Capítulo 4 – Mudança de Planos (Ariel)
Se havia algo no mundo que eu mais odiava, além do dia em que tive que deixa-la, era não saber o que fazer, agora que estava aqui.
Planejamentos, estudos e estratégia faziam parte do dia a dia de um líder, e por vezes a dúvida pairava até o ponto em que se decidia o que fazer.
Mas eu nunca achei de verdade que uma organização pautada em ações secretas, vinculadas com todas as agencias mundiais de segurança e superior militarmente a qualquer nação poderia ser alvo de ataques tão desconexos e ao mesmo tempo com tanto êxito!
Minha filha e o novo recruta sobreviveram por uma questão de sorte e até certo ponto um bom treinamento militar. Mas a principal base da ADA, seu quartel general principal ser atingido nem de longe poderia ser considerado como algo "normal". Deixou-nos em alerta máximo, recuando todos os agentes em missões pelo mundo.
Eu queria todos juntos, e mesmo assim, não poderia reuni-los naquele lugar, já que estávamos claramente vulneráveis por ali. Precisava de uma solução e precisava ser rápido.
- Estão todos no navio, embarcando para cá - Jay J entrou na minha sala, atualizando-me das novidades.
Eu acenei, pedindo que me deixasse a sós. Ele já ia saindo pelo corredor quando eu o chamei de volta:
- Onde está Ripper? Precisava de alguém de máxima confiança, e principalmente, com frieza e tranquilidade para assumir comigo uma decisão.
- No pátio, conferindo o sistema de proteção dos muros – ele respondeu.
- Vá chamá-lo.
Não levou mais que cinco minutos para que meu irmão irrompesse pela porta. Suas mãos estavam sujas, e seu rosto, queimado pelo sol. Provavelmente passou a manhã inteira sob o céu aberto.
- Onde está Marina? E Felipe?
Seus olhos se estreitaram, questionando provavelmente o motivo de minha pergunta. Evitando as suspeitas de meu próprio irmão e agente, acrescentei:
- Quero coloca-los em segurança – sua face suavizou e em seguida, ele enrugou a testa em preocupação – não há ameaças concretas sobre eles, mas com tudo que aconteceu quero reunir ao máximo os nossos...
Ele puxou uma cadeira, sentando-se com as mãos nos joelhos, visivelmente cansado.
- O que está acontecendo Ariel? Sua pergunta veio em forma de suspiro.
Eu puxei uma cadeira a sua frente, precisando confirmar se eu poderia contar com a sua ajuda sobre o que eu estava pensando em fazer:
- Ripper, eu recebi uma ameaça meses atrás. Não dei importância, mas percebo agora que não era mais uma das que costumamos receber. Essa é para valer, eles estão nos atingindo e de alguma forma, infiltraram-se entre nós. Se estão aqui, sabem mais do que podemos imaginar – ele acompanhava meu raciocínio, ocasionalmente confirmando com a cabeça meus pensamentos – preciso ter certeza que estaremos cercados dos nossos, de olho principalmente nos "nossos". Não posso confiar a distância e principalmente, se nossos inimigos estiverem entre nós, precisamos diminuir o ponto de impacto. Se nos isolarmos – eu estreitei os olhos para que ele pudesse entender aonde eu queria chegar – seremos apenas nós, sem sociedade, sem danos colaterais e principalmente: sem pessoas que não podemos confiar.
Ele levantou-se, exausto, sabendo onde eu queria chegar. Era arriscado, muito, mas era uma forma estratégica de diminuir o impacto da ameaça que estávamos enfrentando. Nós contra eles. Quem quer que fossem.
- Isso é muito arriscado, Ariel – ele ponderou olhando pela janela, observando nossos soldados no pátio. Pelo menos uns oitenta treinavam combate pessoal, um estímulo dado por Ripper para diminuir o estresse causado pelo ataque – se fôssemos apenas soldados eu não me importaria. Mas embora você e eu escondemos dos demais, temos uma "família" fora daqui – ele frisou a palavra, acentuando o motivo de minha preocupação – e não sei se trazer Marina e meu garoto para base seria a melhor solução. Eles estão bem onde estão...
Ripper continuou como um dos "amigos" da ADA por escolha própria. Sozinho ele foi mais agente do que qualquer um seria ao longo de uma vida inteira. Mas mesmo assim, de maneira relutante ele continuou, realizando apenas poucas missões, e garantindo que voltava para a família, onde quer que eles estivessem, pelo menos alguns meses por ano. A localização deles só era controlada por ele, e tudo que eu sabia era o destino das nossas próximas férias, sempre em uma propriedade de um dos fundadores da ADA ou doadores de recursos da Organização. No resto do ano, Marina e o filho ficavam protegidos até mesmo de mim, por uma questão de escolha dele, que eu respeitava acima de tudo. Eles eram sua família e ele só continuou agente com essa condição.
- Nós acamparíamos por um mês, talvez dois – eu concluí, para que ele entendesse aonde queria chegar – levaríamos nossos equipamentos, ficaríamos entre montanhas, poderia ser em um local de sua escolha, pois você conhece o interior melhor que eu – minha vida na ADA tinha sido muito mais em setores estratégicos e administrativos do que no campo. Ele era o cara mais competente em território livre do que qualquer um que eu conhecia, não havia área de mata e deserto que ele não havia dormido ou se escondido por dias, até meses. Sem nada além de uma faca para sobreviver.
- Preciso pensar – ele me respondeu, avaliando minhas feições.
Eu acenei, sabendo que sua opinião era importante para mim.
- Se não concordar com isso, prefiro que vá ficar com eles enquanto essa ameaça não for exterminada, Raziel – eu o chamei pelo nome de batismo.
- Não vou deixa-lo sozinho – ele respondeu contrariado.
- Isso não é um pedido – eu disse com convicção, mas depois suavizei – se escolher ficar vai precisa estar seguro em relação a segurança deles e não há melhor jeito de fazer isso do que a vista dos nossos próprios olhos.
Ele suspirou, sabendo que eu estava com razão. Estávamos sob forte ameaça, a bomba que havia explodido no prédio nos dizia exatamente isso.
- E o que você fará com "ela"? Seus olhos curiosos estavam me encarando com receio.
- Ainda não sei – bufei exasperado e ele pareceu avaliar minha resposta sincera.
Eu sabia de quem ele falava, sem ao menos precisar nomear. Nadja, ou "Alena" era fonte de minha preocupação desde que ela havia sido treinada e trazida por uma de nossas agencias terceirizadas para ser uma agente da ADA. A coincidência do momento mais inapropriado, além do absurdo da própria situação, não fugia da minha mente. Havia algo de errado e eu decididamente iria começar investigar a origem do porque ela estava ali.
Mas também havia a questão de nossa segurança para considerar, em primeiro lugar. Eu precisava mover todos nós em uma linha, de preferência não exatamente reta, mas convergente em um ponto: ficaríamos juntos, nos prepararíamos para algum confronto, porque de alguma coisa eu tinha certeza: estávamos sendo caçados, de maneira covarde, mas uma hora ou outra o inimigo mostraria as caras.
E eu estava me preparando para vê-lo.
Com todas as minhas armas.
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Gabriel
Mystery / ThrillerEle tinha um segredo. Ela, um passado. Livro 3 - Série Ripper Publicação semanal. Início: 01/02/2018