Alice ainda estava se habituando com a ideia de namorar com Gabriel quando o dia da apresentação chegou. Ela e Marina tinham ensaiado por semanas, para garantir que o número não tivesse falhas. E tinha ficado perfeito, no final das contas. Elas já estavam prontas, esperando o momento de subir no palco quando se olharam. Marina levantou a cabeça e em seus olhos Alice podia ver a expressão que uma criança faz para a sua mãe quando vai se apresentar pela primeira vez. Ela mesma devia ter um olhar similar para sua amiga, uma vez que ela tinha o mesmo desejo de segurar as mãos de alguém, de ter alguém que olhasse em seus olhos cheios de dúvida e dizer que tudo seria perfeito, que ela tinha trabalhado duro e aquela seria uma grande apresentação. Ela provavelmente deixou aquilo transparecer, porque Marina se aproximou e lhe deu um abraço. Um abraço que tinha a firmeza de uma rocha, ao mesmo tempo que tinha a maciez da seda, e o calor de um dia quente de verão.
-Vai dar tudo certo! Ela disse, tentando parecer firme.
Alice olhou no fundo dos olhos da amiga. Era a sua vez de vestir um disfarce de confiança, para que a amiga também pudesse se sentir apoiada.
-Vai dar tudo certo.
A música do número delas já começava, ainda baixa. Uma onda elétrica percorreu o corpo de Alice. Ela parecia sair do corpo de Marina, percorreu seu corpo, e voltar novamente para a amiga. Ela podia se apresentar mil vezes, mil vezes aquelas borboletas estariam dançando quadrilha em seu estômago. Mil vezes a suas pernas iam tremer como bambus nos ventos das chuvas de Verão, e mil vezes ela iria segurar o impulso de correr como um ladrão que acabara de ser pego. Elas se soltaram e tomaram posições. Cada uma em uma extremidade da cortina, já que cada uma ficaria de um lado do palco durante o número. Se olharam uma última vez e foram em direção à plateia. Depois que ele pisou no palco, todas as borboletas que estavam dentro dela voaram. A energia que vinha da plateia e passava para ela algo impressionante. Ela realmente amava o que ela fazia. Gostava de se sentir desejada, querida pela platéia. O desejo que ela despertava naqueles homens, era algo que parecia despertar nela mesma a sua beleza. Uma beleza que vinha de dentro, refletia no exterior e inundava o ambiente. Marina já olhava para ela, iam começar em alguns segundos. Ela se viraram, uma de frente para outra, e se curvaram, jogando o seus cabelos para frente. Desceram até o chão, aonde se agacharam e jogaram, logo em seguida jogando os cabelos para trás. Os homens na audiência cada vez mais atraídos por elas, cada vez mais próximo da teia que elas construíam por todo o palco. Elas se viraram, deitando-se de lado no chão. Em sincronia, levantaram uma das mãos, e a desceram até o osso do quadril, em seguida, correram a mão do quadril até o joelho, passando a mão lentamente pelas pernas, com um olhar convidativo. Se viraram e começaram a dançar a música que a banda tocava, sempre lentamente, da forma mais sensual que se podia. Trocaram de lado no palco, enquanto mandavam beijinhos no ar, que cada homem na plateia tinha certeza que tinha sido direcionado especificamente para ele. Começaram pelo tradicional: As luvas. Aos poucos foram tirando as luvas de seus braços, lentamente, fazendo com que eles desejassem que elas tivessem tirado um pouco mais, revelando além do que já tinha sido mostrado. Quando finalmente tiraram as luvas, numa sincronia perfeita, todos os homens que assistiam ao show gritaram. Elas jogaram as luvas para o público, e viram eles brigar como leões pelos pedaços de tecido. Elas se olharam, e riram. Era impressionante como podiam brincar com os desejos daquelas pessoas, direcionando o que eles fariam como grupo, com pequenos gestos seus a partir do palco. Elas esperaram até que os ânimos se acalmassem entre os homens, e então se viraram de costas para eles. eles iriam vê-las abrir seus vestidos, trazendo-os ainda mais próximos da teia que criavam ao seu redor. Alice levou a mão até o zíper e fez menção de tirá-la dali, como era de costume, apenas para aumentar a adrenalina e a excitação dos fãs. Foi então que ela sentiu uma mão segurando a sua. Era Heitor. Ele segurou em seus punhos. Quando ele se aproximou dela, Alice pôde sentir o cheiro de Whisky em seu hálito. Ele estava bêbado. Os homens na plateia assistiam àquilo, quietos.
