Jardim e chá de maçã

3.9K 141 13
                                        

Já estávamos em dezembro, a uma semana das férias de inverno, e até aqui eu havia feito exatamente como Nate havia dito. Mas, acredite, descobrir um segredo importante é ainda mais difícil quando você é a novata.

Durante esse tempo, eu havia me tornado um pouco mais íntima das garotas, apesar de ainda não ser um membro oficial do grupo, Leyla disse que estavam esperando pela oportunidade certa para me testar uma última vez. Que vaca.

Além disso, tinha o meu vizinho que me levava pra escola às vezes com o volume do rádio no máximo (descobrimos que temos o mesmo gosto musical) e a minha avó, que ultimamente recebia uma quantia mensal da minha tia para ajudar com as despesas. Para mim ela não fazia mais do que sua obrigação de filha.

E por fim, tinha o Nate. O que eu posso dizer sobre o Nate? Nos tornamos mais próximos, diria que até amigos, embora ele ainda fosse conhecido como um lobo solitário. Não preciso dizer que nossa "amizade" era segredo absoluto. As meninas nunca poderiam saber disso. Por isso,  nós só nos víamos depois das aulas para falar sobre as garotas,  estudar e fazer nada. Acredite em mim, éramos muito bons nisso.

- Então a sua tia mora lá com o marido e você fica aqui com a sua avó?- Nate pergunta, os cabelos caindo sobre os olhos.

Estávamos deitados na grama  úmida do jardim da minha casa havia algumas horas, nunca cansados de observar o céu. Era incrível como podíamos conversar durante tanto tempo sobre tanta coisa. Eu me sentia diferente com Nate. Não ficava entimidada ou apreensiva. Sentia que podia contar qualquer coisa a ele.

- Sim. Nem me lembro direito dos rostos deles, não os vejo há anos.

- Que estranho.

- O que é estranho?

- Sua família ser tão afastada. Geralmente, famílias normais são próximas e grandes.

- A sua é?- ergui uma sobrancelha enquanto virei a cabeça lentamente, flagrando sua mudança de expressão. Ele não gostava de falar sobre a família.

- Nem chega perto.

Depois disso, o silêncio reinou por uns três minutos, que me pareceram bem mais longos, até minha avó nos chamar para tomar um chá de maçã. Já eram quase 21:00 quando Nate foi para casa.

- Esse seu amigo é bem bonitinho, Lorie.- minha avó disse, com um sorrisinho no rosto, enquanto lavávamos a louça.

- Você acha?- perguntei despreocupada.

- Você não?

Parei para pensar. Eu achava Nate bonito? Quando o vi pela primeira, concordei imediatamente, mas depois de um tempo não havia mais pensado nisso.
Devo admitir que ainda o achava atraente, com seus olhos tão profundos e expressivos, mas isso não importava.

- Por que a pergunta? Somos só amigos.- eu disse rápido.

- Tudo bem, não precisa ficar na defensiva.- ela levantou a mãos com espuma em forma de rendição enquanto ria.- Eu só perguntei por perguntar.

- Ora...- já sentia minhas bochechas ardendo.- Eu acho.

》...《

- Então, David, que músicas vamos ouvir hoje?- disse ao entrar no carro

- Que tal você conhecer um pouco dos anos 80?

Ele ligou o rádio e uma música  alta, que eu já devia ter ouvido antes, preencheu o carro.

- Joan Jett, a rainha.

- Gostei dela.

- Também gostei.- ele me encarava enquanto dizia a frase. Examinando meu rosto e enrolando os dedos nos cachos do meu cabelo.

- Vamos?- por que eu estava desconfortável? era só o David.

- Imediatamente- ele sorriu.

Cheguei na escola e dei de cara com as meninas. Ótimo jeito de começar o dia de aula...

- Lorie, você não vai acreditar!- começou Violet.- Temos um professor substituto.

- Assim... de repente?

- Pois é, parece que o Sr. Thomas sofreu um acidente de carro e vai ficar um tempo sem dar aula.

- E o nosso novo professor é bonitinho...- comentou Rebecca sorrindo e revirando os olhos.

- Jura?!- perguntei, até porque ninguém é de ferro.

- Já vai adicionar outro professor pra sua listinha, Lorie?- Leyla perguntou. Fala sério, essa garota não perde a oportunidade de me alfinetar.

- Na verdade, eu nem tinha pensado disso. Mas, obrigada por me lembrar, talvez eu adicione.- sorri com a minha resposta abusada, mas muito merecida.

- Que seja.- ela respondeu ao perceber os olhares das meninas sobre nós.- Vamos logo pra sala.

Entramos na sala e vimos o novo professor.
Sim, ele era bonito.
Sim, ele olhou de volta.
E sim, eu tropecei e caí no chão.

- Você tá bem?- ele veio na minha direção e me estendeu a mão.

- Estou. Desculpa.- eu não me lembro de ter ficado tão vermelha.

- Não se desculpe.- ele sorriu.- sente-se.

Eu passei pelas cadeiras ignorando as risadinhas da turma pela minha queda histórica e me sentei no lugar de sempre, ao lado do Nate, de onde podia sentir o olhar fuzilante de Leyla, provavelmente sobre como eu "adoro" chamar atenção.

De qualquer forma, eu não a olhei de volta a aula inteira. Havia coisas mais interessantes para se ver.
Por um tempo, prestei atenção no novo professor, Sr. Clark, e em sua caligrafia invejável, sua camisa social dobrada até os cotovelos e em sua barba por fazer. Droga, ela era mesmo bonito.

Isso me lembrava da conversa com a minha avó na noite anterior. Por que eu tinha tanta facilidade de admitir que outras pessoas eram bonitas, mas com Nate, minha opinião tinha que ser um segredo?

Enquanto o observava discretamente, eu me perguntava se ele reagiria mal ao saber que o acho bonito. Será que ele pensaria que eu gosto dele? Que quero ser mais do que amiga? Será que eu quero? Ele provavelmente ia pensar que eu estou confundindo as coisas e se afastaria de mim. Ele é antisocial e fechado demais para gostar de alguém... como eu.
E então eu perderia tudo; as conversas, os planos, os segredos, as visitas ao jardim, os chás de maçã...

Ele tirou o cabelo da frente dos olhos e fechou o caderno, assim como toda a turma quando o sinal tocou, e eu finalmente acordei do meu transe.

/ Como vocês podem ver, eu tive um probleminha pq publiquei sem querer algumas vezes kkkk
Feliz carnaval para vocês, meus amores e sim, esse é o Nate ❤

A NinfetaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora