Era um quarto bagunçado, a roupa usada na semana retrasada ainda estava sobre a cama juntamente com milhares de folhas de papel, nelas, números e letras formando contas e equações indecifráveis por alguém com sanidade intacta.
O quadro negro ao lado da cama naquele espremido quarto jorrava números e fórmulas, sentido era um luxo que poucos alcançariam ao analizar aquilo tudo. A lâmpada amarelada que devia ter seus cinco ou seis anos de vida relutava a brilhar e apesar da cama de casal, ainda havia espaço para uma cômoda naquele cubículo, sobre ela, um telefone e uma cafeteira embaralhando seus fios na única extensão que se conectava a uma uma velha e inconfiável tomada.
O homem que usava uma jaqueta vermelha segurava firme o telefone, tão desgastado que a parte mais usada perdera a coloração também escarlate, escurecendo.
-Então, pelos seus cálculos, é amanhã que deve receber a nova ordem?
-Na verdade, ainda nessa noite, assim que adormecer saberei quem é o desafortunado que assistirei.
-Boa sorte.
-Eu não preciso de sorte.
-Estamos sujeitos a desejarmos coisas de que não precisamos, isso se chama capitalismo. - A pessoa do outro lado da linha exprimiu um ruído que talvez fosse uma risada.- Portanto ainda te desejo sorte.
Por segundos a respiração daquele homem com uma jaqueta vermelha foi a única coisa a ser ouvida na ligação. Mas o tempo estava escorrendo, então antes que pudessem perguntar sobre, ele apoiou seu braço sobre a mesa e descreveu como havia sido seu último traço.
-Ele gritava olhando para mim, pedia socorro e pareceu me olhar com ódio quando viu que não faria nada para ajudá-lo, depois, só ouvi o trágico porém aliviador silêncio...
-Ouvir o silêncio é um pouco contraditório.
-É tudo que precisamos ouvir as vezes.
-Sabe, pareceu com a primeira vez, não?
-Mas afinal, sempre se parece com a primeira vez, não sei se existem muitas reações variadas para essa situação, só se passa por ela uma vez na vida, em seu final para ser mais específico...
-Você odeia falar do passado, mas sempre pensa sobre...
-Existem dois tipos de pessoas, as que sonham e as que gastam tempo relembrando os sonhos que tiveram...
-Qual das duas você é?
-As que têm insônia. Eu preciso desligar.
-Por que?
-Essa ligação está prestes a completar treze minutos. Treze é um número de azar.
-Não foi você quem disse que não precisa de sorte?
-Isso não significa que goste do contrário...
-Boa sorte, espero que consiga dormir apesar da insônia.
-Quando devo receber uma nova ordem, nem que eu desmaie, mas inevitavelmente consigo dormir.
O telefone não foi conectado na base, o homem apenas apertou o botão e jogou o aparelho na cômoda.
Uma boa noite de sono era apenas o que queria que desejassem a ele, afinal a sorte é tão irregular, milhões e fatores fazem conluio para que as coisas dêem certo, mas milhões de fatores são muitos detalhes.
Efeito borboleta é uma teoria que defende a ideia de que tudo - absolutamente tudo - interfere em eventos grandiosos, o bater de asas de uma borboleta no Brasil interfere em um furacão do outro lado do planeta, portanto, a sorte é muito delicada, muito flexível, não é exata, não é matemática, não é desejada por aquele homem.
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O tom era de fim de tarde, mas haviam nuvens densas cobrindo tudo que antes fora azul.
Não sabia onde estava, mas parecia ser uma praça qualquer. O sol desenhava no chão largas e alaranjadas figuras por conta das sombras, as árvores estavam verdejantes e vivas sendo banhadas pela forte e dourada luz que radiava do céu, com exceção de uma grande árvore completamente seca. Não havia ninguém, ninguém além dele e uma pessoa contra o sol virada de costas.
"Esse é o número dezessete?" Perguntou em seu pensamento olhando para a silhueta em sua frente, não obteve resposta.
A pessoa permanecia completamente inerte.
"É ele?" Perguntou em seus pensamentos novamente.
Silêncio foi tudo a ser contraditoriamente ouvido.
"O silêncio é lindo, mas de vez em quando a incerteza pode nos fisgar, a ordem não inclui incertezas. É essa a pessoa?!" Seria um grito caso tivesse expressado com palavras audíveis. Mas em seus sonhos, seja lá com quem fosse, bastava pensar.
Lentamente a silhueta virou-se. Era uma pessoa sem vida, vazia, seu olhar profundo denunciava. Seus olhos castanho claros combinavam com sua pele morena e também com seus longos cabelos castanhos, apesar de vazio, o seu olhar ainda conseguia ser imponente. Seus desenhados lábios entreabertos recitaram lentamente uma curta porém esclarecedora frase;
-Sou eu. - Em fim, quase hipnotizada, os olhos da menina encontraram os olhos do homem de cabelos brancos.
-Qual seu nome? - Perguntou surpreso, não era comum ver a própria vítima se apresentando quando recebia uma nova ordem. Então pausadamente a soturna garota respondeu:
-Meu nome é Victoria. Encontre-me.
Oi gente!!
Me perdoem por quebrar a imersão de vocês, mas preciso dar essa notícia:
Chuva Torrencial ganhou o primeiro lugar no concurso literário "Palavras Entrelaçadas"!!!
Eu estou MUITO feliz com essas conquistas e saibam que eu sou MUUIT grato a todos você!!!
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Chuva Torrencial
Ficción GeneralNunca julgue um livro pela capa. -E se tudo o que você dissesse, virasse realidade? Isso seria incrível, não é mesmo? Ganhador do 1º lugar no concurso literário "Palavras Entrelaçadas". 1º Lugar no "Em Ascensão" de ficção geral no dia 18/01/18. 2º...
