Capítulo 2

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Alice ficou em choque com o que acabara de ver. Na verdade, ela se esforçava para acreditar em seus próprios olhos. Se alguém a tivesse contado aquilo, ela duvidaria. Mas ela tinha visto. Heitor estava beijando Ariane bem ali, ao lado do seu camarim. Ela não conseguia entender porque ele tinha feito aquilo, as coisas pareciam ir tão bem entre os dois, ele parecia gostar dela, e, de repente, aquilo. Ela passou pelos dois de forma firme, fazendo o máximo possível para não exteriorizar o que estava sentindo. Entrou rápido no seu camarim e fechou a porta atrás dela. Quando se virou, levou um susto. Um homem estava ali. O homem que estava no bar quando ela performava seu número.

-Te assustei?

-Acho que ficou bem claro.

-Não era minha intenção.

-Mas foi o que você fez.

Ela não pretendia ser educada ali. Aquela noite tinha começado ótima, cheia de promessas. Mas desde que Heitor não estava na platéia vendo o seu número as coisas só vinham piorando. Agora ela estava ali, tendo que conversar com um homem desconhecido, que teve a audácia de entrar em seu camarim sem ao menos falar com alguém. Ela já estava pronta para mandar ele se retirar quando Marina entrou.

-Ah, você ficou aqui mesmo?

-Claro, eu disse que ia esperar por ela.

Então era Marina quem havia dado permissão para que ele entrasse no camarim. Não que isso melhorasse o humor dela, mas Alice já conseguia sentir um pouco menos de raiva dele.

-Trouxe flores para você.

-Era de se esperar. Ela disse, mais pensando alto do que realmente falando.

-O que você disse?

-Não posso esperar para vê-las.

-Aqui estão.

Ele havia trazido jasmins para ela. Não eram exatamente sua flor preferida; não eram as flores que Heitor costumava lhe dar; não tinham a sensualidade das rosas, mas alguma coisa nelas a fez se sentir bem. Talvez fosse a delicadeza que elas tinham. Uma beleza sutil, que passava tranquilidade. Se as rosas eram as flores da paixão, aqueles jasmins representavam o amor. Calmo, estável, seguro, descomplicado... "POR QUÊ ELE ESTAVA BEIJANDO ELA?" Aquilo não saía de sua cabeça. Tudo que ela queria era entender porque uma pessoa que até ontem parecia tão segura de alguma coisa, de repente, parecia não querê-la mais.

-Elas são lindas, muito obrigada.

-Não há de quê.

-Realmente, são de muito bom gosto. Disse Marina, sorrindo para o homem e piscando para ele. Parecia que o novo jogador já tinha torcida. " Se ele agrada tanto a Marina, não deve ser tão ruim. Não custa nada tentar".

-E como o senhor se chama? Alice tentava ser educada e esperava que ele não se ofendesse por ser chamado de senhor.

-Pode me tratar por você, meu nome é Gabriel.

Ele estendeu a mão para ela, Alice retribuiu o gesto.

-O meu nome é Alice.

-Sim.

-Como?

-Bom, eles te anunciaram antes do seu número.

-Ah, tinha me esquecido disso. E o que você achou do número?

-Encantador, você é muito talentosa.

-Ela é a melhor dançarina daqui, interrompeu Marina.

-Na verdade só tenho amigas muito generosas. Disse Alice, ruborizando.

-Pois as duas me parecem muito talentosas, além de lindas.

-Muito obrigada! Elas disseram em uníssono, e quando perceberam isso riram. As duas tinham t desse tipo de coisa, as vezes falavam juntas, as vezes uma completava o que a outra ia dizer, como dizem que os gêmeos fazem. Vai ver elas eram meio que gêmeas. Como almas gêmeas ou coisa do tipo.

-Na verdade...gostaria de saber se as duas gostariam de jantar comigo.

Alice olhou para Marina, insegura. Como uma forma de tentar se defender ela tinha aprendido a evitar contato com os homens que assistiam seu show. Muitas vezes eles se confundiam a e achavam que podiam coisas, que na verdade não podiam. Mas essa noite ela tinha uma motivação em especial. Alice ainda não tinha esquecido aquela situação com Heitor, e sair dali acompanhada por um homem parecia ser uma ótima forma de revidar. Ainda assim, ela não tinha certeza. Ela tentava ler o que Marina achava através de suas expressões. Olhou bem nos olhos dela e eles diziam: "Vá em frente, será divertido."

-Nós iremos. Só precisamos que você nos dê licenças para que possamos nos trocar.

-Esplêndido! Vou esperar por vocês no corredor.

Ele saiu e fechou a porta atrás dele. Alice olhou para Marina, que estava sorrindo para ela. Marina sempre teve o riso frouxo, e aquele dia não seria diferente. Ela foram para o guarda-roupa, para escolher o que iriam vestir. Alice estava determinada a estar especialmente bonita naquela noite, principalmente quando passasse na frente de Heitor. Ela achou melhor não perguntar nada para Marina sobre aquela situação do corredor naquele momento. Ao invés disso, tentou colocar seus pensamentos em coisas alegres, e em toda a diversão que ela poderia vir a ter naquele jantar. Escolheu um vestido preto. Discreto, mas muito elegante, e que realçava as curvas de seu corpo. Parou em frente ao espelho para retocar sua maquiagem e arrumar os cabelos. Pegou os cachos e puxou para trás em um coque, dessa forma seu rosto apareceria mais, especialmente seus lindos olhos verdes. Depois colocou um colar de diamantes, que lhe custara meses de trabalho, mas que tinha valido cada centavo que ela teve que economizar. Ele chamava atenção para a região do seu colo, que estava à mostra e que era muito bonita. Depois colocou luvas pretas, combinando com vestido. Estava pronta. Na verdade, quase. Estava muito frio em Chicago naquela noite, então ela iria precisar usar sua echarpe de pele.

Marina usava um vestido vermelho, vibrante como ela. O vestido destacava as belas pernas que ela tinha, através de uma fenda. Alice não sabia como ela iria administrar o frio com aquela fenda, mas ela parecia não se importar. Ela também usava luvas, só que vermelhas, e uma echarpe de pele. Diferente de Alice, Marina usava seus cabelos soltos. Seus longos cabelos loiros, que chamavam atenção por si só. As duas se olharam e fizeram um sinal afirmativo com a cabeça. Cada uma achava que a outra estava muito bem arrumada para a ocasião. Abriram a porta e encontraram Gabriel fumando enquanto aguardava pelas duas.

-Estamos prontas! Demoramos?

-Valeu a pena cada minuto de espera!

Ele realmente parecia estar satisfeito com o que via, já que não conseguia conter os sorrisos.

-Vamos andando? Ele disse enquanto apagava o cigarro e oferecia cada um de seus braços a uma das mulheres.

-Vamos! Disseram as duas, novamente em coro.

Alice fez questão de se certificar que estaria com um sorriso no rosto quando passasse por Heitor, e era assim que ela estava. Apesar disso ele pareceu não se importar com o fato de que ela saía com outro homem, o que a fez pensar que ele realmente não tinha mais interesse nela. Tentou ignorar aquilo, agora ela iria jantar e aproveitar ao máximo sua noite. Os três se dirigiam ao carro, aonde o motorista já esperava por eles. Poucos minutos depois estavam em um dos restaurantes mais luxuosos da cidade. Aquela seria uma noite divertida.

AliceOnde histórias criam vida. Descubra agora