechas coradas. Mabel se controla muito para não sorrir, de tão fofo que ele é.
- Tenho, sim... - Jack não responde, e, apesar dos gritos de "perigo" que sua mente dá para que Mabel não o faça, ela incentiva Jack. - Você quer que eu... te passe o meu número?
Jack, apesar de ainda estar com as bochechas coradas, levanta o rosto e encara Mabel, com os olhos brilhantes.
- Eu... Eu adoraria.
Mabel pega o aparelho celular que Jack estende na direção dela e digita ali seu número.
- Pronto, aqui.
- Eu reclamei desse celular mais cedo, agora... bem, acabou que ele é meu bem mais preciso.
Mabel sorri, e, em outro momento de "fraqueza", tira seu próprio do celular do bolso e estende para Jack. Ele a encara com os olhos arregalados.
- Bem... Cadastre o seu número no meu celular também!
Jack, depois de um momento que parecia um transe, pegou o aparelho celular de Mabel e começou a digitar ali.
- Obrigada. - ela diz, sorrindo, quando Jack termina de digitar o número e entrega o aparelho. Mabel desbloqueia a tela e olha a hora. - Ah, céus! Acho que já está tarde... - Mabel olha para Jack, com uma expressão de desapontamento. - Eu tenho um curso amanhã de manhã... tenho que ir para casa dormir, já está tarde... - Mabel suspira. - Me escreva, okay?
Jack assente com a cabeça.
- Prometo escrever. - ele sorri para Mabel. - Obrigado pela conversa. Foi pouca, mas... Bem, eu sou melhor em me expressar cantando, e acho que já me expressei bastante lá no palco essa noite.
Depois disso, Mabel não conseguiu parar de sorrir, e ficou com as bochechas vermelhas durante todo o caminho de casa.

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