CAPÍTULO lV

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As frutinhas perto de casa começaram a madurar e peguei uma cesta pra colher várias delas e fazer doces.
Sentado no chão, me dedico inteiramente a colher as mais maduras e nos galhos mais altos. Deixo as dos galhos baixos para os pequenos animais.
A manhã passa lenta, eu acordei bem cedo, e tenho uma cesta cheia quando volto pra casa.

É ridículo.

Vou colocando os ingredientes na panela para fazer o doce.

Eu vou chamar ele pra sair.

Talvez tomar um café ou ver o sol se por do topo da montanha comigo.

Quase desisto.

Mas eu senti aquela coisa outro dia, e ele pareceu sentir também.

Reúno coragem e vou bater na porta do Gus.
Ele abre a porta meio sonolento, sem camisa, lindo, tão lindo.
É incrível ver ele tão a vontade, sorrindo.

- Will, oi !

Então eu escuto o chuveiro dele ligando e algo em mim se revira.
Ele tem companhia. Merda.
Eu entrego o potinho com doce e digo que só vim retribuir os sanduíches do outro dia.

Ele agradece, me olhando levemente desconfiado e volta pra cabana.

A decepção faz com que eu queira ficar só, então me torno um lobo em casa, tranco tudo e pulo a janela dos fundos.
Corro até chegar ao limite que eu estabeleci, mas a mágoa é dolorosa, é quase como se ele tivesse me dito não, então decido ir mais longe.

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Acho que já são sete dias que estou apenas como lobo.

Gosto de viver sem saber onde vou dormir, ou se vou comer alguma coisa, era minha coisa favorita no mundo.

Mas meus pensamentos vagam pra pessoa que eu vim tentar tirar da cabeça.
Me pergunto se ele está conseguindo se virar sem ter alguém pra indicar as trilhas.
Eu não deveria achar que Gus tinha sentido algo também, ele nem demonstrou nada.

A culpa é minha em colocar expectativas.

Respiro fundo, sentindo o ar entrar profundamente pelo meu focinho, e percebo que é hora de voltar pra casa, meu pelo está grudento e fedorento, meus dentes incomodam com sujeiras que eu não consigo tirar e quero muito ver se o idiota sorridente está bem.

Então me viro e começo a caminhada de volta.

Chego um dia depois, me enfio pelo janela e vou direto pro banho, me sentindo bem mais leve deito na cama macia e apago.

Batidas na porta me acordam, reviro pela cama até decidir não abrir, eu sei que é ele, ninguém mais vem aqui.
E ele desiste depois de alguns minutos.
Sem conseguir me conter eu vou até a janela a tempo de ve-lo descer pela estrada, meu coração se aperta um pouquinho.

Mais uma semana se passa e eu sendo um lobo nada sensato, persigo Gus para todos os lugares, na floresta e na cidade, tento evitar pensar o quanto isso me faz parecer um pouco doente.
Ele faz atendimentos simples, de gatos e cachorros todos os dias, passa as tardes pescando no rio - nunca pegou um único peixe - de noite ele liga a TV, ou lê um livro sentado na escada.

Essa semana ele está lendo "O retrato de Dorian Grey", e ele parece sempre tão imerso na leitura que fiz um lembrete para ler o livro um dia.

Tenho a impressão que ele sabe que alguém o segue, mas não demonstra nada.

A cada dois dias ele sobe até a minha cabana, bate por alguns minutos e vai embora, já tem quase três semanas que não nos falamos, e na última vez que ele foi me procurar ele sentou na varanda e esperou por horas.

A montanhaOnde histórias criam vida. Descubra agora