C2- Teto de vidro.

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Verdade.
Uma penetrante espada capaz de destruir os céus estrelados. Afinal, os pontos brilhantes que te enchem de esperança no céu mentem para você, boa parte das estrelas já estão mortas, tudo que vemos são as luzes viajando até nossos olhos, tudo que vemos são mentiras.
Quanto maior a mentira mais poder a verdade tem, maior é a devastação e ao mesmo tempo, a pureza que ela trás. O menor desvio dela multiplica-se ao infinito, enquanto o menor conhecimento dela liberta o mais preso dos homens. É feroz, impiedosa, irrefutável. É a própria justiça poética resumida, é o que muitos temem, pois ela destrói o chão que pisamos, faz cair sobre nós o teto de vidro que nos acolhera e nem sempre é confortante, mas sempre é necessária, pois assim como onde há fumaça tem de haver fogo, a verdade sempre vira à tona por trás toda mentira. Victoria precisava dela, o teto de vidro a esquentava como em uma estufa, já não aguentava mais, seu chão era espinhoso e empedrado, estava cansada e em ruínas, precisava de uma sombra para que pudesse descansar.

As mãos daquele homem tremiam, talvez erraria o tiro se não se acalmasse um pouco. Maldita hora que ninguém passou por aquela rua. Parecia que haviam acionado um toque de recolher.

Ela nem sabia mais o que sentia naquele momento. Esperaria pelo tiro ou faria alguma coisa?

Era uma mulher de atitudes. Então fez jus ao seu nome, já que para ter vitória, precisaria lutar.

-O que você quer? - Sua voz ecoou como um grito, e ela só percebeu sua reação bruta quando já havia vazado desespero de sua boca. Teve medo de o assaltante corresponder a reação da mesma forma.

Porém foi muito pelo contrário. O olhar do assaltante desmentia indícios de raiva. A barba era pouco densa, demonstrava um cuidado para permanecer daquele jeito. Seus cabelos brancos quase cinzas, não pareciam ser tingidos, ao que tudo indicava, a genética foi dura com aquele homem, dotando-o de fios grisalhos e pálidos tão cedo, assim como sua pele levemente enrugada.

Victoria em fim estudou o indivíduo que a ameaçava. Algo chamou sua atenção, além do silêncio diante sua ousada pergunta, ele parecia tentar - com total falha - disfarçar sua expressão facial que claramente era a mesma expressão que sua mãe tentava omitir ao olhar para ela.
Era um olhar de pena. Um olhar de aflição. Sentia tristeza por Victoria.

Lágrimas de crocodilo, Victoria pensou.
Crocodilos, caso não saiba, choram ao mesmo tempo que se alimentam de suas vítimas, uma contradição biológica, uma hipocrisia natural. Um assaltante que poderia se tornar um assassino - se é que já que fora - pesando por ter que ameaçar suas vítimas.  

Victoria não era idiota. Ela poderia não entender o motivo daquela arma estar direcionada para ela, apesar de que trilhões de teorias começavam a se formar em sua mente, tendo o nome de seu pai em noventa e nove por cento delas, mas ela sabia que aquilo já estava se tornando ridículo.

-Que merda você quer? Abre essa boca porca e fala! É meu celular? Não... espera... Você não seria tão medíocre a esse ponto. O que quer seu verme?- Era seu ápice de adrenalina, xingar alguém que apontava uma arma para sua cara não foi uma atitude inteligente, ela se arrependeu das palavras que usou logo depois.

O homem de cabelos brancos segurou a pistola com a sua outra mão, apoiando-a muito firmemente em direção a Victoria. Estreitando os olhos ele parecia ajustar a mira. Victoria quase desmaiou novamente, sentiu seu sangue ser enriquecido com qualquer hormônio que jorrava de suas glândulas naquele momento.

Correr? Ficar parada? Gritar? Chorar? Fechar os olhos ou abri-los? Esperar pelo pior ou pelo melhor? Milagre ou morte? Tentar desviar? É realmente possível tentar? Deveria lutar ou não reagir? Talvez ele tenha piedade? Mesmo depois do que foi dito? O que fazer?

Ela não parava de se fazer perguntas, estava diante da morte que no lugar de uma foice usava uma Colt M1900 calibre trinta e oito, e sobre seu gatilho, um dedo que ficava cada vez mais pálido em sua ponta indicando logicamente uma pressão.

Talvez preferisse estar no mundo dos livros que lia como "Chama Negra", certamente sua morte seria mais interessante, porém, era vida real e ela tinha poucos minutos na mesma.

Victoria lembrou-se como em um filme de quando estava em sua antiga casa, tinha oito anos de idade, seu primo pouco mais velho que ela fazia uma visita. Jogada na poltrona ela ria da situação que se apresentava.

-Então quer dizer que você está namorando Miguel? - Sua mãe perguntava para seu primo, esperando alguma reação engraçada vinda de uma criança inocente.

-Não! Eu não estou namorando! - Ele respondia irritado, aumentando as risadas de Victoria.

-Está sim, quem era aquela menina com você? - A mãe da Victoria ainda não era esposa do senador, era esposa do micro empresário que falia aos poucos, se dizia triste na época, mas hoje ela se lembra daquele tempo invejando a felicidade que a simplicidade de sua vida esbanjava, maldito e ao mesmo tempo bendito momento que apoiou a ideia da candidatura de seu marido.

-Não importa quem aquela menina é! - Se estressava ainda mais ao dizer.

Victoria lembrou-se do refrescante cheiro de terra molhada que invadia aquela casa denunciando uma chuva prestes a começar, lembrava-se de como se sentia segura naquela poltrona. O mundo poderia acabar, mas ali ela estava longe de todo mal.

A campainha tocou e a mãe de Victoria saiu apressada para abrir a porta.

-Nossa Vic, essa foi por pouco. Mais um pouco de perguntas e ela saberia que você é minha namorada. - Uma criança de nove anos ocultando um "namoro", cena fofa, porém não era isso que a memória de Victoria buscava. - Fomos salvos pelo gongo! - Agora sim. Era isso que esse filme tentava recobrar. Essa frase. Salva pelo gongo. Victoria certamente não sabia o que era um gongo, apesar de confirmar a afirmação do primo sempre que a ouvia.

Essa expressão nunca fizera tanto sentido como naquele momento.

O homem de cabelos brancos se mostrou profundamente irritado ao ouvir o som das sirenes dos carros da polícia que estavam prestes a passar por ali. Ele abaixou a arma com ódio e alívio em sua face. Correu até virar a esquina, Victoria ficou lá, parada.

Os policiais foram acionados por conta do alarme que ela fez tocar no jantar, estavam indo em direção a sua casa, por ironia do destino passaram na rua escura que Victoria estava.

No momento de lucidez total pôs-quase-morte, conformada com a nova chance que ganhou da vida, ela estava disposta a destruir a candidatura de seu pai, disposta a trazer novamente a simplicidade da vida. Victoria tinha um novo objetivo, destruir a falsa imagem de sua família. Destruir a sua popularidade forçada. O teto de vidro acabara de despencar sobre sua cabeça.

Ela estava finalmente disposta a fazer a verdade vir à tona.

Chuva TorrencialHistórias para pegar e não largar. Descubra agora