11 meses antes
Estávamos eu e ele com as pernas um em cima do outro. Quando não estávamos afim de tirar a roupa e se divertir, optávamos por ficar deitados e conversando sobre qualquer coisa que desse na telha. Sempre funcionava. Ele me mantinha entretida com suas histórias, sorriso contagiante e risada que ecoava pela sala. Algo de muito certo saía dos nossos momentos errados. E eu não sabia o que me mantinha tão fixa nele, sabendo que não tínhamos nada sério.
Geralmente eu detestava que não olhassem pra mim enquanto eu falo, mas eu sabia que ele estava prestando atenção e escutando o que eu dizia. Talvez fosse isso, ou qualquer uma das milhões de coisas que eu gostava nele. Coisas essas que eu jamais contaria, pois não tinha coragem.
- Sabe - comecei o assunto. - Eu quero te fazer uma proposta.
Jungkook ergueu os olhos do seu celular em um claro ato de descrença.
- Que tipo de proposta?
- Nada proíbido.
- Poxa - disse. - Estava torcendo aqui.
Chutei o garoto, que segurou meu pé e riu.
- Eu queria sair com você.
Ele me encarou antes de responder.
- Eu também.
- Então qual é a dificuldade?
- Combinamos de não deixar ninguém saber - ele listou. - Principalmente o Jimin.
- O Jimin não vai aonde eu quero ir.
- E que lugar seria esse?
- O parque de diversões aqui perto, aquele nômade.
Jungkook pareceu pensar um pouco antes de se lembrar do lugar, assentindo como resposta.
- Isso quer dizer que está concordando? - Perguntei em expectativa.
- Sim - ele repetiu o ato. - Você está pedindo tão educadamente que eu jamais poderia negar.
Movi meu pé para chutá-lo novamente, mas ele bloqueou meu movimento, segurando meu pé em sua mão. O rapaz passou o dedo pela superfície, provocando cócegas. Tentei me soltar, mas o sorriso maléfico dele me dizia que essa não era a intenção dele. Ele começou a empurrar meu pé e consequentemente minha perna até que esta estivesse dobrada na frente, quase colada ao meu corpo, possibilitando-o ficar perto de mim.
- Você não me nega nada - quebrei o silêncio. - Por isso te odeio.
- Me odeia? - Ele fingiu surpresa. - Achei que tivesse dito que adorava minha companhia hoje mais cedo.
- Eu estava bêbada.
- De Sprite?
- Quem te garante que não tinha vodca naquele copo?
- Eu garanto. Conheço bem Park (s/n).
- Será? - Brinquei. - Qual minha música favorita?
Ele parou para me olhar, não acreditando que eu realmente estava o testando.
- Você não tem. Prefere se abster porque simplesmente não consegue escolher uma só.
Mordi minha língua. Ele realmente sabia algumas coisas sobre mim. Percebendo uma brecha minha, ele se aproximou mais, debruçando seu corpo sobre o meu, juntando nossos lábios. No início fui relutante, mas ele tinha uma insistência impressionante, e sabia muito bem como me fazer ceder aos seus encantos. Dei passagem para que ele aprofundasse o beijo, depositando minhas mãos na nuca dele, o trazendo para mais perto.
Não pense que eu não sabia os perigos disso que estávamos fazendo, e nem que eu estava completamente entregue.
Primeiramente, toda vez que eu me encontrava secretamente com Jeon Jungkook, a imagem de Park Jimin aparecia no meu subconsciente, mas eu o afastava como uma pessoa afasta seus problemas. Em termos chulos, eu empurrava a situação com a barriga sem ter a menor vergonha disso.
Em segundo lugar, a parte racional do meu cérebro ainda dominava a maior parte de mim. Tinha a perfeita ciência de que eu não estava completamente e loucamente apaixonada por Jeon Jungkook. Porém, estava no caminho. Existe, de fato, uma diferença gritante entre uma queda e um abismo. Naquela época eu ainda sabia diferenciar os dois.
Ele apoiou as minhas costas em sua cama, deitando-se sobre mim parcialmente, com um dos braços sustentando seu peso, sem interromper o novo beijo. Fazendo uso de um extremo auto controle e força de vontade, o empurrei pra longe, deixando-o com um olhar confuso de cachorro perdido na mudança. Segurei minha língua para não rir da expressão que ele fez, sentando-me ainda com ele parcialmente entre mim.
