Colégio Três Pinheiros Internato e Classes Mistas

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-Por onde você andou, Jota? Está vinte e dois segundos atrasado! - A voz irritada chega até mim. Nenhuma surpresa, pois eu já o tinha detectado enquanto corria pela floresta.

Levanto a cabeça e encontro Sean "empoleirado" sobre a cabeça da gárgula que adorna o portão dos fundos do Colégio. (Portão dos fundos para nós; portão da frente para os humanos).

O Colégio Três Pinheiros fica baseado numa construção centenária, imitando as antigas mansões que a gente vê em filmes de terror. Daquelas com formação retangular fechada. Um pátio no centro, acessível apenas por meio de pórticos guardados por pesados portões de ferro. E estátuas assustadoras contornando a fachada.

O Colégio está dividido em dois ambientes distintos. Numa ala, a vida escolar dos adolescentes acontece de um jeito; na outra, acontece de um jeito muito diferente. Só depende da espécie a qual você pertence. É como se o prédio fosse dividido em dois espelhos posicionados de costas, um para o outro. Metaforicamente falando, é claro. Eu estou me referindo apenas ao seu funcionamento interno, para descrever as duas partes.

Olhando de fora, não se percebe... Ou melhor, os moradores da cidade sequer imaginam o que acontece lá dentro. Para todos os efeitos, aquele é mais um tradicional colégio interno administrado por um grupo particular.

No mais...

A construção imponente, com paredes cobertas de primaveras, faria os fãs da literatura sobrenatural, e suas baboseiras, se lembrarem de casarões góticos mal-assombrados.

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Olho para cima e faço uma careta diante do estranho par: meu irmão e a gárgula inanimada. Do ângulo em que eu me encontro, as cabeças de ambos se sobrepõem, e me encaram com uma carranca quase idêntica.

Sempre achei aquela estátua horrorosa! Eu não preciso de lembretes sobre os inimigos naturais da nossa espécie. As aulas de História Primordial Comparada já são suficientes para meter medo em qualquer jovem imortal... Penso que foi um tremendo mal gosto de quem colocou aquela estátua lá em cima.

Sean sorri de repente, apontando o dedo na minha direção. – A-há! – grita.

Sua visão apurada deve ter detectado os rasgos na minha roupa. Desvio o olhar, comprimindo os lábios.

Vejo meu irmão se segurar brevemente ao beiral do telhado, para tomar impulso - um movimento que não exige esforço (os humanos seriam de opinião contrária, caso pudessem nos ver fazendo isso). O vento balança os seus cabelos acobreados, quando ele salta numa pirueta invertida. Uma cambalhota, duas, e ele se deixa cair, vencendo vertiginosamente quatro andares do prédio até o chão. Sob o ponto de vista humano, tudo levaria a crer que uma tragédia aconteceria. Mas, para a nossa espécie, a queda não provocaria nem mesmo uma unha quebrada.

Mas, Sean não cai. Ele pousa quase sem ruído sobre a ponta dos próprios pés... E imediatamente reaparece ao meu lado.

Não. Ele não me pergunta como foi a minha missão, porque sabe que eu não posso falar a respeito com nenhum dos recém-iniciados. Aliás, com ninguém. E isso inclui o meu próprio irmão.

-Vamos - ele diz, simplesmente. - O caminho ainda está livre.

Corremos pela alameda feita com blocos de pedra. Sean diminui o passo para que eu consiga acompanhá-lo. De nós dois, ele é o mais veloz, considerando a nossa escala de avaliação. Já para os humanos, não há a menor diferença: ambos passaríamos como dois borrões inexplicáveis. Dois borrões que eles fingiriam não perceber... É o que os humanos fazem de melhor: ignorar o que não entendem.

Contornamos uma das quatro grandes torres do Colégio – a torre do relógio – antes de atravessarmos o portão e o pátio. Voilá! Estamos de frente para a monumental porta de acesso. Agarro a alça pesada e giro velozmente, controlando a força necessária para empurrar as folhas de carvalho sem destroçar sua estrutura. Esse é mais um dos muitos controles que precisamos exercer: controlar a nossa própria força. Caso contrário, acabamos como os draugers - verdadeiras máquinas de destruição.

Atravessamos como dois foguetes o vestíbulo e o amplo hall, rumo à escadaria. Quando já estamos chegando o topo, no mesmo patamar que os vitrais majestosos, uma voz de trovão nos faz parar:

-De onde os senhores vêm? - O dono de voz tão peculiar é um dos nossos... Mas, às vezes, acho que ele pertence a uma "classe" muito superior de imortal. Sempre onisciente e onipresente, não há nada que ele não saiba dentro dos domínios do Colégio.

Ouço Sean expirar com força... Giro nos calcanhares a tempo de ver o diretor do Colégio erguendo a grossa sobrancelha negra, em expectativa.

-A propósito, aonde pensam que vão? - ele emenda outra pergunta, impassível.

-Eu estava na Pensão McPherson, senhor. Tenho um passe... - tateio nos bolsos em busca do pequeno tíquete carimbado. Congelo. Será que eu o perdi durante a corrida? Um milésimo de segundo se passa antes que eu sinta as bordas picotadas do papel tocarem a ponta dos meus dedos.

Respiro, aliviado, enquanto estendo o passe na direção dele; porém, o Diretor Bourke faz que não com a cabeça. Baixo lentamente o braço, sem saber ao certo como agir.

-Eu sei o motivo e o destino do seu passe, Sr. Hume. Afinal, fui eu quem o autorizou – explica o diretor, em tom levemente entediado. - Não estou questionando você... – desvia olhar arguto para o meu irmão, que permanece de costas.

Sean já andava na mira do diretor há algum tempo. Como a culpa do atraso é minha, não posso deixar que ele seja penalizado.

-Eu me atrasei vinte e dois segundos, senhor. – Apresso-me em explicar. - Sean estava apenas me esperando no pátio.

O Diretor Bourke me encara outra vez. Penso ter visto um brilho de divertimento no fundo daqueles olhos escuros e diabólicos.

-Que eu saiba, você dois são gêmeos, não siameses - ele mantém as mãos às costas, enquanto apoia o pé direito sobre o primeiro degrau da escada. - Está na hora de arranjarem uma desculpa melhor do que os laços consanguíneos.

Sean faz uma careta. O seu esforço para conter uma resposta mal-educada é visível. Bem, se ele abrir a boca, fatalmente eu farei "voar" a minha mão para fechá-la. Imagine o som de uma pedra se chocando contra outra pedra? Isso vai ser a minha mão na cara dele. Mas até aí, tudo bem. Melhor isso do que Sean receber penalidade por desacato.

-Está certo, senhor - concordei, querendo apaziguar o ambiente.

O Sr. Bourke fica me olhando, em total imobilidade. De repente, apareceu do nosso lado tão rápido, que nem nossa supervisão consegue captar o movimento. Sean sai do seu estado de letargia e dá um pulo para o lado. Tanto eu quanto ele ficou abalado.

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