Marina correu até a amiga e começou a dar socos nas costas de Heitor, que não parecia sentir nada com os golpes que ela dava. Imóvel, ele apenas segurava nos braços de Alice e a olhava nos olhos.
-Então você está mesmo com ele?
-Estou! Estamos namorando.
-Como você pôde fazer isso comigo?
Alice não podia acreditar na coragem que ele tinha. Foi ele quem a deixou, sem mais nem menos. Ela só entrara em algum tipo de relacionamento com Gabriel como forma de provocá-lo, em primeiro lugar, pelo que ele tinha feito, e agora ele vinha cobrar alguma coisa dela? Como ele podia se achar no direito de fazer uma coisa daquelas?
-Eu fiz o que você mereceu! Disse aquilo buscando forças nas profundezas do seu interior. A verdade é que a perspectiva do que Heitor podia fazer com ela fazia com que ela desejasse correr para o mais distante que conseguisse, o mais rápido que pudesse. Ela nunca imaginou que sentiria tanto horror assim de Heitor, mas ela também nunca o tinha visto bêbado daquela forma. Até então ele só a segurava, mas ela não sabia se ele faria alguma coisa mais. Alice continuava batendo nele, enquanto gritava que alguém chamasse os seguranças do clube.
-Eu não passei de uma diversão para você, não foi? Ele disse com uma estranha mistura de ira e de tristeza nos olhos. -Bem que eu me avisaram! Completou.
-Mas foi você quem me deixou, sem a menor explicação. Ela gritou. -Para cair nos braços daquela lá.
-Você sabe bem o que você fez! Ele disse.
E então ele voou. Na realidade ela não voou, ele apenas saiu de perto dela, de repente. Os seguranças da boate tinham chegado. Marina se jogou no chão, chorando. Alice nunca tinha visto a amiga desesperada daquela forma.
-Tirem ele daqui! Tirem ele daqui! Ela gritava, caída no chão.
Heitor lutou um pouco. Se debatia no chão e esticava os dedos para se segurar ao palco, mas àquela altura cinco seguranças já estavam no palco, e era impossível que ele resistisse a todos. Ele foi carregado pelos assentos do público, que continuava assistindo aquele espetáculo calado. Na verdade, eles pareciam concordar com a atitude de Heitor. Pareciam acreditar que ele estava certo em tentar lavar sua honra, mesmo que isso significasse humilhar a mulher que eles ainda há alguns instantes veneravam. Naquele momento Alice conseguiu enxergar que aqueles homens só a desejavam, e pela primeira vez sentiu nojo deles. Heitor foi levado para fora e ela não o viu mais. Ela e Marina se repuseram e depois pegaram um táxi para casa. Alice chegou em casa tonta com tudo aquilo. Teve muito trabalho tentando convencer Marina a não ficar. Ela precisava ficar sozinha um pouco, para colocar as ideias no lugar. Se jogou na cama, uma mistura de imagens tomando conta da sua cabeça, num caleidoscópio de emoções. Uma coisa em especial se fazia muito presente. A voz de Heitor ecoava dentro dela:
-Bem que me avisaram
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Alice
Historical FictionAlice é uma dançarina de burlesco que se vê dividida entre dois homens, tentando se decidir entre o homem que ela ama e o homem que a ama. Nessa busca conta com o apoio de amigos para superar suas dúvidas, seus problemas e os perigos que o amor mal...