- O que foi? - Ele perguntou.
- Não lembra que você concordou em ir ao parque de diversões comigo?
- Lembro, mas tem que ser agora? - Seu tom era suplicante. - Eu tinha outros planos.
Olhei na direção de seu amiguinho, vendo que não estava em uma situação sem saída.
- Você prometeu...
- Ei, eu não prometi nada. Disso tenho certeza.
Revirei os olhos, seguida por uma risadinha dele, que me empurrou de novo na cama.
- Mas isso não quer dizer que eu não vá.
Estiquei minha mão para pegar meu celular, olhando o horário.
- Se quisermos ir hoje temos que sair agora. Aproveita que seus pais não estão em casa.
- Não é bem assim que eu imaginava aproveitar a ausência deles.
- Quanto mais cedo formos, mais cedo voltaremos e teremos mais tempo pra fazer o que você estiver afim.
Ele me olhou com os olhos fixos, sorrindo de lado e saindo de cima de mim, dando passagem para que eu me levantasse. Fui ao banheiro e penteei o cabelo, saindo e dando de cara com ele trocando de roupa. Decidi não interferir até que o rapaz me notasse, o que não aconteceu até eu bater na porta.
- Vai assustar a porra - ele transferiu com a mão sobre o peito.
- Podemos ir ou vai demorar mais oitenta e quatro anos?
Jungkook revirou os olhos, pegando o celular e as chaves, saindo andando sem mim. Corri atrás dele, feliz por estar saindo com o tal. Caminhamos com cautela para evitar quaisquer conhecidos até o ponto de ônibus, onde pegamos um quase totalmente vazio. O parque de diversões era razoavelmente perto da casa dele, que era razoavelmente perto da minha, então não tivemos problema algum.
A primeira coisa que notei foi uma enorme e colorida roda gigante em meio às árvores. Eu era muito louca por parques de diversões. Tudo sobre esse tipo de entretenimento me encarava, desde a mais simples pescaria até o mais elaborado carrossel. Esse era o maior motivo de querer levá-lo até ali. Embora tentasse esconder meu sentimentalismo, queria compartilhar aquela bela memória ao lado dele. Obviamente, não contei isso pro garoto. Provavelmente, se tivesse, agora as coisas seriam diferentes.
Uma das coisas que eu mais gostava quando estava perto dele era a nossa diferença de altura. Um arranha céu e um prédio de três andares um ao lado do outro.
Tudo tinha um pequeno significado extremamente importante, ao menos em minha concepção. Entretanto, as palavras de Areum ainda ecoavam na minha cabeça "não ter expectativas com o Jungkook - ele é péssimo". O que havia levado a garota a chegar nessa conclusão? Pode soar um pouco, talvez muito, clichê, mas quando o olhava, não encontrava uma falha sequer. Sim, ele era teimoso. Irritante. Insistente. Implicante. Convencido. Eu, como uma bela idiota que jamais deixei de ser, não considerava tais características como falhas. Falha era ser preconceituoso, egoísta, cruel. Nada disso se encaixava nele. Nunca se encaixou.
Saí de meus devaneios quando senti a brisa mexendo em meus cabelos. Eu os ajeitei atrás da orelha, voltando a prestar atenção na realidade. Nem percebi que já estávamos dentro do parque.
Meus olhos se encheram de admiração e plenitude quando vi todos os brinquedos daquele lugar. Eram perfeitos, como eu imaginava em meus sonhos.
- Tá, qual o primeiro brinquedo? - Ele questionou.
- Que tal o carrinho bate-bate? - Sugeri.
Ele assentiu e andamos até o brinquedo, no qual esperamos pouco para entrar. Sentei-me num carrinho rosa florescente, enquanto ele optou por um verde musgo. O sinal tocou, anunciando o início do período. Imediatamente os carrinhos começaram a se mover, o meu batendo insistentemente na borda do brinquedo. Por mais que eu tentasse mexer no volante, não saía do lugar. De longe eu escutava a risada escandalosa dele e eu sabia que estava rindo de mim. Com um golpe de mestre consegui me livrar de minha prisão sem grades, indo na direção do garoto, que tentou fugir, mas foi interceptado pelo meu carrinho.
- Você tá trapaceando! - Ele berrou. - Não pode ficar eternamente batendo no mesmo carro, (s/n)!
