Capítulo extra - A lenda dos lobos de olhos azuis

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Em tempos passados, muito antes do uivar imponente de qualquer híbrido rasgar pelas vastas planícies e montanhas do território conhecido, tudo se restringia apenas à cidade originária de Seul. Embora sendo um condado próspero, profundamente enfincado em solos férteis e boas estações, a linhagem dos governantes temia seu fim, a gravidez mais recente da rainha Kim resultara na sétima princesa e, por mais que a saúde da criança lhe agradasse, o rei não se satisfazia com a inexistência de um herdeiro direto.

Desesperado pela possibilidade de entregar a obra de sua vida a um nobre qualquer que desposasse sua primogênita e pela idade avançada que atingia sua amada, que, segundo os comentários da velha parteira, não seria capaz de gerar mais uma criança tão saudável quanto as garotas, o rei recorrera aos sussurros que rondavam o palácio, buscando em meio às crendices e mitos de seu recente império por uma solução. Por intermédio de um de seus criados, de aparência destoante dos demais devido a sua origem em terras longínquas, conseguiu colocar as mãos em um pergaminho tão antigo quanto a existência dos homens naquelas terras. O preço ultrapassava os limites do imaginável, custando quase um ano de riquezas, e o rei não era capaz de compreender uma só palavra dos estranhos símbolos curvados marcados em tinta negra, mas nada seria demais para satisfazer o desejo doentio do monarca por um herdeiro.

Munindo-se de alfabetos e dicionários que fora capaz de encontrar sobre o desconhecido idioma, assim como da ajuda do criado estrangeiro, o governante foi capaz de, pouco a pouco, entender o extenso rolo de papel envelhecido pelos anos de esquecimento. O pergaminho continha a história de um camponês, cuja ausência de filhos comprometia o futuro de sua fazenda, cujas terras montanhosas não eram capazes de sustentar gado o suficiente um dia pagar o dote das sete moças que sua esposa havia gerado. Implorando pela ajuda dos deuses que servia, o homem propôs-se a entregar ao poderoso deus dos trovões o melhor e mais valioso guerreiro que haveria na terra e, para cada filha que já havia recebido, montaria um altar, sendo que o maior deles seria destinado ao rapaz que desejava, oferta essa que, com certo desdém, foi bem aceita pela divindade.

Apesar da desconfiança dos deuses, o camponês foi capaz de, em um golpe certeiro e inesperado, abater o maior homem de guerra que sua nação já havia conhecido, assassinando-o em seu sono. Orgulhoso de sua conquista, o camponês montara cuidadosamente os sete altares, um em cada cidade que passara até a residência do guerreiro, oferecendo o cadáver no maior e mais opulente deles. O senhor dos trovões, a princípio, ficara impressionado com a determinação e coragem de um mero camponês, e, antes mesmo de conferir a oferenda, destinara o sopro de vida ao ventre da esposa, o tão desejado filho. Porém, ao se aproximar do grande altar, a divindade deparou-se com seu único filho na terra, destinado a grandes conquistas, morto em meio aos grãos, frutas e flores que compunham a generosa oferenda.

Tomado pela fúria, o deus do trovão desejou retirar a vida que crescia no ventre fértil da camponesa, mas fora convencido por uma de suas filhas no reino dos céus, notória pela sabedoria, que o pobre camponês não era culpado da grandeza de seu único semideus e que, como havia prometido, havia lhe trazido o maior dos maiores. Ainda sentido pela morte de seu grandioso descendente no mundo nos homens, o deus do trovão permitiu que a criança fosse gerada, contudo, jogou uma maldição sobre o feto em desenvolvimento. Dessa forma, todo casal que gerasse sete filhas e, por medo de decadência, desesperadamente gerasse um oitavo seria abençoado com a criança forte e saudável, porém... A tradução do monarca Kim parara aqui.

O rei de Seul não podia acreditar que seu desespero o havia levado exatamente para o caminho certo, parando as traduções sem concluir a leitura e subindo às pressas para os aposentos de sua esposa, onde, numa esperança final, concebeu o oitavo filho. Nenhuma palavra seria capaz de descrever a felicidade do casal quando, após mais de um dia de trabalho de parto, o desejado herdeiro veio ao mundo no final da lua crescente, passando o pôr do sol em três horas.

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⏰ Last updated: Feb 10, 2019 ⏰

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