xiv. can't stop thinking about your lips

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[segunda-feira, quando harry volta ao trabalho]

Antes de ser batizada como Audre Lorde, a escola em que Harry lecionava era comumente chamada pelo nome do bairro, que remetia o local a uma reputação ruim e marcada.

Durante um breve intervalo, certa manhã, os professores começaram a citar nomes de pessoas ilustres e a supor o impacto que teria na imagem escola caso fosse nomeada daquela forma. O que surgiu como uma brincadeira, se tornou algo maior, um imenso motivo de orgulho e honra para as pessoas que estavam empenhadas a transformar o local, tornando-o satisfatório para todos que pisassem lá um dia

Foram cogitados Bob Marley, Rosa Parks, Malcom X, Ray Charles, Nelson Mandela, Luther King, Angela Davis, Michelle e Barack Obama, Oprah Winfrey, Maya Angelou…

Audre Lorde venceu.

Nascida em Nova York, em 1934, foi uma mulher escritora, ativista, lésbica e feminista. Na época, questionou feministas brancas sobre diversas questões raciais e apontou as opressões a que as mulheres negras eram submetidas pelas mulheres brancas, se tornando uma voz de grande peso dentro do movimento.

Opressão, mulherismo, feminismo, racismo e direitos civis eram as questões mais abordadas por ela.

Lutou por quatorze anos contra o câncer de mama e morreu em 1992, antes de completar sessenta anos. Suas obras se tornaram referência e inspiração para estudos.

Toda vez que Harry olhava para o nome imponente na placa que mandaram fazer milimetricamente, ele não conseguia controlar a ufania que se alastrava em seu peito.

Todos os roteiros de suas aulas — alguns deixados para trás por um bom tempo — estavam escritos cuidadosamente à canetas de gel coloridas e cheirosas em uma pasta decorada pelos próprios alunos, cheia de adesivos, assinaturas e rostinhos felizes. Ele poderia segui-los agora, sem medo de não poder dar continuação.

Logo que seus pés tocaram o assoalho, um coro de "bem vindo de volta!" o surpreendeu. Todos estavam ali. O diretor, a vice, os coordenadores, os professores e os alunos que, claro, eram a parte mais importante. Seu rosto poderia se rasgar de tanto que suas bochechas se expandiram em um sorriso, as covinhas bem visíveis e os olhos com algumas lágrimas de alegria.

— Professor Harry, professor Harry! — Todos começaram a aplaudir, uma quantidade considerável de pré-adolescentes abanando desenhos em folhas sem margem, que Harry aprecia mais que qualquer obra do Louvre.

— Oi, bom dia, pessoal! Como estão hoje? Muito obrigado por tudo isso, eu não esperava!

— Você faz parte da equipe, Harry — o diretor comentou, oferecendo um aperto de mão e um sorriso amarelo. — Eu gostaria de conversar um pouco com você, se possível.

Aos poucos, depois de muitos abraços, beijos e saudações, todos voltaram para seus postos. Harry aproveitou o momento para conversar e confrontar o diretor. Caminhou até a sala dele e bateu, esperando a confirmação para entrar.

— Oi, Harry, eu estava esperando por você — o homem mais velho abriu a porta e o convidou a entrar. — Creio que precisamos esclarecer algumas coisas…

— Eu só queria saber por que você permitiu aquilo. Você sabe das regras, sempre cobrou muito de todos nós e passou por cima delas!

— Harry… — começou, com calma. — Nada do que eu disser vai mudar o que aconteceu. Eu sei o quanto você se dedica a sua profissão e sei que não foi legal, nos dois sentidos, o que fiz — começou a vasculhar alguns documentos em uma pasta. — Essa intimação chegou e eu já compareci à delegacia para dar a minha versão. Eu quero que você saiba exatamente o que aconteceu.

aneurysm • lwt+hesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora