CAPÍTULO 10 - O sono dos justos

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Havia passado um pouco mais de um mês desde o acidente. Maya fazia fisioterapia de três a quatro vezes por semana para ver se daria tempo de entrar  no interestadual ou teria de voltar para o México e viver a sua vidinha boba de antes. Willian e Débora haviam feito as pazes apesar do garoto ainda fugir dela como o diabo foge da cruz. Maya, claro que não entendia aquilo, pois depois dele ter cuidado dela nada, absolutamente nada, aconteceu entre os dois. 

Fora o fato de eles estarem sempre conversando e o melhor: SEM BRIGAS!

Naquele dia, Maya entrou como sempre,sem bater no apartamento, o menino estava deitado no sofá, passando os canais da TV e nem ligou. Era fim de tarde e os últimos raios de sol entravam pelo lugar dando uma tonalidade alaranjada ao recinto.

— Boa tarde. – Ela disse arrastando uma balde e seguiu para a pia dele.

— Boa tarde. – Respondeu. – Posso saber o porquê você está aqui e com uma balde? – Perguntou sem tirar os olhos da TV.

— Ai, seu grosso! – Disse ela se virando enquanto terminava de encher o tal balde. – Acabou a água do outro lado do apartamento, eles só liberam amanhã sete horas agora, e só deu para eu tomar banho, preciso fazer algumas coisas, então vim pegar água aqui, algum problema? – Subiu as sobrancelhas e ele apenas fez que não com a cabeça. — Vai me dizer que não está sabendo disso? Todo mundo está fazendo estoque de água, pois serão três dias assim.

— Na verdade não. E nem você, que pelo visto também não fez estoque de água como todo mundo. – Maya se virou em direção a Willian com um sorriso cheio de segundas intenções e os olhos pequenos.

— Claro que eu fiz. O que você acha que eu estou fazendo aqui?

— Que folga é essa? – Perguntou subindo uma das sobrancelhas e virando o rosto para poder ver a moça.

— Folga nenhuma. – Ponderou. – É apenas sobrevivência.

— Mas não tem água nenhuma?

— Ter, tem, mas sua coloração amarronzada e seu cheiro de peixe morto não é dos mais agradáveis. Enfim... – Deu os ombros e Willian apenas revirou os olhos, voltando a prestar atenção no que estava acontecendo ignorando o comentário ofensivo sobre os pobres peixinhos.

Maya começou a pegar toda a água que precisava e não precisava,  e assim que estava terminando, ela ouviu um fungar. Franziu a testa e começou a procurar de onde vinha aquilo, procurava, procurava e nada. Até que ela olhou para Willian e o viu limpando o rosto. Franziu a testa novamente, antes de se virar para ele com um misto de calmaria e confusão.

— Willian, porque está chorando?

— Porque o levaram embora! – Disse com a voz barganhada.

— Ele quem?

— O Nemo!

Maya fechou a cara na hora e jogou um dos ursinhos de pelúcia que enfeitavam o lugar, arremessou com força.

— Vire macho, droga! – Ela pediu enfezada.

— Me deixa, ok? – Sua voz ainda era fanha. – Isso me deixa triste.

— Amanhã eu irei te mostrar o que é um filme de macho, beleza? – Ela disse antes de jogar os cabelos ao vento e sair com seus milhares de balde quase caindo por conta do peso e a perna manca, batendo a porta do apartamento de Willian com força. Mulheres...

No outro dia, a água ainda faltava dessa vez no lado do apartamento de Willian, que lamentava eternamente por não ter adquirido uma fonte como Maya, pelo menos para tomar banho. A garota que havia acabado de acordar, lembrou-se que havia esquecido seu celular em cima da pia do garoto, por isso, pensando que ele estava dormindo, seguiu até lá silenciosamente para pegar o aparelho e sumir dali.

Sobre eu e você (Concluída)Onde histórias criam vida. Descubra agora