CAPÍTULO ll

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Eu trabalhei por quatro anos em um café de dia e em uma lojinha de pedras esotéricas a tarde, e foi dessa forma que eu paguei pela faculdade.
Não foi nada demais, passou e eu mal me lembro de qualquer pessoa que tenha feito o curso comigo.

Dividi o quarto com um cara que eu só via quando ele estava dormindo.
Eu chegava tarde no dormitório, depois de dar uma volta bem grande pelas encostas da cidade e verificar se havia mais algum da minha espécie por aqui. Mas não havia mais ninguém.
Eu basicamente vivia sozinho.

A cidade pra qual eu me mudei é pequena, mas eu gosto daqui.

Ao fim do último semestre eu achei um lugar perfeito em uma montanha que fica ao norte da cidade para construir uma cabana, não era no topo nem na borda, era exatamente no meio, tinha uma clareira e eu nem precisaria derrubar árvore alguma, um rio corria bem próximo e um paredão de árvores não deixaria o vento bater constantemente.
Demorou quatro meses pra ela ficar pronta.
Carreguei pilhas e pilhas de madeira, lixei e invernizei cada tora.
Cavei todos os buracos e dia após dia ela foi ganhando forma. Não era grande e teria apenas dois cômodos e um banheiro.
Martelei até meus dedos esfolarem, mesmo que eles estivessem curados apenas horas depois.
Fazer o encanamento para o banheiro foi difícil, o esgoto não tinha onde cair, e precisei investir um em um tanque de limpeza de água, dessa forma ela iria limpa para o rio mais abaixo.
As calhas e o teto foram um desafio.
O aquecedor me tomou dias de instalação.
Até construí um canteiro de temperos próximo a janela.

Subir com os móveis levou mais tempo do que pensei, a neve começou a cair enquanto eu ainda estava na cidade comprando eles e eu precisei dormir como lobo dentro da picape por dias até  baixar.

Como lobo eu podia comer, dormir e fazer minhas necessidades básicas sem precisar me preocupar com onde morar ou se eu deveria usar um casaco, porque eu mal sentia frio com os pelos e a pele grossa, mas ter uma casa fazia eu me sentir humano.

Comprei uma mesa redonda, e duas cadeiras, um sofá retrátil, uma geladeira e um fogão.
A cama eu achei numa doação de garagem e só precisei comprar o colchão. De resto eu simplesmente fiz, um armário pra cozinha e um para o quarto, e eu sabia que ia bastar.
Abandonei minha picape ao lado da cabana e me preparei para o resto do inverno.

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Viver na montanha é incrível, eu desço na cidade apenas para coisas realmente necessárias.

Todos os dias antes do sol nascer, eu acordo enroscado como um lobo, corro o perímetro que estabeleci para ser meu território - o som das minhas patas batendo na neve é o melhor som do mundo - e farejo tudo, fora os animais vagantes, nada nunca muda por aqui.

Tem uma cabana a uns dois quilômetros da minha, mas ela sempre está vazia, deixo meu cheiro mesmo assim, pra avisar.
Eu sempre subo até uma encosta, me deito e observo o sol subir com os olhos do lobo, ele vê tudo mais limitadamente, tudo nele é sobre ser um predador, então o sol e a paisagem não tem o mesmo efeito nele que tem em mim como humano, mas eu não me transformaria em homem aqui, o frio acabaria comigo em minutos.

Geralmente eu desço e procuro alguma caça, um coelho adulto - detesto a ideia de matar filhotes - serve por dia.
De vez em quando eu pego algo maior, como um cervo, mas é comida demais.

Comer como lobo não é muito interessante, ele gosta de se manter vivo e qualquer coisa com carne e cheiro apetitivo serve.
Ele não se importa com o gosto, então precisei me acostumar com alguns sabores insossos.