- Me mostra o regulamento do carrinho bate-bate, quando eu achar esse artigo, peço desculpas.
- Aish! - Ele gritou.
Infelizmente o tempo se esgotou com a batida do sinal, obrigando-nos a sair dos carrinhos. Eu estava bem feliz, saí de lá dando pulinhos.
- Sua vez de escolher um - o informei.
Ele deu uma olhada pelos brinquedos do parque.
- Montanha russa.
Neguei na mesma hora.
- Eu odeio montanha russa.
- Relaxa, se você ameaçar cair, te seguro.
- É mais provável você me deixar cair.
- Que horror, (s/n). Ainda não atingi esse nível de psicopatia.
Ele passou o braço pelos meus ombros, sem muitas preocupações, mas eu senti meu coração acelerar consideravelmente.
- Por favor, vai ser divertido.
- Ok, Jeon. Você é chato pra porra.
- Jeon? - Ele perguntou com um tom de falsa indignação. - Antigamente era oppa, agora é Jeon.
- Você não merece ser chamado de oppa, não enquanto continuar passando molho de queijo na minha cara.
- Eu posso conviver com isso perfeitamente. Com quem mais você dividiria esses momentos maravilhosos?
Aquele desgraçado convencido maldito. Resolvi tocar na ferida apenas para não deixar ele sair vitorioso.
- Talvez com Im Changkyun.
Imediatamente ele parou de andar, me olhando com a sobrancelha erguida.
- Ah, é? - Ele chegou perto o suficiente para que ficássemos de frente um para o outro. - Quer entrar nessa discussão mais uma vez?
- Só estou apresentando os fatos. Ou melhor, as possibilidades.
- Possibilidades?
- Probabilidades.
- Probabilidades possíveis?
- Depende.
- De quê?
- Da minha vontade.
Não pude terminar de falar, pois no segundo seguinte ele já tinha pressionados seus lábios contra os meus. A atitude me deixou surpresa. Ao contrário dos beijos que geralmente trocávamos, aquele foi suave, quase tanto quanto um algodão doce, mas que deixou as borboletas no meu estômago voarem livremente. Quando acabou, senti um vazio. Jungkook me olhava com um sorriso de lado, aquele que ele usava apenas para se gabar. Foi a primeira vez que nos beijamos em público, e foi ótimo.
Expectativas, expectativas, expectativas. Era preciso mantê-las longe. Por isso simplesmente saí andando, sendo seguida por ele.
Nossa aventura na montanha russa foi horrível, ao menos pra mim, porém ele fez como prometeu: não soltou minha mão.
- Nunca mais! - O alertei. - Nem fudendo!
- Foi divertido! - O sorriso dele era contagiante demais. - Qual o próximo passo?
- Vamos nos acalmar um pouco. Que tal comer alguma coisa?
- Ok, o que você quer?
- Algodão doce ou churros.
- E se tiver churros sabor algodão doce?
Eu ri, inconscientemente ajeitando as golas da jaqueta dele, que continuava sorrindo.
- Não existe isso. Seria perfeito, mas não existe.
- Eu sei que não, mas se eu pudesse, faria um pra você.
Minhas bochechas coraram na velocidade da luz.
- Aish, vai logo.
- Vai logo...
- Vai logo, oppa.
Ele assentiu, se afastando e indo na direção das barraquinhas.
Eu realmente não conseguia acreditar. Há um ano, aquele cenário jamais passaria pela minha cabeça.
Embora eu continuasse repetindo para mim mesma que Jungkook não seria capaz de quebrar meu coração, o medo me invadia constantemente. Não estávamos namorando, mas eu nunca mais ouvi Jimin falar sobre alguma garota com ele. Eu não iria o cobrar de nada, afinal, quem era eu para cobrar ele de alguma coisa?
- Aposto que você não esperava por essa.
Me virei, vendo os churros na mão dele. Estiquei a minha para pegar o doce, mas ele afastou a comida, indicando que queria botar na minha boca. Ele apontou mais uma vez e eu mordi o doce, sentindo o sabor de algodão doce invadir minhas papilas gustativas.
- Eu não acredito que você achou!
- Sério, eu sou ótimo.
- E convencido.
Antes que a discussão pudesse continuar, fomos interrompidos por uma voz familiar que chamou nossos nomes. Me virei aterrorizada, porém tratei de colocar um sorriso forçado no rosto.
