Décima quarta ferida aberta

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O clima fora do castelo continuava, grau a grau, a abaixar. Aquele inverno estava sendo o mais rigoroso que o albino já presenciara, até mesmo comparado aos do Norte de onde viera, mas nada ali era de se estranhar. Ele sabia que o calor da primavera eventualmente viria, mas não traria consigo boas novas. Caminhara para fora dos limites do castelo, enfrentando a neve que caía pesada em seus cabelos escuros, camuflado como o dos pardos, até avistar o local combinado. Não era nada demais, apenas uma pequena choupana esquecida pelo tempo e localizada no coração da floresta que cercava o palácio, relativamente próximo ao local em que o duque pardo levara o cinzento para patinar, porém, seus interesses ali eram muito menos divertidos.

Entrara. O local ainda estava deserto, o que torcia para que fosse apenas devido à nevasca daquele dia, forte o suficiente para atrasar viagens. Agora sozinho e seguro, os cabelos escuros voltavam a cor natural, o branco suavemente azulado como os flocos que cobriam o território. Ele preferia assim, odiava ter que esconder sua descendência quando descia ao sul, sob o risco de ser capturado como atração. Os clãs sulistas estavam sempre envolvidos demais em suas guerras fúteis para entender o quanto sua causa era mais importante que a cor das madeixas que ostentava. "Ele já devia estar aqui", pensava observando os fios de luminosidade que ultrapassavam as tábuas das janelas correndo pelo chão conforme o astro celeste se deslocava pelo céu. Passara algumas horas aguardando, cada vez mais impaciente, até que finalmente ouviu o trote de um corcel se aproximando. A audição aguçada acompanhou a chegada do equino, em seguida, os passos do cavaleiro até a entrada da cabana, ouvindo as esperadas cinco batidas na porta, com o ritmo e cadências corretas do código estabelecido. Abriu a passagem, encontrando em meio a neve um jovem rapaz, alto, de olhos escuros – mas contendo o mesmo brilho esverdeado no fundo da íris que os seus próprios possuíam – e cabelos alaranjados como a ferrugem que comia as antigas dobradiças da porta.

–Pode falar, Hyung... – O rapaz correu os dedos pelas madeixas coloridas, jogando-as para trás em um movimento caricato. – Não tem uma cor de cabelo que não fique bem em mim!

Seokjin deixou os olhos correrem nas órbitas, revirando-os tanto que bem poderia ser capaz de ver a própria nuca. Mas em meio à impaciência pelas bobagens do aprendiz estava o alívio: ele estava ali, estava bem e, considerando todo o bom humor, a missão no clã vermelho fora um sucesso.

–Eu não acredito que veio até aqui com os cabelos vermelhos, Taehyung! Foi extremamente descuidado! Não te ensinei isso para que "fique bem" com as características de outros clãs, ensinei para que possa cumprir seu dever com a maior eficiência possível. – Apesar das palavras sérias do mestre, o jovem mantinha a expressão divertida no rosto, como se esperasse a continuação da frase. – Mas devo admitir que o ruivo é o meu preferido até agora!

–Não se preocupe, Hyung, estive disfarçado esse tempo todo. É que eu fiquei tão sensacional ruivo que precisava te mostrar!

–Menos, garoto, bem menos. E não me chame de hyung! Tenha o mínimo de respeito pelo seu mestre.

O garoto se desculpara, fazendo breve reverência ao homem diante de si antes de entrar na cabana, os cabelos assumindo o branco natural assim que a porta foi fechada. Caminharam juntos até a pequena mesa que ocupava o meio da sala, sentando-se nas cadeiras precárias e instáveis. Seokjin não tirava os olhos do rapaz, contudo, seu olhar não passava de admiração aos detalhes. Não via Taehyung desde que se separaram em território cinzento, logo após a captura de Jimin pelo general do exército negro, quando Seokjin viu-se obrigado a seguir o exército pardo a procura do, na ocasião, desaparecido duque e seu aprendiz, enviado para que obtivesse informações sobre as intenções dos outros clãs, e o tempo que passaram separados realmente deixaram marca na aparência do jovem.

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