Tudo era branco, limpo e cheirava bem. A janela estava aberta e uma brisa fresca e gostosa soprava refrigerando o ambiente. Janete percebeu que usava uma roupa especial, uma vestimenta verde bem clarinha, cobrindo todo o seu corpo, dessas que se colocam em pacientes internados. Seus braços estavam com alguns curativos de onde subiam os tubos que a alimentavam com soro. O relógio na parede marcava oito horas de uma linda manhã.
- Janete, filha. Ela está acordando, frei Castilho! Filha, estamos aqui! Está nos ouvindo?
Isaura ansiosa observava a jovem que aos poucos, recobrou a consciência. Janete piscou os olhos seguidas vezes, a claridade do ambiente em que se encontrava incomodava um bocado. Sua visão se acostumou à luz do dia e percebeu que estava em um quarto de hospital.
- Isaura.
Sua voz era baixa e fraca. Sentiu a garganta arranhar um pouco.
- O que houve? Isso aqui é um hospital?
Disse com dificuldade para respirar ao mesmo tempo em que fez esforço para se levantar da cama apoiada sobre um dos braços. Sentia-se cansada, seu corpo inteiro doía, parecia mesmo que tinha levado uma surra.
- Filha, você não se lembra de nada do que lhe aconteceu?
- Eu. Não.
Apertou os olhos tentando organizar os pensamentos, silenciou por alguns instantes, respirou fundo e continuou falando com dificuldade.
- Bem, eu voltava para casa ontem, eram cinco horas da tarde mais ou menos, estava escurecendo, eu vinha da limpeza que fui fazer na casa de frei Castilho e na igreja, retornava a pé para casa, caminhava normalmente até que me senti estranha, fiquei zonza, me senti mal, acho que desmaiei, não sei dizer direito. E agora, estou aqui. É tudo o que me lembro. É o que me vem à mente.
Respirava com um pouco de dificuldade, seu tórax subia e descia devagar. Podia sentir seu coração pulando dentro do peito, seu corpo se agitava com aquela situação tão apavorante e inusitada.
- Janete, minha querida... Você ficou desaparecida por várias semanas!
Isaura já não conseguia mais conter as lágrimas, estava nervosa, apertava uma das pontas do lençol que cobria a jovem. Janete, atônita e confusa, fechou os olhos e respirou fundo. Desaparecida por semanas. Só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto. De modo algum poderia acreditar que aquilo estava acontecendo. Experimentou naquele instante uma sensação muito ruim. Seu estômago gelou, sua respiração ficou descompassada e seu coração disparou. Parecia que era espectadora de uma outra vida, de uma outra Janete, de uma outra realidade que não era a sua. Estava ali deitada naquela cama de hospital, sendo examinada e sem ter a menor ideia do que tinha lhe acontecido. Era ruim demais sentir-se à mercê de acontecimentos que ignorava, que era incapaz de se lembrar. Buscou em sua mente algo que pudesse fazê-la rememorar o dia anterior, ou melhor, o dia passado há semanas, quando desapareceu. Imaginou cenas de terror nas quais era sequestrada por bandidos, mas como, se era pobre, não possuía bens, nem dinheiro, nem joias? Quem sabe, teve um mal súbito e alguma boa alma a levou para casa enquanto estava desacordada e cuidou dela e posteriormente comunicou às autoridades. Mas carregava consigo sua identidade, sempre. Era improvável que se alguém a tivesse encontrado não fosse comunicar imediatamente. Aqueles pensamentos estavam fazendo com que se sentisse pior. Sua cabeça vazia de lembranças era uma das piores sensações que já teve em toda a sua existência.
Foi a vez de frei Castilho falar.
- Menina, todos ficamos desesperados com seu sumiço! A pobre Isaura quase enlouqueceu, achamos que estivesse morta!
VOCÊ ESTÁ LENDO
ABDUÇÃO
Sci-fiAo despertar no leito de um hospital, após semanas desaparecida, Janete não poderia imaginar que sua vida mudaria para sempre. Seus dias de estudante universitária no interior do Rio de Janeiro estavam contados. Agora ela era a futura mãe de um ser...