- Hyeri unnie! - A saudei.
- Quanto tempo, (s/n)! A gente nunca mais se viu.
- Pois é...
- Oi, Jungkook. O que está fazendo aqui?
- Oi, noona. Eu...
- Ele veio conosco no parque.
- Ah, sim. Como vai a vida?
- Ótima, não poderia estar melhor.
- Agora você está no último ano, né?
- Sim, finalmente. Não vejo a hora de me livrar do Ensino Médio.
- Te desejo toda a sorte do mundo. - Ela pegou nas minhas mãos. - Quero muito ver o seu sucesso.
- Todos queremos - Jungkook se intrometeu.
- Até mesmo meu irmão, que me arrastou pra cá - menti.
- Espera. Jimin está aqui? - Hyeri perguntou com o olhar assustado.
- Sim, unnie. Achou que estivéssemos com quem?
- Sozinhos ou com Taehyung.
- O Taehyung atualmente está focado em passar nas provas. E por que viríamos sozinhos aqui, unnie?
- Eu não sei... Tem razão. Jimin está mesmo aqui?
- Sim, noona - Jungkook entrou na mentira.
- Então eu vou indo. Muito bom encontrar vocês.
- Mas, noona... Não quer falar com ele?
- Por Deus, não.
- Ah, certo, então. Quer que eu mande algum recado?
- Não, muito obrigada! Tchau, gente! Bom passeio.
E da mesma forma que veio, Hyeri foi embora. Eu e Jungkook nos entreolhamos.
- Nem me pergunte - ele adiantou. - Seu irmão se recusa a falar dela com quem quer que seja.
- Eu realmente não entendo os dois.
Hyeri era uma garota legal. Sempre achei que ela e Jimin faziam um ótimo par, mas por algum motivo eles pareciam não funcionar juntos.
- Vamos na roda gigante ou no carrossel primeiro?
- Roda gigante.
E assim fomos. Embora estivesse animada pra ir no brinquedo, eu morria de medo de altura. Acho que ele sentiu isso, pois quando estávamos numa altura considerável, mas não o máximo, ele pegou na minha mão. Eu o olhei, e o garoto, por sua vez, fez uma careta. Sorri, sentindo a roda se mover até a altura máxima. Ficamos parados no topo, sentindo o balançar da altura. Eu apertava a mão dele com demasiada força, e ele sorriu.
- Sabe, aqui é lindo - Jungkook começou. - Se você abrir os olhos, vai descobrir um novo mundo.
- Não vou arriscar.
- (s/n) - ele chamou com a voz suave e aveludada. - Olha pra mim.
Não consegui controlar meus próprios movimentos. Não me arrependi, todavia. A vista era realmente linda, embora levemente aterrorizante.
- Obrigado por me trazer aqui - ele falou. - Eu nunca vou esquecer.
- Não foi nada demais...
- Shh, deixa eu falar.
Assenti, dando brecha pra ele continuar.
- Eu precisava desse tipo de diversão. A faculdade estava sugando a minha vida, eu não sabia o que escolher, mas... Acho que você me ajudou.
- Eu?
- Sim. Lembra quando te ajudei a cuidar do pé quebrado?
- Sim, mas o que tem isso?
- E-eu... - Ele estava nervoso, isso raramente acontecia. - Quero ser fisioterapeuta.
Eu sorri, apertando a mão dele.
- Tenho certeza que você vai ser o melhor fisioterapeuta de Seul.
Jungkook sorriu abertamente. Aqueles sorrisos que melhoram seu dia em 100%.
- Obrigado por tudo - terminou de falar. - Eu gosto muito de você.
Meu coração estava a mil por hora e eu suava frio.
- Eu também gosto muito de você.
Foi a última coisa que dissemos antes de nos beijarmos mais uma vez, no topo daquela roda gigante.
Eu deveria ter dito a verdade.
Deveria ter dito "estou apaixonada por você", mas não disse.
Apenas mais um dos milhões de erros que eu coleciono na minha bagagem.
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Playing With Fire
FanfictionNa qual você é a irmã mais nova de Park Jimin e se envolve carnal e romanticamente com Jeon Jungkook em segredo. "Se pudéssemos escolher por quem iriamos nos apaixonar, talvez as coisas fossem diferentes. Mas desde a época dos gregos antigos, todos...
