Nosso humor pode mudar da água para o vinho em questões de segundos. É como uma bola de neve que quanto mais é alimentada, maior fica. Inconscientemente somamos os motivos bons e os ruins, equilibrando-os para decidirmos qual o nosso novo estado. Porém somos falhos. Podemos atribuir pouco valor a coisas boas que pesariam toneladas, e em contrapartida atribuir um valor enorme a coisas constrangedoramente banais. Quando essa falha ocorre, um primitivo insistindo surge para causar caos a nossa volta, cegando nossas emoções boas, transparecendo e gerando hipérbole a todos os nossos sentimentos ruins, a todos nossos rancores que nós mesmos pensávamos ter ocultado e abafado. Tudo isso se soma a um pico de adrenalina, que se resume em um único sentimento:
Raiva.
Afinal todos passamos por este sentimento volta e meia e as consequências dele são terríveis.
Dizemos coisas das quais preferíamos nunca nem mesmo ter pensado. E talvez a pior, ou "melhor" parte, é quando finalmente nos damos por nós, e nos arrependemos das coisas que fizemos. Isso tudo implica no sentimento de auto raiva. Raiva de si mesmo, que desta vez, comporta-se e oculta-se reservadamente, raríssimas vezes transparecendo-se de forma ordinária.
Esse essencial, porém terrível sentimento é capaz de nos corromper por dentro e nos distanciar da tão cobiçada paz que buscamos. É aí onde vivem os destrutivos males que afetam Loyal.
Ele não sabe domar este feroz Leão.
Sua respiração ofegante também incluía sussurros de dor, ele sabia que era um sonho, mas seu corpo não tinha tanta certeza assim. A aflição era perfeitamente idêntica à que vivenciaria realmente, a cama estava úmida de suor e a voz familiar que falava com ele toda vez que este sonho se repetia ainda ecoava em sua mente, "Mesmo que doerá, impeça", martelando em sua cabeça essa frase se repetia com o mundo girando a sua volta, ele estava com tontura apesar de nem sequer ter se movido, tentando não perder a lucidez pegou se celular e checou;
Eram 8:13 da manhã, ele estava tão atrasado para a aula que perguntava-se se ainda valia a pena tentar chegar até o colégio, e então subitamente preferiu ficar em casa desta vez.
Sua mãe provavelmente foi trabalhar, pois seu trabalho começava antes dele acordar, era uma longa jornada de trabalho, até por que ela tinha que sustentar a si mesma e a seu filho. O pai do Loyal morreu quando ele tinha apenas nove anos, porém eles evitavam ao máximo falar ou mesmo pensar sobre isso, sabiam que nada de bom sairia daqueles pensamentos tristes, mas eles eram evasivos, antes que os reprimissem, lá estavam, só para aguçar a inevitável imaginação de como estariam suas vidas sem a morte daquele homem.
Desceu após escovar os dentes e fazer suas necessidades, pulou no sofá com um pote de bolachas, mas estranhamente não havia café, algo que sua mãe fazia sempre antes de sair, mas dessa vez ela provavelmente se atrasou um pouco. Atrasos estavam ficando comuns ultimamente.
Ligou a televisão sem se preocupar com o que estaria passando.
Era o jornal da manhã. Não aquele que passa bem cedo e possui muita credibilidade, e sim aquele que recebe metade da audiência por mais incrível que pareça, com o qual ninguém se importa muito.
Dessa vez ao invés de mostrar casos de assaltos simples e animais que parecem falar a língua humana, ele transmitia algo sobre o alinhamento da terra com todo o resto do sistema solar, interessante, mas nada que vá mudar sua vida, não é mesmo?
Estava entediado, e se perguntava se ter ficado em casa foi uma escolha sábia. Animou-se apenas quando viu a chuva pingar do céu. Água caindo e molhando as plantas, criando poças, tornando o tempo frio e longo, ele meditava em seus pensamentos olhando e ouvindo a chuva.
A chuva se engrossou mais e mais, Loyal olhou pra ela e sorriu vagamente, dizendo pra ela (ou talvez pra si mesmo apenas se referindo a ela).
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Chuva Torrencial
General FictionNunca julgue um livro pela capa. -E se tudo o que você dissesse, virasse realidade? Isso seria incrível, não é mesmo? Ganhador do 1º lugar no concurso literário "Palavras Entrelaçadas". 1º Lugar no "Em Ascensão" de ficção geral no dia 18/01/18. 2º...