Meu corpo se adaptou ao frio apenas como lobo, e como eu me sinto totalmente a vontade nesse lugar, fico mais tempo como um lobo do que como homem.
Voltar a ser homem tem muitas desvantagens, como o cabelo muito grande a barba e o bafo, as unhas dos pés que eu preciso cortar, o aquecedor que eu preciso ligar e a vontade de tomar coisas quentes, mas é ótimo usar as mãos e tomar banhos de chuveiro.

Como lobo, eu posso ouvir muito melhor, mas aqui sempre tem o som de algum animal correndo ou roendo alguma coisa.
Encontrei meu lugar de paz nas minhas duas formas.

Mas eu não fico só vagando por aí, como biólogo eu observo e anoto tudo, espero um dia poder publicar algo sobre como os animais reagem ao cheiro de um predador, e de como é ser um lobo sem matilha, sobre ursos e seus dilemas de sono e suas frutinhas.

Eu não aprendi tudo sobre ser um lobo solitário, mas acho que estou indo bem.

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Já nem sei a quantos invernos estou aqui, mas o cheiro da primavera começou, então a neve vai derreter logo e ficar correndo como lobo não vai ser tão agradável com água escorrendo pelas árvores.

Me levanto da minha cama com um bocejo gigante como lobo.
Passei a dormir sem roupas, já que acordo como lobo quase sempre.
E é muito mais fácil me jogar porta afora e começar o dia.

A neve começou a gotejar pelas folhas e eu me esquivo o máximo que posso, mas em alguns minutos já estou encharcado.

Tem um barulho diferente hoje, é um guinchado baixo, ao longe.
O vento está contra, então não tem cheiro, não sei se é algum animal, mais um grito corta o ar e eu corro na direção do som.

Raramente algum animal se machuca por aqui, mas tenho certeza que o grito foi de dor.

Encontro a fonte do grito.
Um urso acordou cedo demais.
O pé dele está dilacerado numa dessas armadilhas de chão.

Eu não vou conseguir ajudar muito como lobo, mas sei que ele não vai me querer perto como homem. mesmo assim, tento me aproximar, abaixo minhas patas dianteiras para que ele veja que não estou procurando briga.

Ele urra me advertindo da proximidade.
Eu espero, e chego um passo mais perto.
Mais um urro, e eu estanco.
Fico nessa posição por alguns minutos até ele se sentar com dor, movo mais um passo e ele não protesta.

Demora um pouco, mais eu chego perto o suficiente pra ver que ele pode recuperar o pé, posso sentir que ele está com muita dor, e acho que é por isso que quando eu olho pra cima, ele parece entender que eu não vou machucar.

Muito lentamente coloco minha pata na trava enferrujada, aperto e ela abre com um estalo.

O barulho assusta o urso e antes que eu pudesse reagir uma pata gigante veio de encontro a mim.

Sinto meu corpo deslizar pela neve, minhas costas batem com força em uma árvore e eu tento cravar minhas unhas nela mas não consigo, é ingrime demais e meu corpo começa descer pela beirada de um barranco. 
Eu sei que esse barranco acaba numa estrada, meu corpo começa a rolar e bater em pedras e em árvores e eu não consigo me segurar em nada. quando finalmente paro de deslizar estou no meio da rua. 

Sei que algum osso meu está quebrado, a pancada na rua foi forte. Parece que tem sangue no meu focinho mas minha visão está embaçada e os cheiros estão confusos.

Tem dor em cada pedaço de mim, tento me levantar desorientado e minhas patas traseiras não aguentam meu peso.
Minha respiração sai entrecortada e falhada.
Meus ouvidos estão zumbindo e tento me levantar de novo e não consigo.

Ninguém nunca passa por aqui, então deito minha cabeça nas patas e resolvo esperar pro meu corpo começar a se curar. Não vai demorar.

Menos de um minuto depois um carro vira a curva e vem na minha direção.

A montanhaOnde histórias criam vida. Descubra agora