CAPÍTULO lll

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O carro parou derrapando a centímetros de mim, eu mal tenho forças para levar a cabeça, mas eu rosno quando vejo alguém se aproximando.

Pelo cheiro eu sei que é um homem, e que não é alguém que eu conheça, ele se aproxima lentamente, parece avaliar meu estado, e depois de perceber que eu mal posso me mover ele me pega no colo com certo esforço e desajeitadamente.

Tento me mexer, eu preciso me mexer.
Eu rosno mais uma vez, sentindo dor.

Mas meu corpo não reage, ele me coloca no banco traseiro do carro e põe a jaqueta por cima do meu corpo.

O tempo todo ele tentou falar comigo, usando palavras apressadas e gentis.

Eu só registro que o cheiro dele é bom antes de apagar.

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Abro os olhos devagar.
Todo o meu corpo está alerta.

Estou totalmente for a da minha zona de conforto.
Tem cheiros estranhos e sons de cidade, vozes altas e latidos.
Olho em volta e percebo que estou em uma espécie de jaula, numa sala branca e verde - de puro mal gosto.

Parece um hospital, tem cheiro de hospital. mas não é um hospital.

Droga.

É uma clínica veterinária.

Movo minhas patas até me certificar que já está tudo curado. Não sinto mais dor alguma.

Uma porta se abre atrás de mim e um cheiro muito bom de comida se aproxima.
O lobo se inquieta com a aproximação, um rosnado sai pelos meus dentes.

Meus olhos de lobo não tem uma visão muito boa, mas quando o rosto do homem que se aproxima entra em foco, eu mal consigo acreditar que alguém possa ser tão bonito.

Ele tem a pele escura, olhos negros profundos e o cabelo crespo bem curto.
Ele sorri pra mim como se fossemos velhos amigos.

O sorriso dele é perfeito.

Com cuidado ele põe a vasilha com comida que ele trouxe pela abertura e cruza os braços me olhando.

Eu tô morrendo de fome, o cheiro é bom demais, acho que é sopa com carne.
Faz meses que eu não como nada quente.
Eu não resisto e começo a comer.
O gosto é tão bom quanto o cheiro.

- Você é meu primeiro cliente sabia ? E eu nem sei de que espécie você é, parece um lobo cinzento, mas é grande demais.

Ridículo.
Ele deve ser um veterinário.
E fala com os bichos.
Dr. dolittle.

Eu começo a rir/ ladrar da minha própria piada, ele me olha intrigado.

E chega mais perto.
Rosno de novo, tentando soar ameaçador.
Ele nem liga.

- Não vi sua matilha na estrada, então te trouxe pra cá. Achei que você tinha quebrado a coluna, mas seu raio x tá normal.

Eu o encaro e ele parece ressentido. Quando foi que ele tirou um raio x meu ?

- Você é bem forte, e já está de alta. Vou te levar pra montanha logo cedo.

Ele sorri mais uma vez, mostrando os dentes perfeitos.
E se vai pela porta que entrou.

Esperei até ouvir a tranca da porta de um carro e uso a pata pra abrir a trava da jaula. Fácil.

Pra abrir a janela por dentro eu precisei me tornar homem, foram só dois minutos mais eu já estava tremendo com frio.

Me certifiquei de que não havia ninguém lá fora, fechei a janela e logo minhas patas estavam cavando sulcos na neve.

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A montanhaOnde histórias criam vida. Descubra agora