Capítulo 1

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O som do Jazz inundava o camarim, a platéia parecia estar animada hoje, o que era bom. Alice sentiu toda a excitação que ela sempre sentia antes de ir para o palco. Já havia alguns meses que ela estava performando mas a excitação continuava ali. Se olhou no espelho para conferir como estava sua maquiagem, estar bonita era uma parte importante do que ela fazia. Estar bonita e estar elegante. O burlesco, como ela acreditava, exige um toque de elegância, uma sutileza e uma finesse ao executar os movimentos, que fazem com que a apresentação se torne sensual, sem apelar para a vulgaridade. Era isso o que ela fazia.

Ela viaja por esse tipo de pensamento quando um barulho ao seu lado a traz de volta para a realidade. Marina já tinha se apresentado, o que significava que ela era a próxima.

-A plateia está maravilhosa hoje!

-Eles estão muito animados?

-Eu nunca os vi tão empolgados assim.

Aquilo era bom. Apesar de todas as pessoas que foram contra sua carreira, Alice adorava se apresentar. Ela se sentia completa, se sentia bela, se sentia confiante quando ela estava no palco. Era uma forma perfeita de expressar sua sensualidade e toda a sua criatividade. Naquele dia ela estava especialmente nervosa porque ia apresentar um novo show. Eles podiam amar assistir uma coisa diferente, ou ela podia errar algum passo e performar um dos maiores fracassos de sua carreira. 

-Ele está aí? Ela perguntou para Marina.

-Aham, está sentado perto do bar. Usando um terno e um chapéu azul.

Alice perguntava de um rapaz em especial, que havia se tornado um grande fã. Ele estava em quase todos os seus shows, e sempre que ia mandava flores para ela ao final. No começo ela foi relutante, já que já tinha se habituado as investidas dos homens, mas aquele rapaz era diferente. Ele não parecia  olhar para ela simplesmente como mais uma conquista, como mais um caso. Aquilo tinha prendido-a a ele. Sem contar que ele era bonito, era difícil resistir a tudo aquilo. Por isso, naquela noite, ela decidiu que  não resistiria. Àquela altura ela já conhecia o modus operandi do rapaz. Depois do show ele iria aparecer com um bouquet de flores, geralmente rosas, que ele descobriu que eram as suas preferidas. Depois de entregar o mimo ele iria começar a fumar um charuto e a elogiá-la pelo show. Eles ficariam nesse assunto por alguns minutos, até que ele a convidaria para tomar um café com ele no dia seguinte, o que ela recusaria. O que acontece, é que dessa vez ela não planejava recusar. 

A música já estava ficando mais lenta, o que significava que o número da banda estava acabando e que ela seria a próxima. Achou melhor se levantar logo e se dirigir para o palco. Quando a música acabou o dono do clube anunciou o número dela. Ela já estava ansiosa. Uma corrente de animação corria seu corpo, como uma descarga elétrica. A banda começou a tocar. A música era lenta, sexy. Ela entrou no palco e viu a multidão que a esperava. Eles realmente estavam animados. Assim que ela entrou no palco, já começaram as palmas. Ela sorriu e mandou beijos no ar. Flertar com a platéia era importante, mantinha as fantasias deles vivas. Ela então começou a dançar conforme a música. Começou a tirar a primeira luva, lentamente. A platéia parecia animada. Puxou os dedos da luva um por um, e depois tirou a peça de roupa. Jogou a luva para a plateia, que gritava excitada. A segunda luva já saiu com menos cerimônia, o que não impediu que o público continuasse empolgado.  Agora ela tinha que encantar eles. Continuar sorrindo, sempre instigando, sempre dando a entender algo a mais do que realmente era.  Enquanto ela girava pelo palco procurou por Heitor perto do bar mas ele não estava lá.  A única pessoa que estava no bar era um homem de meia idade, bem apessoado para a idade que tinha, vestindo um elegante terno preto. Ele acenou para Alice e ela retribuiu com um sorriso. Ele sorriu de volta e tragou novamente o seu charuto. Alice já não prestava mais atenção nele. Tinha chegado a hora de tirar o vestido, um dos momentos mais esperados do show. Lentamente ela puxou os zíperes, enquanto a plateia ficava cada vez mais ligada ao que ela estava fazendo. Ela quase podia sentir no ar a excitação e a curiosidade do público, e aquilo era o que ela mais amava no que ela fazia. Ela segurou o vestido pela parte de cima e o tirou de uma vez, para o êxtase da plateia, revelando o corset e a cinta-liga que usava, suspendendo suas meias.  Aquela era uma das partes que mais gostava no show. Antes de começar a tirar os sapatos ela deu mais uma volta pelo palco, para ganhar tempo. Tirou lentamente os sapatos, de forma elegante. Agora era a hora de tirar a meia. Colocou o pé num suporte que havia no palco, deixando sua perna exposta, numa posição que todos podiam ver. Lentamente ela tirou a meia, os olhos atentos ao seu redor. Depois tirou a outra meia e a jogou na plateia. Mais uma volta pelo palco e começou a desabotoar o corset, a plateia atenta. Agora era o momento mais esperado: era hora de tirar a cinta-liga. Pegou um leque de penas e tampou o corpo com ele. Andou até a ponta do palco, bem próxima da platéia. Por detrás do leque ela tirou a cinta e mostrou para o público, que gritava o seu nome. Girou rapidamente e revelou o traseiro, todos os homens na plateia assoviando e aplaudindo. Se virou novamente para frente, era hora de revelar a parte frontal do seu corpo, mostrando o tapa sexo. Andou um pouco pelo palco para criar um clima de mistério e curiosidade e então tirou o leque da sua frente, revelando o corpo quase nu. A platéia foi ao delírio. Ela sorriu, fez um reverência e saiu do palco, deixando o público implorando por mais.  Assim que saiu do palco deu de cara com sua amiga, que parecia esperá-la.

-E aí? O que achou do show?

-Maravilhoso, como sempre.

-Você tem certeza que era o Heitor que estava no bar? Quando olhei para lá só vi um homem de meia idade.

-Eu devo ter me confundido, estava escuro no bar. Não devia ser ele.

Aquilo era estranho. Marina conhecia muito bem Heitor para se confundir quando o visse, além do fato de que o bar não estava escuro. Na verdade, era um dos pontos mais iluminados do ambiente. De qualquer forma ela estava  exausta, e queria ir logo para o seu camarim. Quando se dirigiu para ele, um braço entrou no seu caminho, barrando a porta que levava ao corredor dos camarins.

-O que você está fazendo?

-Vamos conversar aqui, não acha que os camarins estão muito abafados?

-Não. Me deixa passar, quero me trocar logo. Estou exausta!

-Ah fica aqui mais um pouquinho, por favor.

-Marina você está me irritando, me deixa passar. Disse já empurrando o braço da outra dançarina. 

Assim que ela passou a porta entendeu porque a amiga tentou impedir que ela passasse. No final do corredor havia um homem aos beijos com uma mulher. Era Heitor. 

AliceOnde histórias criam vida. Descubra agora