A neve caía pesada nas províncias nortenhas, empilhando-se pelos jardins e caminhos do palácio pedregoso, onde, com certa dificuldade pelo piso congelado e escorregadio, corria um dos jovens servos do ducado, levando entre os dedos um pequeno envelope. O papel amarelado e selado grosseiramente com poucos pingos de cera marrom e mal colocada chegou a posse do duque de cabelos escuros, interrompendo completamente o trabalho exaustivo que exercia na biblioteca grande e bem iluminada.
–Não sabe mesmo quem enviou?
O nobre questionara o jovem enquanto analisava o envelope por todos os lados, porém, sem abri-lo.
–Não, senhor. Sei apenas que chegou em um pombo, recebi-o há poucos minutos. Como tem escrito apenas o seu nome e que é urgente, apenas trouxe.
–Claramente não é nenhuma comunicação oficial, ou teria um selo... Alguém mais sabe da existência dela?
–Não, meu senhor, apenas eu.
–Fez bem, meu jovem. Provavelmente é algum civil requerendo algo que não temos controle sobre, então não comunique a mais ninguém o recebimento, sim? – O monarca recebeu um aceno positivo do empregado e afastou um pouco os papeis que analisava como se afastasse as responsabilidades que tinha com eles em prol do involucro misterioso. – Já pode ir, rapaz.
O moço deixou a biblioteca rapidamente, fechando a porta atrás de si e deixando o duque herdeiro sozinho com a carta. Nada naquela folha grossa e amarelada revelava o que poderia ser seu conteúdo e pouco de seu exterior dava dicas. Haviam cinco clãs no território conhecido e, como a sociedade minimamente civilizada que estabeleceram, cada clã tinha seu brasão e cores específicas, tanto em armaduras e trajes sociais da nobreza, quanto para documentos e cartas enviadas. Tais regras não se limitavam apenas à elite, os plebeus, identificados com o clã que pertenciam, também tendiam a usar as marcas de seu povo, ostentando-as com orgulho, apesar da discriminação que os clãs mais baixos sofriam. Dessa forma, os cinzentos selavam suas cartas com cera prateada, os lobos vermelhos com uma de tom alaranjada, os pardos com a marrom – a de maior mal gosto, na opinião do duque – e os negros, com cera negra, obviamente, porém essa sempre fora considerada a mais bonita pelo nobre, visto que, em prol de se ver o assustador lobo do brasão, a cera era brilhosa como se possuísse estrelas. Diziam que os albinos escreviam em papel negro como a noite apenas para poderem usar tinta e cera da cor de seus cabelos mitologicamente claros, mais isso poderia muito bem ser folclore, o duque nunca tinha visto nenhuma evidência de lobos albinos, quiçá, um documento por parte deles.
"Jung Hoseok, duque herdeiro de Daegu.
Urgente"
Era apenas isso. Não constava mais nada no exterior do envelope. Era uma carta enviada de território pardo, ou, ao menos, por um membro do clã, isso ele podia garantir pela cor do selo mal feito. Mas o remetente é quem era o enigma. Por ser um papel tão grosseiro e ter sido tão porcamente lacrado, o Jung simplesmente assumiria que fora algum plebeu letrado que escrevera, algum que soubesse de sua descendência parda e que seu príncipe também deveria comandar aquele território, mas a letra no verso era bela demais para ser de um mero camponês. Aquele tipo de caligrafia era difícil de ser dominada, diziam até mesmo ser a oficializada pelos reis e nobres albinos, ele mesmo nunca fora capaz de escrever daquela forma. Era a carta de um nobre e não de qualquer um, um nobre com posto alto na hierarquia dos clãs, visto que tinha certeza que o príncipe Im jamais havia aprendido aquela escrita enquanto era alfabetizado. Rompeu o lacre instável para encontrar uma mensagem curta na mesma caligrafia intricada do verso.
"Senhor Jung,
O general negro foi vítima de um golpe realizado pelos soldados pardos enquanto voltava de Busan. Foi ferido gravemente, mas sobreviveu. Subíamos para Daegu quando fomos capturados por Jeon Jungkook, não tenho notícias do general desde então.
