ix. i'll look after you

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Ao entardecer, Harry chegou em casa e começou uma busca incessante por sua cartela de anticoagulantes. Era o dia de tomar a medicação. Refez todos os passos desde a briga com George, o momento em que ele saiu para comprar e quando tomou a primeira dose… e se deu conta de que ele não dava notícias há quatro dias. Esteve tão feliz e radiante nos últimos dias que não teve tempo para perceber a ausência do esposo, era como se ele estivesse no trabalho.

Pegou o celular, pronto para discar o número dos sogros que estava marcado em uma etiqueta colada na capinha. No meio do caminho, todas as palavras e atitudes ruins que aturou do casal Warnock vieram como uma gigantesca maré e, por mais que eles fossem os pais do — possível — desaparecido, decidiu que era melhor contatar a polícia. Harry sempre esteve ciente dos perigos de se acreditar em intuição, mas algo lá dentro dizia que estava tudo bem.

Discou o número da polícia.

Nos primeiros toques, o telefone fez um barulho estranho, zumbindo intensamente e ficando mudo por dois segundos, voltando ao normal rapidamente. Harry não pensou muito, porque alguém atendeu do outro lado e pediu as informações necessárias. Ele contou sobre o tal desaparecimento e explicou por que não ligara antes. O sobrenome Warnock era muito conhecido e cobiçado na cidade, de forma que todos sabiam a dedicação da família pelo trabalho e o resultado que vinha da empresa no fim do mês. Era comum que George ficasse sem fazer contato quando estava trabalhando e, por conta das frequentes brigas, talvez ele pudesse ter voltado antes do esperado. A pessoa do outro comunicou que dois oficiais apareceriam mais tarde para colherem mais pistas sobre o paradeiro de George.

Harry se sentiu mais tranquilo.

Sem muito tempo para continuar procurando a cartela de remédios, encontrou facilmente a receita pendurada na geladeira e decidiu sair para comprar uma nova. Vestiu-se com um casaco quente e caminhou até a farmácia mais próxima, que ficava há poucos minutos.

Tomou um susto quando o farmacêutico o informou o preço, que era alto para uma cartela com apenas 4 comprimidos. Embora fosse um valor salgado, entregou o cartão e sorriu para o homem, esperando para colocar a senha. Tudo estava indo tão bem e tão calmo, que decidiu simplesmente não reclamar e agradecer por ter como comprar o medicamento que precisava. Digitou a senha, esperou a compra ser aprovada e desejou boa noite, indo embora.

Ao retornar, encontrou Bodie segurando algumas sacolas e tentando pegar as chaves no bolso da calça e se ofereceu para ajudá-lo. Não percebeu a Chevrolet Blazer parada um pouco distante, mas ainda na frente do prédio.

Com o portão aberto, foram correndo até as escadas e subiram rapidamente para que o peso não se tornasse insuportável. Harry esperou que o homem abrisse a porta do próprio apartamento e entregou as sacolas que segurava, se despedindo.

Tirou os sapatos ao entrar, os colocando no canto da porta e escolhendo uma música no celular. Parecia tudo em paz, nos eixos. Descartou a embalagem de papel pardo e deixou a cartela na pia, esperando dar o horário para que pudesse se medicar. Colocou água no fogo para preparar um chá de frutas e flores e abriu um pacote de torradas de grãos — suas favoritas porque pedacinhos de gergelim costumavam grudar no meio dos seus dentes e luta para tentar retirá-las com a língua era satisfatória.

Passou creme de inhame nas torradas e adoçou o chá com mel e estava pronto para sentar no sofá e assistir um dos filmes indicados por Gemma, quando escutou batidas na porta.

Batidas muito bruscas na porta.

Dois oficiais estavam parados lá, um ruivo e um moreno. Eles não pediram licença para entrar e se acomodaram no sofá, derrubando algumas gotas do chá que estava sobre o estofado. Sem a devida identificação no uniforme, o que parecia mais velho arrumou a posição de seu cinto e retirou sua pistola do suporte, fitando Harry e a colocando na mesa.

aneurysm • lwt+hesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora